
“Tratando-se da defesa da fé, Valadão projeta um deus fraco que, embora queira destruir a humanidade, não pode porque está preso a uma promessa.” Foto: André Valadão
Dediquei um tempo a pensar em como abordaria a polêmica em que o pastor André Valadão se envolveu nas últimas semanas, ao dizer que, se pudesse, “Deus mataria” e “começava tudo de novo”, se referindo ao movimento LGBTQIA+. Quis pensá-la com cuidado, e por que não, com temperança.
Não quero incorrer no mesmo erro de Valadão: deixar que a ideologia, qualquer que seja a minha, encubra a realidade, mas essa é uma tendência à qual também estou sujeita. Atualmente, ideologia é uma categoria de acusação, quem a tem é sempre o outro, e este é o problema. Não diria que os conflitos no campo político-social são ocasionados por ideologias diferentes, mas pelo não reconhecimento de que todos a temos. Não vivemos em um mundo de fatos nus e crus, existem elementos materiais e imateriais que medeiam nossa relação com a realidade, sobre os quais nem sempre temos consciência e que nos trazem limitações para inferir algo sobre essa mesma realidade. Reconhecer isso nos daria humildade e nos ajudaria a lidar de forma mais apaziguadora com os conflitos que surgem no embate de ideias diferentes, pois entenderíamos que, embora todos acessemos a verdade, a acessamos em parte, jamais a possuímos.
A Bíblia é um livro de sabedoria. Podemos tomá-la como Palavra de Deus ou não, mas acredito que não podemos negar a sabedoria que encontramos nela; aprendemos com os erros e acertos que todo ser humano é capaz de lograr. Mas o entendimento e aplicação dessa sabedoria depende do conjunto de elementos materiais e imateriais com os quais fomos formados e enxergamos a vida. Um dos elementos é a cultura. O pastor André Valadão foi formado em cultura de guerra espiritual, que se estende ao campo sociopolítico. Sua visão de mundo, característica do fundamentalismo religioso que retornou à esfera pública norte-americana na década de 1970, tem como objetivo defender a fé cristã mediante o combate dos grupos identitários e pautas político-sociais progressistas. Tratando-se da defesa da fé, Valadão projeta um deus fraco que, embora queira destruir a humanidade, não pode porque está preso a uma promessa. Sua formação teológica capenga fica evidente, e o que observamos é um homem frágil que, sentindo-se ameaçado, convoca outras pessoas a lutar em uma guerra que ele mesmo instaura. Valadão, assim como tantos outros cristãos, sente-se ameaçado porque não tomou a consciência de que sua ideologia não permite reconhecer e respeitar o outro em sua integridade. Falta-lhe entender que a vontade de qualquer que seja o deus, é para quem crê nele, e neste sentindo as pessoas são e precisam ser livres para viverem de acordo com suas crenças. Essa é uma premissa que também vale para aqueles que, na tentativa de se opor ao fundamentalismo religioso, rejeitam e desrespeitam as crenças e os símbolos religiosos de outros indivíduos.
Maria Angélica Martins é socióloga e mestra em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Brasil. Pesquisa a relação entre fenómeno religioso e política com ênfase para o protestantismo histórico e o neocalvinismo holandês.










