Se queres a guerra, despreza a paz

| 21 Mar 2024

papa em encontro com crianças refugiadas ucranianas, foto vatican media

“Interrogado sobre a situação na Ucrânia e na Palestina, o Papa Francisco ousou falar da coragem que implica negociar, para evitar males maiores.” Foto © Vatican Media

 

Por estes dias, os responsáveis da União Europeia estão a decidir uma estratégia de guerra para a qual têm vindo a preparar o terreno. Invocando a certeza de que “a Rússia não se deterá na Ucrânia, tal como não se deteve, há dez anos, na Crimeia”, irão previsivelmente criar uma economia de guerra, uma corrida ao fabrico de armamento e a afetação de vultuosas fatias dos orçamentos públicos para esse fim.

Aparentemente era inevitável que a retórica da guerra passasse a dominar a agenda político-mediática e o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, deu o mote a esta nova orientação quando escreveu que “se queremos a paz, temos de nos preparar para a guerra”, parafraseando a tão conhecida como problemática máxima latina si vis pacem para bellum.

Os tambores da guerra começaram a soar, para já baixinho, de forma a irem criando o clima propício. Iremos ouvir falar cada vez mais de complexos militar-industriais, emissão de obrigações de defesa europeias para adquirir e/ou produzir material de guerra, canalização de financiamento público e privado para esse fim, mas também da necessidade de mobilizar os cidadãos, eventualmente de voltar ao recrutamento militar obrigatório, à “urgência das ameaças” e à necessidade de “lideranças fortes” (expressões do artigo de Michel).

A geração que hoje dirige o Ocidente dá a impressão de ter aprendido pouco ou nada do que a Europa e o mundo viveram na primeira metade do séc. XX, a ponto de começar a ser descabido ou mesmo perigoso procurar caminhos de paz.

No início deste mês, numa entrevista a um canal de televisão suíço, interrogado sobre a situação na Ucrânia e na Palestina, o Papa Francisco ousou falar da coragem que implica negociar, para evitar males maiores, sobretudo a mortandade e destruição de povos inteiros. A forma de se exprimir não terá sido a mais feliz, nomeadamente ao ligar a ideia de negociação ao “levantar a bandeira branca” e dar azo à critica de que estaria a sugerir a rendição. Por isso, o cardeal secretário de Estado do Vaticano se apressou a esclarecer que os agressores deveriam ser os primeiros a pôr em prática o cessar-fogo, cabendo a quem causou esta tragédia “a possibilidade e a responsabilidade de tomar medidas para lhe pôr fim, abrindo caminho a uma solução diplomática”.

O cardeal Parolin foi mais longe, ao enfatizar que, tanto na Ucrânia como na Palestina, os conflitos sofreram uma escalada, “perigosamente, para lá dos limites aceitáveis”, com repercussões noutros países e sem possibilidades de serem resolvidos “a não ser através de negociações sérias”. E alertou ainda para o risco de uma “fatal deriva nuclear”, regularmente lembrada pelos beligerantes, tanto mais inquietante quanto os diversos atores “se fecharem ainda mais em torno dos próprios interesses, sem fazerem o possível por alcançar uma paz justa e estável”.

Compreende-se que os beligerantes, nomeadamente do lado ucraniano, tenham querido interpretar as palavras do responsável máximo da Igreja Católica como apelo à rendição, não valorizando os fundamentos e alcance do repto da coragem de entrar em negociação. Mas já é mais difícil de compreender que na mesma onda de Kyiv tenham sintonizado governos europeus, dirigentes da União e personalidades públicas.

De facto, a paz hoje não tem acolhimento, porque os ventos sopram no sentido da guerra. É preocupante, a titulo de exemplo, que o movimento pela paz na Suécia, com quase dois séculos de existência, se tenha visto, de um momento para o outro, privado de subvenções para as suas atividades, que recebia desde há muito tempo.

Com o processo que conduziu à adesão daquele país à NATO, particularmente a partir da invasão da Ucrânia pela Rússia, o governo de direita, apoiado pela extrema-direita, começou a cortar na promoção da paz e a investir nos deveres dos cidadãos para com a defesa do país. Com esta ‘mudança de agulhas’, “as vozes pela paz” começaram a ser “muito menos solicitadas” e os peritos passaram a ser agora os militares fardados, que falam mais de guerra que de paz”, dizia esta semana a diretora de um desses movimentos no jornal Le Monde.

O primeiro-ministro sueco, citado no mesmo jornal, não podia ser mais explícito: “No fim de contas, trata-se de defender a Suécia, os nossos valores e o nosso modo de vida de armas na mão e arriscando a vida.”

O que é espantoso é que, quanto mais este este tipo de discursos cresce e começa a fazer o seu caminho, com consequências na vida dos cidadãos, mais parece que as práticas democráticas se reduzem ou mesmo se eclipsam. Matérias desta envergadura e gravidade exigiriam que os cidadãos as pudessem debater, quer para as apoiar quer para as contraditar, percebendo o que está em jogo, de modo a que as opções tomadas ou a tomar incorporem essas sensibilidades.

A recente campanha eleitoral para o Parlamento português é bem o exemplo do meter a cabeça na areia, tal a ausência desse debate. E não foi por não ter havido chamadas de atenção. Mas nem por iniciativa das forças partidárias nem pela iniciativa dos meios de difusão, em especial do serviço público de média, que tem aqui especiais responsabilidades, a agenda ousou apontar para mais longe, no tempo e no espaço e nas matérias.

Vivemos tempos e culturas da polis marcados pela radicalização, pelo extremismo e pela polarização fácil de posições, que é, ao fim e ao cabo, uma cultura que não é capaz de reconhecer o outro como diferente.

Neste quadro, se não tratarmos de inscrever as questões que a guerra e a paz colocam hoje à vida das nossas sociedades, mobilizando-nos para as enfrentar, será a agenda de outros que nos será imposta, com caráter imperioso, urgente e pautado pela já nossa conhecida TINA (There is no alternatives – não há alternativas).

Mas há alternativas. Se for agora. E se for para preparar a paz. Porque, como tem incansavelmente insistido o homem de branco que mora em Roma, a guerra é sempre, sempre, sempre uma derrota.

 

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