Papa aos párocos

“Se as paróquias não forem sinodais e missionárias, a Igreja também não o será”

| 2 Mai 2024

Papa Francisco no encontro com os párocos em preparação do Sínodo, 2 de maio 2024. Foto Vatican Media

Papa Francisco no encontro com os párocos em preparação do Sínodo, 2 de maio 2024. Foto Vatican Media

 

O Papa escreveu uma carta “a todos os párocos do mundo”, exortando-os a serem “construtores duma Igreja sinodal missionária” e a empenharem-se “com entusiasmo neste caminho”, pois “se as paróquias não forem sinodais e missionárias, também a Igreja não o será”, defendeu. No texto, divulgado esta quinta-feira, 2 de maio, e entregue aos participantes no encontro internacional de párocos – que reuniu nos últimos dias mais de 200 presbíteros em Roma -, Francisco deixa “três sugestões que poderão inspirar o estilo de vida e de ação dos pastores”, tendo em vista paróquias mais sinodais.

“Convido-vos a viver o vosso carisma ministerial específico cada vez mais ao serviço dos dons multiformes semeados pelo Espírito no povo de Deus”, começa por escrever o Papa, apelando aos párocos que experimentem uma “genuína paternidade que não sufoca nos outros, homens e mulheres, as suas muitas potencialidades preciosas, antes fá-las sobressair”.

Francisco sugere, em segundo lugar, que todos os párocos aprendam e pratiquem “a arte do discernimento comunitário”, recorrendo ao método da “conversação no Espírito”, precisamente aquele que foi utilizado na primeira sessão da assembleia do Sínodo, em outubro passado. E, citando o Relatório de Síntese desse encontro, sublinha que “com esta prática será possível reconhecer melhor os carismas presentes na comunidade, confiar com sabedoria tarefas e ministérios, projetar à luz do Espírito os caminhos pastorais, indo para além da simples programação de atividades”.

“Por fim, gostaria de vos recomendar que coloqueis na base de tudo a partilha e a fraternidade entre vós e com os vossos Bispos”, escreve ainda Francisco, alertando que “não podemos ser autênticos pais, se não formos, antes de tudo, filhos e irmãos. E não seremos capazes de suscitar comunhão e participação nas comunidades que nos são confiadas se, primeiro, não as vivermos entre nós”.

Depois, dirigindo-se especificamente aos párocos que participaram no encontro, pede-lhes que sejam “missionários de sinodalidade entre os seus irmãos párocos, quando regressarem a casa” e que permitam à Secretaria Geral do Sínodo recolher a sua “imprescindível contribuição para a redação do Instrumentum laboris”. “A escuta dos párocos era o objetivo deste encontro internacional, mas não pode terminar hoje: precisamos de continuar a ouvir-vos”, conclui.

 

O clericalismo “tem de encontrar um fim o mais rápido possível”

Padre Sérgio Leal. Foto João Lopes Cardoso

O padre Sérgio Leal, da diocese do Porto, foi um dos três párocos portugueses presentes no encontro. Foto © João Lopes Cardoso

 

O padre Sérgio Leal, um dos três párocos portugueses que participaram no encontro, destaca por seu lado que, neste caminho rumo a uma Igreja mais sinodal, é urgente “uma renovação dos processos de formação” dos padres. E, na linha das sugestões de Francisco, refere que “a formação para a comunidade, para as relações fraternas, é fundamental, bem como a formação para um novo ministério pastoral nesta Igreja sinodal: uma forma nova de ser pastor que nos liberta da clericalização, de que tantas vezes nos fala o Papa”.

Tendo concluído no passado mês de fevereiro o doutoramento em Teologia Pastoral, com uma tese intitulada “Pastores para uma Igreja em saída”, o presbítero partilhou com o Vatican News, ainda antes do encontro, que é preciso converter os processos de formação “no seu todo”. É necessário perceber, desde logo, que “a catequese tem que ser feita em estado sinodal, porque esta transformação não pode ser uma mera transmissão de conceitos”. Pelo contrário, “é necessário que esta formação para a sinodalidade passe pelo exercício concreto da sinodalidade”.

Para o pároco de S. Martinho de Anta e de S. Estevão de Guetim, na diocese do Porto, “o clericalismo, tantas vezes motivado pelo clero ou até motivado pelos leigos que vivem, muitas vezes, na dependência do clero e de uma pastoral clericocêntrica, tem de encontrar um fim o mais rápido possível, para que se sublinhe aquilo que neste Sínodo fica tão sublinhado: o protagonista da ação da Igreja é todo o povo de Deus”.

Nesse sentido, “é fundamental que a formação permanente do clero, as equipas de formação nos seminários diocesanos, apontem o projeto educativo, os programas de formação, a partir desta perspetiva sinodal. Porque de outro modo não perderemos apenas o andamento do Sínodo, não perderemos apenas esta perspetiva do Papa Francisco, mas eu creio que perderemos o modo do nosso ministério ordenado ser ainda representativo para a sociedade de hoje”, defende.

 

Muitos aspetos a aprofundar

Luis Marin no encontro com os párocos em preparação do Sínodo, maio 2024. Foto Vatican Media

Luis Marin no encontro com os párocos em preparação do Sínodo, maio 2024. Foto Vatican Media

 

Na sua intervenção durante o encontro de párocos, o subsecretário do Sínodo dos Bispos, Luis Marín de San Martín, reiterou que o atual momento eclesial é “um tempo de renovação e esperança que envolve a todos e precisa de todos”, pelo que “a paróquia assume uma enorme importância”, devendo ser entendida como uma “comunidade de comunidades”.

Reconhecendo que “o processo sinodal começa de baixo para cima” e que “a paróquia é, sem dúvida, um laboratório de sinodalidade”, Luis Marín de San Martín ressaltou também que o pároco deve fugir do “empobrecedor democratismo assambleário” e do “prejudicial clericalismo vertical”.

Fazendo um balanço do encontro – que teve início na segunda-feira, 29 de abril, e terminou esta quinta-feira – o subsecretário do Sínodo dos Bispos considera que houve um bom funcionamento do trabalho em grupos linguísticos, seguindo o método da conversação no Espírito, e um desejo generalizado de participação no desenvolvimento concreto da sinodalidade.

Luis Marín de San Martín considera, no entanto, que há aspetos a profundar, nomeadamente: a verdadeira escuta do Espírito Santo, que fala na comunidade; uma dimensão orante e espiritual; a caridade como eixo: a paróquia como casa de todos; as periferias; o ministério pastoral do sacerdote (sacerdotal e episcopal); a vocação leiga e o seu pleno desenvolvimento; a experiência de comunhão na Igreja e a interconexão entre carismas, vocações e ministérios; o trabalho “em rede” e não como ilhas; a necessária revisão e renovação das estruturas sinodais; a leitura atenta dos sinais dos tempos e dos desafios concretos de nosso tempo; o cuidado com a formação; o desafio digital, novas linguagens e novas presenças.

“Foram dias em que, numa atmosfera fraterna e num clima de reflexão e oração, escutámos os pastores, nos escutámos uns aos outros e escutámos juntos o Espírito Santo, que sem dúvida fala na comunidade reunida”, referiu o bispo agostiniano, assegurando que o trabalho destes dias não deixará de ser usado na elaboração do Instrumentum laboris para a segunda sessão da Assembleia.

“A atmosfera foi excelente, ajudou-nos a aprofundar a comunhão, a fortalecer a corresponsabilidade e a orientar-nos resolutamente para a missão. Foi um momento de encorajamento, de reflexão, de olhar para o futuro e um verdadeiro dom da graça de Deus”, concluiu Luis Marín de San Martín.

 

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