AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Maria Antónia Seara

Se o foco da escola são os jovens, porque não perguntar-lhes o que precisam?

Se o foco da escola são os jovens, porque não perguntar-lhes o que precisam?

by | 26 Jul 20 | Educação / Família, Entre Margens, Sociedade, Últimas

Madalena Matoso - Labirinto sem saída

“Labirinto sem saída”. Ilustração © Madalena Matoso, cedida pela autora.

 

Uma semana antes de começar a quarentena estava exausta, prestes a pedir ajuda aos deuses no meio da ansiedade que a escola me trazia. Na sequência deste desespero, surgiu um vírus que obrigou as escolas a fecharem e os alunos a fazerem uma pausa. Que alívio.

Lembro-me do contraste que senti nas primeiras duas semanas de aulas virtuais. Rapidamente comentei com uma amiga a hipocrisia da escola: até ao momento não nos tinha preparado minimamente para sermos autónomos e de repente tínhamos de agir nesse sentido.

Penso que quase se criaram dois tipos de alunos face à situação: o primeiro, mais comum, são os que, perdidos no meio da liberdade, acabaram por não fazer grande coisa além de assistir às aulas; o segundo, mais restrito e no qual me incluo, quase enlouqueceu por ter a maior margem de manobra de tempo que alguma vez tivera. Não era ideal, continuava a ter o horário escolar, mas podia decidir, após a aula, fazer um treino em casa ou pintar ou cozinhar e mais tarde, ao meu ritmo, fazer e entregar a tarefa pedida. (Estes dois grupos também se aplicam ao período de quarentena sem aulas. Nunca experimentei tantas atividades em tão pouco tempo, fossem elas coisas esquecidas ou suspensas ou oportunidades que surgiam e podia aproveitar por ter uma rotina pouco rígida.)

Na segunda semana voltámos ao normal. Começaram os acompanhamentos obrigatórios que foram uma perda de tempo tanto para alunos como para professores. Porque é que logo após a aula eu tinha de resolver a tarefa, ao invés de quando me apetecesse e fosse mais oportuno? Porque é que resolvíamos as tarefas em conjunto, desrespeitando o tempo de cada um? Perguntei inclusivamente ao meu professor de filosofia, com quem tenho uma relação simpática, se não seria mais lógico e eficiente para todos os acompanhamentos serem separados da aula, de modo a que os alunos tivessem tempo e liberdade para resolverem os exercícios e levantarem questões. Um bom ensino enquadra-se neste modelo: um estudo mais autónomo por parte do aluno no qual o professor interfere como orientador.

 

O que querem aprender os jovens?

Obra de Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza. Foto © Paulo Bateira, cedida pelo autor

 

O confinamento veio acentuar a falta de liberdade dos adolescentes, caracterizada pela gradual integração das responsabilidades adultas no dia a dia, mas ainda com a dependência de uma criança. O discurso da adolescência é já conhecido e ninguém salta anos à frente. Mas então não compreendo porque não se assume a atitude de ajudar o próximo, neste caso, o adolescente. Lembro-me de uma amiga dizer que não sabia se queria ter filhos porque sentia que não existia nenhum lugar seguro no mundo para um adolescente…

Por oposição, é possível dizer-se que todo o lugar físico pode ser um lugar seguro porque este é um espaço criado pela nossa mente onde reside a tranquilidade e a paz de espírito. Mas ninguém nos ensina isso e é aí que a escola falha, na educação (curiosamente o seu propósito). A ansiedade é um tema muito recorrente e associado à escola.

Mais recentemente assistimos a injustiças e desgraças (e à reação do público,) seja através das notícias ou das redes sociais. Verifico um sentimento de desorientação coletivo e esta confusão leva a que muitas vezes o ser humano seja impulsivo, o que, em contexto social se pode mostrar muito grave. Não sou apologista do determinismo radical, entendo que somos profundamente livres, mas sei que há fatores muito influentes nos nossos pensamentos e ações. A educação é um deles. A solução para as desgraças sociais (e com desgraça social contemplo qualquer falta de respeito e consideração) é a educação. Pode parecer óbvio, mas não é isso que se verifica na prática.

Por várias vezes me questionei acerca do objetivo das prisões. Uns afirmam ser a ressocialização, muitos outros a punição. E desejar o mal a alguém de volta não é a ação mais hipócrita independentemente do cenário? Agir de acordo com aquilo contra lutamos? E por não nos apercebermos que a nossa arma é igual à do inimigo, permanecemos em guerra, para sempre. A prisão deve assemelhar-se a uma escola, para aqueles que não aprenderam em condições a matéria ou se esqueceram. Este é, em último caso, o castigo aplicável por ser (eventualmente) contra a vontade dos presos. Mas o problema social reside, quase sempre, na fraca preparação inicial, ou seja, aquilo que a escola não ensina.

Com isto quero dizer que a escola é mais importante do que julgamos. É certamente a instituição mais importante numa sociedade, pela sua função e consequente responsabilidade. Por princípios de equidade, a escola deve ensinar muito mais que a matéria estritamente profissional. É da responsabilidade da escola a abordagem de tópicos como a inteligência emocional, educação política, temas polémicos, valores e “bons princípios”, educação sexual, educação financeira e resolução de problemas quotidianos de cariz prático e não teórico (entre outros).

Admiro o esforço de alguns responsáveis que se repercute na tentativa de melhoria; é, no entanto, uma tentativa mal estruturada, porventura por ser unidirecional, ao invés de cooperativa. Se o foco são os jovens, porque não lhes perguntam o que precisam? O que querem aprender? Penso que enquanto o programa se basear em suposições, o ensino será desagradável para os alunos, e isto pode não parecer um problema, já que nem sempre gostamos do que fazemos e nos acontece, mas a melhor forma de atingir objetivos comuns, neste caso a aprendizagem, é a cooperação.

No fundo, vivemos, ou devemos viver, para facilitar a vida uns aos outros, eterna e inevitavelmente numa comunidade. Os alunos desmotivados acabam por não agir como é esperado, e os professores, no seguimento, ficam também desmotivados. Cria-se um ciclo vicioso. A desculpa dos alunos serem mal-educados só prova que a escola está a falhar, porque sabemos que em pleno século XXI, felizmente, os pais não são a única fonte de educação.

 

Avaliação para quê?

Obra de Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza. Foto © Paulo Bateira, cedida pelo autor

 

O sistema de ensino português, tal como muitos outros, é disfuncional em quase todos os aspetos, na minha opinião. Não obstante, sei que toda a mudança é gradual e lenta. O sistema devia ser muito mais livre, de forma a fomentar a responsabilidade e a autonomia. A título de exemplo, em escolas alternativas, as aulas são individuais, sendo que nenhum professor leciona apenas um aluno e nenhum aluno aprende somente com um professor, é uma comunidade de aprendizagem. Os alunos escolhem também o que aprendem (além das aprendizagens essenciais) mediante os seus objetivos e decidem, juntamente com os professores, o seu horário escolar consoante a sua disponibilidade, vontade, ritmo e horário biológico.

A avaliação é uma questão um tanto controversa. Não sei se as vantagens da competição que a avaliação nas escolas incita, existem de facto. Na realidade, o que se verifica, é um grande medo por parte dos alunos (em aprendizagem) de errar. Sabemos que não há margem para erros com esta avaliação. Mas o erro faz parte do progresso. Só podemos ver alunos excelentes se virmos alunos a errar, a experimentar, a descobrir os seus interesses e capacidades e a evoluir. É, sem dúvida, porque o sistema descarta esta ferramenta indispensável que não saímos de um nível mediano e não damos uso e valor às capacidades de cada um. Esta metodologia da perfeição pode também oprimir a criatividade e o pensamento crítico. Portanto, a experiência é um bom investimento.

Parece-me ainda que a avaliação se opõe, ou pelo menos sobrepõe, à aprendizagem. Esta ferramenta tem como objetivo percecionar aquilo que os alunos foram capazes de reter das aulas. Porém, torna-se pouco útil uma vez que, após o momento de avaliação, segue-se uma nova matéria. De que serve uma sondagem se não há um trabalho posterior relativo à mesma, ou seja, se não há de novo aprendizagem e avaliação como um ciclo repetido até atingir o sucesso? Retomando a analogia das prisões, um recluso que não recebe apoio e educação é propício a manter os comportamentos que o levaram à cadeia. Assim, parece que estes indivíduos estão condenados a viver um ciclo sem saída, por falta de oportunidades.

Há dias, no Instagram, relativamente ao regresso às aulas, li: “Se não há condições para garantir o ensino, mas há para a avaliação, então claramente a prioridade é a avaliação… e isto diz muito sobre o nosso sistema.” O sistema aproveita-se da maleabilidade dos jovens para seu proveito, ao invés de a usar como ferramenta do futuro. É urgente redirecionar o foco do ensino para o aluno, como pessoa. Cada um com necessidades e competências diferentes.

A solução para alunos com baixo rendimento escolar não deve ser uma avaliação menos exigente, mas sim uma abordagem das matérias que se adapte aos mesmos. Os professores devem ser suficientemente flexíveis para encontrar o método que mais se adequa ao aluno em questão. Numa conversa sobre o ensino ouvi que “não existem alunos deficientes, existe um sistema deficiente”. A situação atual do vírus forçou os professores e responsáveis do ensino a serem criativos e resilientes. Esta é a época de ouro para começar ou continuar uma revolução a nível da educação.

 

Maria Antónia Seara é estudante do 11º ano, em Aveiro, e integra a rede da Greve Climática Estudantil.

 

[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]

A Paz à procura do Nobel

À Margem

A Paz à procura do Nobel

À hora a que este texto está a acabar de ser escrito – às 17h18 de quinta-feira, dia 8 – ainda não foi divulgado quem receberá, este ano, o Prémio Nobel da Paz. O leitor mais tardio, todavia, já saberá se a distinção foi, além de merecidamente atribuída a alguma pessoa ou organização, útil para chamar a atenção do mundo para algum conflito ou guerra que permanece por resolver, apesar dos esforços do laureado.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Apelo ao Governo

Cristãos do Bangladesh querem feriado no Domingo de Páscoa e maior representação na vida pública

Um cordão humano com mais de 100 pessoas exigiu, durante toda a manhã de dia 31 de março, em frente ao Clube Nacional de Imprensa, em Daca, que o Domingo de Páscoa fosse reconhecido pelo Governo do Bangladesh como feriado nacional. A concentração organizada pela Associação Cristã de Bangladesh reivindicou também lugares na vida pública reservados à representação dos cristãos e de outras minorias.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Com Leão XIV, líderes das grandes religiões assumem compromisso de união pela paz e dignidade humana

Apelo de Metz

Com Leão XIV, líderes das grandes religiões assumem compromisso de união pela paz e dignidade humana

Os representantes das principais tradições religiosas presentes em França comprometeram-se esta segunda-feira, na cidade de Metz, a aprofundar o diálogo entre si, a educar as novas gerações para o conhecimento mútuo e a permanecerem unidos na promoção da justiça e da paz.

É notícia

[Mãos à Obra]

Projeto da Escola Básica e Secundária de Vialonga distinguido

Quando a tecnologia está nas bocas do mundo não pelas melhores razões, nada melhor para do que descortinar sinais de esperança que nos levam a ter uma outra visão sobre a mesma. As boas notícias, mesmo as tecnológicas, também fazem parte do nosso quotidiano. Hoje queremos dar-vos a conhecer o CDI – Center of Digital Inclusion através de algumas das suas iniciativas, nomeadamente o projecto Apps for Good Portugal.

Dia dos Mártires

Igreja na Índia recorda massacre de 2008

Treze anos depois da onda de violência que varreu o Estado de Orissa, na Índia, provocando mais de 100 mortos, a justiça é ainda uma miragem, denuncia a Fundação AIS. Desde 2016 que é celebrado pela Igreja em Orissa o dia dos Mártires. 

Fundação AIS

Padre haitiano morto a tiro

Um padre que dirigia um orfanato no Haiti foi morto a tiro, Andrè Sylvestre, de 70 anos de idade, foi assassinado na tarde de segunda-feira, 6 de setembro, durante uma tentativa de assalto, revelou a Fundação AIS. 

Entre margens

Joana Lopes: 88 cravos à sua memória

[Entre Margens]

Joana Lopes: 88 cravos à sua memória

No próximo Domingo, 11 de Outubro, Joana Lopes, que nos deixou a 5 de Fevereiro deste ano, completaria 88 anos. A Joana teve um papel importante na resistência católica contra a ditadura, tendo levado a cabo lutas muito importantes em que denunciava a guerra colonial. Tinha também uma atividade cívica intensa, assumindo a defesa de lutas políticas essenciais que não são menos importantes no nosso tempo. [Texto de Filipe Moisés].

Guerras e mudanças de regime

[Entre Margens]

Guerras e mudanças de regime

Já muitos se terão esquecido, ao acompanhar a trágica e intrincada evolução da guerra entre Estados Unidos e Israel e o Irão, que, no seu início, essa guerra foi apresentada como tendo por objetivo primacial o de derrubar um regime ditatorial e opressor, que há pouco tempo havia reprimido de forma violenta e mortífera a contestação de largas canadas da população sedentas de uma liberdade que essa guerra lhes haveria de proporcionar. [Texto de Pedro Vaz Patto].

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber

[Entre Margens]

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber

Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo. [Texto de Rúben Azevedo].

Cultura e artes

a importância que uma farda tem (1)

a importância que uma farda tem (1)

“Tomo um verso de Guimarães Rosa: todo o dia é véspera, para breves glosas da nossa circunstância”, diz Luís Soares Barbosa, poeta e professor na Universidade do Minho, que a 24/25 de cada mês, assinalando a data da implantação da democracia em Portugal, publica um poema que é, “uma espécie de comentário sobre a nossa circunstância portuguesa”.

Sete Partidas

Vinte e cinco anos depois

7Partidas

Vinte e cinco anos depois

Em 2001, vivíamos em San Francisco. Naquela segunda-feira, dia 11 de Setembro, fomos acordados pelo meu sogro, que nos ligava da Alemanha para avisar que os EUA estavam a ser atacados. Em San Francisco era ainda madrugada; em Nova Iorque passava das nove da manhã, e as duas torres já estavam a arder. [Texto de Helena Araújo].

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

[ai1ec view=”agenda” events_limit=”3″]

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Perseu declara-se vítima

Testemunho

Perseu declara-se vítima novidade

Escrevo como sobrevivente de abuso sexual na Igreja. Estive calado trinta e seis anos. Sou acompanhado há mais de oito. Não escrevo para defender a instituição, e nada lhe devo. Defendo duas coisas apenas: os sobreviventes e a Graça. [Testemunho de um sobrevivente de abuso sexual na Igreja Católica].

Telmo Ferraz (1925-2026), cem anos a espalhar profecia

Padre da Obra da Rua morreu

Telmo Ferraz (1925-2026), cem anos a espalhar profecia

O padre Telmo Ferraz, da Obra da Rua, celebra cem anos de vida e missão. Membro do clero da Diocese de Bragança-Miranda, nasceu no Mogadouro a 25 de novembro de 1925 e começou cedo o seu sacerdócio de rebeldia e compromisso social. Denunciava a tragédia humanitária provocada pelas condições péssimas em que viviam quantos davam a vida na construção de barragens naquele Trás-os-Montes longínquo e abandonado dos anos 1950. [Texto de Tony Neves]

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.