Papa aos estudantes da UCP

“Sede coreógrafos da dança da vida”, pondo a pessoa humana no centro

| 3 Ago 2023

Papa em encontro na UCP, 4 jul de 2023, Foto JMJ Lisboa 2023

“Neste momento histórico, os desafios são enormes e os gemidos dolorosos, afirma o Papa. Foto © JMJ Lisboa 2023.

 

Numa marcante e desafiadora alocução aos estudantes e à comunidade académica que esta quinta-feira, 3, fez na Universidade Católica Portuguesa, o Papa Francisco estabeleceu uma ponte entre a condição de peregrino do sentido e a de indagador/investigador do conhecimento e da verdade. Nesse diálogo, apelou aos académicos e futuros profissionais para não se deixarem levar por respostas fáceis a questões complexas, e tomarem as inquietações, descontentamentos e sede de futuro como sinal de vida, substituindo os medos pelos sonhos.

Perante uma assembleia que os organizadores contabilizaram em cerca de sete mil pessoas, maioritariamente jovens, e depois de escutar o testemunho de quatro estudantes, entre os quais o de uma iraniana que estudava na Ucrânia na altura da invasão pelas tropas russas, Francisco iniciou as suas palavras meditando sobre o significado do peregrinar. Para ele, o sentir-se peregrino passa por “deixar de lado a rotina habitual e pôr-se a caminho com um objetivo”.

Ao confrontar-se com as grandes interrogações da condição humana, cada pessoa sente o impulso para “realizar uma viagem, superando-se a si mesma, indo mais além” dos seus horizontes habituais. É esta experiência que faz um universitário e é também assim que “cresce a busca espiritual”, sugeriu o Papa.

Daí a chamada de atenção, inspirada pela parábola de Jesus de que só encontra a pérola preciosa quem tudo arrisca para a encontrar:

“Desconfiemos das fórmulas pré-fabricadas, das respostas que nos parecem ao alcance da mão, extraídas da manga como se fossem cartas viciadas de jogar; desconfiemos das propostas que parecem dar tudo sem pedir nada”.

“Procurar e arriscar” seriam, assim, “os verbos dos peregrinos”, segundo o Pontífice. Completados com a superação do receio de se sentir descontente, inquieto, insatisfeito com o pouco que cada um pode fazer perante a vastidão do que é necessário. Tudo isso, sinalizou o Papa, desde que em justa medida, pode ser “um bom antídoto contra a presunção da autossuficiência e o narcisismo”. Ver-se como incompleto, sedento, “desejoso de sentido” e “com saudades do futuro” não significa que estejamos doentes, mas simplesmente vivos!. “Preocupemo-nos, antes, (…) quando, em vez das perguntas lacerantes, preferimos as respostas fáceis que anestesiam”, resumiu.

E desenhando horizontes de mais largo alcance para este tipo de sentimentos, apontou Francisco:

“Neste momento histórico, os desafios são enormes e os gemidos dolorosos, mas abracemos o risco de pensar que não estamos numa agonia, mas num parto; não no fim, mas no início dum grande espetáculo. Por isso sede protagonistas duma ‘nova coreografia’ que coloque no centro a pessoa humana, sede coreógrafos da dança da vida”.

 

Substituir os medos pelos sonhos

Estando numa instituição de ensino superior e, especificamente, numa universidade católica, o Papa Francisco não perdeu a oportunidade de aprofundar aspetos da sua visão sobre este campo.

Retomando uma afirmação da mensagem de boas-vindas de Isabel Capeloa Gil, reitora da UCP, segundo a qual “a universidade não existe para se preservar como instituição”, o Papa alertou para a tentação que é essa auto-preservação, considerando-a “um reflexo condicionado pelo medo, que nos faz olhar para a existência de forma distorcida”. E sobre isso, refletiu: “Se as sementes se preservassem a si mesmas, desperdiçariam completamente a sua força geradora e condenar-nos-iam à fome; se os invernos se preservassem a si mesmos, não existiria a maravilha da primavera. Por isso, tende a coragem de substituir os medos pelos sonhos: não [sejam] administradores de medos, mas empreendedores de sonhos!”

Traduzindo formas tão expressivas de dizer as coisas, Francisco denunciou que, “hoje, em Portugal e no mundo, continua a ser um privilégio” frequentar o Ensino Superior, razão pela qual “à universidade que se comprometeu a formar as novas gerações, seria um desperdício pensá-la apenas para perpetuar o atual sistema elitista e desigual do mundo com o ensino superior que continua a ser um privilégio de poucos”.

Inspirado nas “primeiras perguntas” que, segundo o livro do Gènesis, Deus fez aos humanos [«Onde estás?» (3, 9) e «Onde está o teu irmão?» (4, 9)], o peregrino que veio de Roma presidir à JMJ apelou a que os diplomas académicos não sejam vistos como mera “licença para construir o bem-estar pessoal”, mas como “mandato para se dedicar a uma sociedade mais justa e inclusiva, ou seja, mais avançada”.

Apelou aos estudantes que sejam “protagonistas da mudança” e, inspirado numa nova citação de palavras da poetisa Sphia de Mello Breyner Anderson, interrogou diretamente os estudantes: “Que quereis ver realizado em Portugal e no mundo? Que mudanças, que transformações? E como pode a universidade, especialmente a Católica, contribuir para isso?”.

 

Mestres de esperança

Francisco recorreu também a uma frase de Almada Negreiros (“Sonhei com um país onde todos chegavam a mestres”) para revelar um sonho seu:

“Também este idoso que vos fala sonha que a vossa geração se torne uma geração de mestres: mestres de humanidade, mestres de compaixão, mestres de novas oportunidades para o planeta e seus habitantes, mestres de esperança”.

E nessa linha explanou o que implica ser “mestre de novas oportunidades para o planeta e seus habitantes, mestre de esperança”, tendo em conta “a urgência dramática de cuidar da casa comum”.

Há requisitos para a resposta a esse magno desafio: “conversão do coração e uma mudança da visão antropológica subjacente à economia e à política”, porque, segundo ele, “não podemos contentar-nos com simples medidas paliativas ou com tímidos e ambíguos compromissos”. Mais: “Neste caso, ‘os meios-termos são apenas um pequeno adiamento do colapso’”, como já está escrito na encíclica Laudato Si.

A necessidade de ir mais longe passa por “redefinir o que chamamos progresso e evolução” e por evitar o que designou por “cilada de visões parciais”. É que a “ecologia integral” que Francisco preconiza, implica:

– “Escutar o sofrimento do planeta juntamente com o dos pobres;

– Colocar o drama da desertificação em paralelo com o dos refugiados;

– [Abordar] o tema das migrações juntamente com o da queda da natalidade; e

– Ocupar-se da dimensão material da vida no âmbito duma dimensão espiritual”.

Neste contexto, o Papa referiu-se à recém-criada cátedra dedicada à “economia de Francisco e Clara” [de Assis] e sublinhou o mapa de orientação que constitui o Pacto Educativo Global e os seus sete princípios, que pretende “devolver à economia a dignidade que lhe compete, para que não caia como presa do mercado selvagem e da especulação”.

Por fim, deixou esta observação dirigida à Universidade anfitriã: “ser uma universidade católica significa antes de mais nada que cada elemento está em relação com o todo e o todo revê-se nas partes”.

 

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