Sede de Amor e vitória sobre o desencontro – Dante e Camões

| 10 Jun 2024

“Como ninguém antes dele, Camões soube que os pretextos da sua poesia, mesmos os mais altos, mulheres amadas ou heróis sublimados, só recebiam a luminosa vida que eles lhes atribui, da sua desmedida sede de amor(…). Esse amor ninguém o transfigurou no seu espírito e na sua imaginação como aquele que de si mesmo disse que «só de amor viveu e escreveu». Embebida nesse Amor, a sua vida peregrina e errante, amarga e desventurada, se fez verbo e o verbo se fez Pátria-Canto.”
Eduardo Lourenço, “Camões ou a nossa alma”, in Eduardo Lourenço, Ver é ser visto – Fragmentos essenciais

“Deus existe para mim na medida em que eu existo autenticamente.”
Karl Jaspers, Iniciação Filosófica

Retrato de Camões por Fernão Gomes (cópia de Luís de Resende), considerado o mais autêntico retrato do poeta: há muitas incertezas sobre a vida do poeta.

Retrato de Camões por Fernão Gomes (cópia de Luís de Resende), considerado o mais autêntico retrato do poeta: há muitas incertezas sobre a vida do poeta.

 

Toda a grande arte, segundo creio, visa não apenas a imortalidade, mas também a vitória sobre todo o desencontro, exílio, desterro. Tomemos apenas dois exemplos, o de Camões e de Dante, ambos exilados e desterrados, por razões diferentes. Camões, soldado-poeta, passa trinta anos em bolandas pelos territórios do Oriente Português, exilado da sua pátria, mas também dos seus muitos amores, reais ou imaginários; não conheceu outra coisa senão o desencontro, como bem sugerem as suas composições líricas: “Aquela triste e leda madrugada,/ cheia toda de mágoa e de piedade,/ enquanto houver no mundo saudade/ quero que seja sempre celebrada./ Ela só, quando amena e marchetada/ saía, dando ao mundo claridade,/ viu apartar-se de uma outra vontade,/ que nunca poderá ver-se apartada./ Ela só viu as lágrimas em fio,/ de que uns e outros olhos derivadas/ se acrescentaram em grande e largo rio./ Ela viu as palavras magoadas/ que puderam tornar o fogo frio,/ e dar descanso às almas condenadas.” (soneto “Aquela triste e leda madrugada”)

Dante, por sua vez, viu-se envolvido nas lutas intestinas em que era pródiga a sua cidade natal, Florença, lutas de poder entre famílias e fações. Acabou exilado, fugitivo, período no qual se lançou de alma e coração na redação redentora da sua Divina Comédia. Muitos anos antes, havia perdido o amor da sua vida, a jovem Beatriz, o que foi para ele, até ao fim, um exílio porventura ainda maior.

De Camões, conhece-se de nome apenas uma tal de Dinamene[1], mulher chinesa citada em sonetos pungentes, amor grande, cuja morte, alegadamente num naufrágio num rio vietnamita em que o Poeta também estava presente, o destroçou amargamente: “Ah! minha Dinamene! Assim deixaste/ Quem não deixara nunca de querer-te!”  Mas a sua sede de amor, de índole mais metafísica do que física (não o será assim sempre?) indicia que a sua longa errância se traduziu noutros tantos amores, que o próprio Poeta no entanto reconhece não terem passado de “breves enganos”: “De amor não vi senão breves enganos” (no soneto “Erros meus, má fortuna, amor ardente”)

Quinze anos antes de morrer, na pobre casa em que vivia com a sua mãe, em Lisboa, diz-se que miserável e doente, Camões chega à pátria trazendo consigo a obra da sua vida, Os Lusíadas, produto sublimado em amor a Portugal e, num certo sentido, à Humanidade, de um longo desterro pátrio e existencial.

Ora, o que é certo é que ter mergulhado, durante, diz-se, cerca de 25 anos, na escrita desse épico singular, tendo “na mão a pena e noutra a lança”, foi para o Poeta uma forma de reencontrar e de amar, à distância, no tempo e no espaço, essa mesma pátria que era a sua, pátria real e ideal; distante pátria, quer no plano geográfico, quer no plano temporal, pois a pátria real, que era a do seu tempo, carecia, na opinião do Poeta, daquelas virtudes heróicas que, cerca de 100 anos antes, possibilitaram a realização da venturosa e inédita viagem de Vasco da Gama à Índia.

Analogamente, Dante voltou a amar Beatriz na eternidade dos versos da Divina Comédia, e nela talvez a sua Florença natal, e assim mitigou a dor do exílio e do desencontro físico e sobretudo metafísico; e assim consumou, como Camões, no plano do ideal, esse amor que na terra não pôde consumar-se, ou porque perdeu o seu objeto para as garras da morte, ou dele se separou ou desencontrou por força das circunstâncias, ou por não ter para ele encontrado um objeto digno de si.

Em ambos os poetas, a sua obra, lançada como um grito à eternidade, visou abraçar o todo do mundo, o universo, para assim abraçar com o amor mais elevado e profundo toda a realidade, passada, presente e futura, e assim vencer todo o desencontro; em cada poeta, como em todo o artífice de uma obra de sublime beleza e verdade, maior que a própria vida, trata-se ultimamente de abraçar o universo na medida das possibilidades humanas; tocar uma verdade essencial que, como todas as verdades essenciais, é tudo em todos, porque universal, inscrita na raiz de todos os corações e na da Realidade mesma. E não só no artífice, mas naquele que desfruta da obra, no leitor, no observador, que, ao recriar dentro de si a verdade expressa, sente que algo de essencial foi tocado dentro de si, de tal forma que se sente dentro do Ser, existindo, querido e coroado pelo Ser na rua realeza pessoal, elevado, por uma vez, acima de toda a vileza da vida comum impensada.

Ora, é sempre dentro da experiência de uma verdade essencial, logo universal, que encontramos a nossa verdadeira casa; é nela e por ela que podemos tocar, nem que só por breves momentos, minutos ou horas, o sentido profundo da vida; e assim religarmos, em nós mesmos, as pontas soltas da verdade que no nosso mundo teimam em separar-se por força do desamor, do exílio, da falsidade, dos mal-entendidos e outros tantos desterros de toda a ordem que abalam a nossa unidade interior. Em Dante, como em Camões, é possível, pelo esforço necessariamente motivado pelo Amor, de ascender ao universal para dar à luz beleza, razão e verdade, chegar a abranger com os próprios olhos, num abraço metafísico – do espírito, entenda-se – a máquina do mundo[2] (Canto X, Os Lusíadas), prémio derradeiro do buscador honesto e constante. É nessa visão total que o amor total se realiza, para além do tempo e do espaço, abraçando toda a realidade, superando todo o desencontro, como quando Dante, depois de ter sido levado pela mão da sua amada Beatriz, sublimada em anjo da Sabedoria/Sophia, é por fim tomado pela última e mais extática das visões, esplendor do mais alto céu do Empíreo/Paraíso – o próprio Deus (Canto XXXIII, Divina Comédia): “De êxtase assim minha alma toda presa,/ atenta, absorta, imóvel se imergia,/ E sempre em contemplar mais estava acesa/(…) Lume eterno, que a sede em ti só tendo,/ Só te entendes, de ti sendo entendido,/ E te amas e sorris só te entendendo!”

Em suma, as várias formas de exílio ou desterro existencial em que o ser humano, todo o ser humano, se vê mergulhado em algum momento da sua vida, sobretudo aquelas que se traduzem em aguda sede de Amor, que é aguda sede de Deus – aguilhão tão pungente em todos nós quanto aquele que São Paulo dizia estar cravado na sua carne por vontade de Cristo, para que nunca se esquecesse de fazer das suas fraquezas forças – podem e devem ser abraçadas integralmente como condições para uma ascensão humana e espiritual que, manifesta em obra exterior, signifique sobretudo obra interior, ou seja, tornar-se cada um naquilo que é, para assim encontrar Deus na liberdade autêntica, na criação, no mais puro amor.

[1] A “Barbora” do vilancete “Ai cativa que me cativa..” não chega a ser um amor consumado, tanto quanto sabemos. O Poeta limita-se, nesse poema, a descrevê-la e a manifestar a sua admiração e amor por ela, mas não há evidências de que tenha tido por ela um amor tão forte e persistente quanto por Dinamene.

[2] A máquina do mundo é o universo, tal como era concebido no tempo de Camões, ao estilo ptolemaico: uma esfera constituída por várias esferas concêntricas que seriam as órbitas dos cinco planetas conhecidos extratelúricos, mais a lua, o sol, e a Terra no centro da esfera. A última e mais ampla esfera corresponderia ao Empíreo, lugar das almas dos bem-aventurados, próximos de Deus. Neste episódio d´“Os Lusíadas”, Tétis, deusa do mar, convoca Vasco da Gama para contemplar a máquina do mundo, fazendo de seguida um conjunto de profecias acerca das vitórias portuguesas no Oriente. Foi o prémio merecido pela venturosa jornada de Lisboa à Índia, e pela superação de todos os obstáculos e dificuldades. Vitória do Homem em primeiro lugar, ainda que realizando um plano divinamente caucionado.  

Ruben Azevedo é professor e autor de vários livros.

 

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