Segunda leitura – A raspadinha e a raspadona

| 5 Abr 21

Página dos Jogos da Misericórdia de Lisboa na internet: a raspadinha é jogada sobretudo pelas pessoas de menos posses.

 

Portugal é campeão europeu de algumas coisas. Não muitas, acho. É, por exemplo, campeão europeu de futebol (conquistou o título em 2016, estamos lembradíssimos). E assim, de repente, não estou a lembrar-me de mais… Deve haver, há certamente, mas não estou a ver. Quer dizer, há alguns campeonatos pela negativa, do género Portugal deve ser o que paga o mais baixo ordenado mínimo da Europa, ou Portugal tem o menor número de mulheres em cargos de administração, mas não era propriamente desses que queria falar, são recorrentes e, infelizmente, quase banais.

Ah!, espera… Há mais um título, um bem curioso e pouco conhecido, de que se tem falado bastante por estes dias:  Portugal é o campeão europeu da raspadinha! Sim, da raspadinha. E é-o há já uns anitos, revalidando o trunfo ano a ano com grande à-vontade face aos demais concorrentes. Porque a distância de Portugal para os outros significa “uma grande cabazada”, como se diz em futebolês…

Quem não acredita, atente nos números:

“Em 2018, os portugueses gastaram quase 1,6 mil milhões de euros em raspadinhas – 4,4 milhões por dia, em média” (Expresso, 20-2-2020, citando um estudo dos professores da Universidade do Minho, Daniela Vilaverde e Pedro Morgado).

Fazendo uma conta simples de dividir, conclui-se que cada português gastou, em média, num ano, cerca de 160 euros em raspadinhas. É dinheiro. Mas também é estatística: como há, nos 10 milhões de portugueses, muita gente que não raspa nada (a começar nos bebés e a acabar em quem nem sequer sabe o que isso é), cada um/uma das pessoas cá do torrão terá gasto o dobro ou o triplo da tal média aritmética. E há, depois, os casos que escapam à estatística da média e gastam, anualmente, muitas centenas ou milhares de euros, sendo até, em crescentes situações, objeto de ajuda médica, dada a dependência doentia.

Se se gastam, por dia, 4,4 milhões de euros em raspadinha, isso significa que se gastam 183 mil euros por hora, seja de dia ou de noite. Em média, claro. E 183 mil euros por hora significam que em cada minuto são gastos 3.050 euros em raspadinhas. Em raspadinhas. Por minuto. Compram-se, em Portugal, 3.050 euros de raspadinhas por minuto. É muita raspadinha. É muito euro.

Continuando: “(…) O número [1,6 mil milhões de euros por ano] é, em si, muito elevado, mas ainda mais se comparado com dados de 2010, em que foram gastos 100 milhões de euros neste jogo. E também se comparado com países como Espanha, onde foram gastos cerca de 600 milhões de euros em 2018. (…) Portugal é, aliás, o país da Europa onde se gasta mais dinheiro em raspadinhas per capita, correspondendo este valor a mais do dobro da média europeia” (idem). Mais do dobro da média europeia.

E quem é que gasta este dinheiro todo em apostas assim rápidas, e simples, e acessíveis em quase qualquer balcão deste país? Muita gente, claro. Mas sobretudo gente pobre ou remediada. Isso mesmo. Dados divulgados recentemente pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (ver Público de 27-3-2021) revelam que “quase 80 por cento dos que jogam [na raspadinha] são de classe média baixa e baixa”. Quase 80 por cento… Cerca de 50 por cento são da classe socioeconómica “baixa” (classe E) e cerca de 27 por cento da classe “média baixa” (classe D). Gente de baixos ou baixíssimos rendimentos. Mas que frequentemente lhes subtrai uma moedita de 1 ou 2 euros para ver se num instante ganha 10 ou 20.

Face a esta situação, que pareceria preocupante a qualquer observador mediano, o Governo e a Santa Casa decidiram… lançar uma nova raspadinha! Para quê? Para financiar a cultura. Pelos cálculos feitos, admitem vir a lucrar cerca de 5 milhões de euros por ano, euros esses que serão canalizados totalmente para apoios no domínio da cultura. Até tem nome próprio e tudo: é a “Lotaria Instantânea do Património Cultural”! Uma raspadinha, enfim. E como tudo o que é raspadinha tem sucesso garantido cá no burgo, toca a fazer render…

Olhando para o que se disse atrás e somando ao que se disse agora sobre o perfil típico dos jogadores desta “lotaria instantânea”, podemos concluir que são sobretudo os pobres e remediados deste país que vão financiar, com 5 milhões de euros por ano, intervenções de salvaguarda e valorização do nosso património cultural. Parece quase um imposto (voluntário, claro…) sobre quem tem menos posses, o que não deixa de ser bizarro. No mínimo.

Assim sendo, e para não me acusarem de ser daqueles comentadores e cronistas que só gostam de dizer mal, vou fazer uma proposta alternativa. E construtiva. Sugiro que, em vez desta nova raspadinha, o Governo crie uma… raspadona. Ou seja, uma raspadinha para ricos, dando-lhes a eles a oportunidade de financiarem a cultura e o mais que se entenda. Esta raspadona devia, naturalmente, ser cara, pois não há rico que vá gastar tempo a raspar coisitas de 1 euro, 2 euros, 5 euros, só para ganhar 10 euros, ou 20, ou 50. Nada disso. A raspadona devia custar no mínimo 1.000 euros, e no máximo uns 5/10 mil. Depois, devia ser comprada exclusivamente através de cartão de crédito “gold”, que isto não é para todos. E o ato de raspar teria de ser, naturalmente, virtual: tudo feito on-line, através do smartphone, nada de papel, que já não se usa nestas classes.

Finalmente, os prémios teriam de ser apelativos também. Um rico não vai pôr-se a jogar este joguinho para ganhar apenas uns milhares de euros, que falta lhes fariam?… Não. Têm de ser prémios diferentes, mais atrativos, mais sofisticados, mais do que “apenas dinheiro”…  Assim de repente, ocorrem-me duas sugestões para duas espécies de “jackpots” desta nova lotaria: 1) um contrato anual com uma sociedade de advogados especializada no chamado “planeamento fiscal” (que é aquilo de pagar menos impostos, mas tudo mais ou menos legal); 2) a abertura, sigilosa e sem custos, de uma conta bancária numa zona offshore (que é aquilo que também permite pagar menos impostos, mas tudo mais ou menos legal). Imagino que, com estes estímulos, a raspadona possa ser um sucesso entre as pessoas com mais posses, assim desobrigando o poder de ir tentar buscar mais a quem tem menos.

Fica a sugestão.

 

(Em tempo: o presidente do Conselho Económico e Social, Francisco Assis, afirmou há dias que “o Governo deveria reponderar o lançamento de uma nova lotaria instantânea, que está prevista no Orçamento do Estado”. Em sua opinião, “não é aceitável pensar em financiar qualquer investimento à custa do empobrecimento de quem é viciado neste tipo de jogo” – ver Público de 1-3-2021).

 

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