Segunda Leitura – À espera para dar

by | 21 Fev 21 | Crónica, Newsletter diária - título, Novo, Pandemia, Portugal - Sociedade, Sociedade, Últimas

Sangue, Pandemia,

Fila de pessoas a aguardar para dar sangue, em Lisboa. Foto © Filipa Fernandez, cedida pela autora.

 

“Houve quem esperasse cinco horas.”

Cinco horas? Cinco horas?… É obra. O motivo devia ser forte, a oportunidade interessante, apelativa. Ou então a necessidade muita. Cinco horas à espera, é preciso ter paciência.

“A fila chegou a dar a volta ao edifício.”

Grande fila, de facto. Quase um quarteirão dela. E com grande variedade de gente.

“Na fila havia pessoas de todas as idades, mas sobretudo jovens.”

Muitas pessoas. De todas as idades. E sobretudo jovens, de quem se costuma dizer que não têm grande paciência para passar horas em filas. E nesta altura nem há festivais de Verão ou concertos de Arena para comprar bilhetes. Nem nada para receber de graça.

“Cheguei às 10h30 e só saí às 15h45. (…) Foram cinco horas de espera em pé, sem comer, ao frio e à chuva, mas não desisti.”

Cinco horas de espera, ali, firme, ao frio e à chuva, com a fome a apertar, mas não importa. Muito tempo, muito desconforto, mas “não desisti”.

Como? Onde? Porquê? Mas o que é que se passa?… Tantas horas, tanta espera, tanta paciência, tanta insistência… Porquê? Para quê?… Foi por exemplo

“… o caso de José Agapito, 23 anos, que viu o apelo nas redes sociais e decidiu dirigir-se ao IPST. Vem dar sangue pela primeira vez. Chegou por volta das 11h40 e deparou-se com uma fila imensa.”

Dar sangue. Dar sangue!

“Patrícia Costa, de 24 anos, aguarda para dar sangue há cerca de quatro horas.”

Dar sangue. Há quatro horas na fila. À espera. À espera para dar. Para dar sangue.

“A tarde já vai a meio e o sol começa a baixar, Gonçalo Rodrigues, de 20 anos, é o último da fila. Está pronto para esperar? Resposta com convicção: “Sim”. Tem mais de 100 pessoas à sua frente…”

Grande fila, 100 pessoas à frente, o sol a baixar, vai esperar? “Sim”. Vai esperar, sim. Esperar a sua vez de dar.

“(…) olha para trás e diz: “É realmente impressionante a solidariedade. Emocionei-me quando aqui cheguei e vi tantas pessoas.”

Tantas pessoas, o José de 23 anos, a Patrícia de 24, o Gonçalo de 20, tantas outras, tanta gente, tanta fila, tanta espera, tanta paciência, tanto empenho, tanta serena caminhada à volta do prédio, aguardando apena a vez. A vez de dar. De dar sangue.

Ouviram apelos, viram mensagens, perceberam que alguém chamava nos jornais, nas televisões, no Instagram e no Facebook e no Twitter, e responderam à chamada, sim, iam dar sangue.

 “O Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST) considerou ‘extraordinária’ a adesão dos portugueses ao apelo”.

(…)

(Do Público de 20 de janeiro de 2021)

 

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