Sedutora viagem no espaço e no tempo

| 18 Jun 20

Que Confissões de Santo Agostinho constitui o solo a partir do qual irradia toda uma tradição literária, é algo de relativamente pacífico; da obra homónima de Rousseau, a Life Studies, do poeta americano Robert Lowell, é toda uma pluralidade de discursos que naquela obra reconhece um instante fundador. E, contudo, como certeiramente sinaliza o pensador canadiano Charles Taylor, ao fazer dialogar o texto do teólogo de Hipona com Platão, existem matizes significativas no seio dessa tradição confessional; matizes essas que identificam posturas relacionais distintas do eu com o real. Afinal, como sempre –  e perdoai a imagem –, o diabo está nos detalhes.

Deste modo, embora Santo Agostinho enfatize o movimento centrípeto, o apelo ao intus, tal não significa que o interior constitua um fim em si, algo que amiúde se associa a um eventual narcisismo confessional; que, de facto, existe, mas ao qual não se pode reduzir toda uma tradição confessional. Como Santo Agostinho exemplifica, esse movimento centrípeto constitui apenas um instante de um percurso que se prolonga num movimento subsequente, centrífugo, ascensional. Socorrendo-me de uma categoria proposta por outro teólogo, José Frazão, sj, ele, esse movimento rumo ao intus, é instante num entre-Tanto.

Serve este prólogo para situar Diário [Gráfico] – A experiência de Deus na vida diária, de Nuno Branco, sj, com chancela da Frente e Verso.

O autor, arquitecto de formação universitária inicial – algo de relevante para entendermos esta obra fascinante – é sacerdote jesuíta, aspecto que, de imediato, identifica uma singularidade do olhar marcada pelos exercícios espirituais inacianos. Que lugar desempenhará, então, esse fragmento que interrompe o título – [Gráfico], onde uma outra convocação estética, de coabitação do textual e do visual se indicia?

Comecemos pelo primeiro aspecto – Diário. No texto de abertura, o autor enuncia uma sucessão de vozes que praticaram este género – a diarística, não raro acolhedor de um impulso confessional. Não será, por isso, de estranhar que Santo Agostinho ali desponte. Afinal, não foi ele alguém que intensamente meditou sobre esta “vida que nos é apresentada como dom e promessa: a vida diária”? (p. 15)

"Diário Gráfico", Nuno Branco.

Duas das páginas de “Diário Gráfico”, de Nuno Branco: o texto como “mancha trabalhada, mastigada, sublinhada, palavra convertida em imagem gráfica”.

 

Transitemos para o segundo aspecto, o visual/gráfico. É sabido o lugar que o caderno de campo desempenha no quotidiano de um arquitecto, desde a sua mais radical formação. Através dele, é todo um exercício de captação do real, na fugacidade do instante, que se exercita e um olhar se forma. Neste caso, ele contribui ainda para uma síntese, pois “o texto apresentava-se também diante de mim com esta novidade: uma mancha trabalhada, mastigada, sublinhada, convertida ela própria (a própria palavra) em imagem gráfica” (p. 12); algo que confronta Nuno Branco sj com uma questão que não é de modo algum displicente: “Seria legítimo? Seria adequado e permitido que uma mancha fosse eco de um texto, que um desenho prolongasse a força da palavra e a aguarela desse nome a uma moção interior?” (p. 187)

E assim é uma outra forma de regresso aos exercícios espirituais, aqui amplamente detalhada, que se configura.

“Imagem gráfica” e “vida quotidiana” permitem, deste modo, delinear um “mapa mental” (p. 182), que funciona igualmente como percurso estruturado a partir de “quatro lugares teológicos”, coincidentes com “quatro cenários da vida quotidiana”: a montanha, a cidade da Judeia; a casa de Zacarias; o ventre de Maria. Na visitação destes lugares, “por um lado, o desenho apareceria como instrumento de auxílio para visualizar o cenário da narrativa, tornando-o nosso contemporâneo, e … estaria ao serviço do texto bíblico, por outro, parecia-me que a mesma narrativa rezada e meditada apontaria para um fruto, sob a forma de um desenho” (p. 28).

Eis uma sedutora e inesperada viagem, feita de inúmeras viagens (“estou de passagem” [p. 76]), no espaço e no tempo, aqui brevemente delineada, que recomendo.

 

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