Segredos e mentiras: afinal, o que é uma família?

| 16 Jan 19

Neste filme, aparentemente tão trivial e simples, nada é o que parece à primeira vista e, no fim, ficaremos ainda com mais dúvidas. Afinal, o que é uma família? Talvez seja esta a pergunta que o realizador japonês, Hirokazu Kore-eda, quer que fique a ‘incomodar’ o espectador. Talvez.

O filme começa com um homem de meia-idade (Osamu) e um miúdo (Shota) a roubar – de maneira combinada e já habitual – num supermercado. De regresso a casa, e já depois de comprarem ‘os melhores croquetes’ que comem felizes, reencontram uma menina pequena, abandonada e ao frio, e decidem levá-la para casa e depois trazê-la aos pais. A ‘família’ que encontramos é grande e nem sequer se percebe bem como cabem todos naquele espaço tão pequeno e por isso tão exageradamente comum, sem privacidade. São pobres. Mas o trabalho também não parece ser uma grande preocupação. Com a reforma da avó e o emprego da mãe dá para ter uma vida remediada mas feliz. Sente-se que as relações entre eles são boas, que são atenciosos uns com os outros. Tão atenciosos que, quando a menina chega e se dão conta de que ela tem sinais de maus-tratos, desistem de ir à procura dos pais, adoptam-na e cuidam dela. Para eles, como depois se verá, o mais importante não são os laços de sangue.

Afinal, não é a única. Lá mais para diante, tomaremos consciência de que Shota não chama pai a Osamu, por mais que ele lhe peça. E que uma outra rapariga (Aki), irmã mais nova da mãe (Nobuyo), também acabou por vir ali parar por alguma razão que nunca chega a ser muito clara.

A verdade é que, vivendo eles à margem da sociedade e passando por cima de todas as suas regras e leis, nós não conseguimos deixar de estar ao lado deles, porque percebemos que são uma ‘família feliz’. Com todas as suas trapalhadas e mentiras, eles pertencem uns aos outros, estão bem uns com os outros, cuidam uns dos outros.

Até que o miúdo (Shota), já depois de saber que um lojista afinal fazia de conta que não via, e até lhe deu uma prenda, com um pedido, é apanhado a roubar e, ao fugir, sem escapatória, atira-se abaixo de um viaduto. E tudo se precipita. E tudo se desmorona. Então ficamos a saber quase tudo sobre todos eles e as suas ambiguidades (os adultos, que parecem bons, afinal também carregam consigo alguns crimes e maldades).

Como tantas vezes, ‘Uma Família de Pequenos Ladrões’ mostra-nos pessoas que fazem coisas erradas pelos melhores motivos. Há uma certa inocência infantil nas palavras e nas acções. E há também uma certa ambiguidade, que serve para denunciar a hipocrisia social, e que o filme deixa em aberto diante de nós. Como uma pergunta.

No final, a menina abandonada e adoptada, devolvida pela justiça aos seus pais biológicos, que continuam a discutir e a tratá-la mal, está na varanda e olha o horizonte vazio, como que à procura do lugar de onde tinha vindo: afinal, a sua família era aquela onde tinha passado os últimos dias. Já o tínhamos ouvido, lá mais para trás: “Não basta dar à luz para se ser mãe.”

E assim, este filme faz pensar como, às vezes, a mentira pode ser mais verdadeira que a verdade. Nestes tempos em que dizer ‘família’ significa situações tão diferentes, este filme pode ser visto como um retrato tocante e simbólico.

Confusos? O melhor mesmo é ver o filme.

Shoplifters – Uma Família de Pequenos Ladrões

Título original: Shoplifters Realização: Hirokazu Kore-eda Intérpretes: Kirin Kiki, Lily Franky, Sôsuke Ikematsu, Jyo Kairi, Miyu Sasaki

M/14; Japão, 2018; Cor, 121 min

Manuel Mendes é padre católico e pároco de Matosinhos; o texto foi inicialmente publicado na revista Mensageiro de Santo António, de Janeiro de 2019.

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