Segunda leitura: O que é um proletário? [À volta do 1º de Maio]

| 4 Mai 21


Crianças a trabalhar numa fábrica, no século XIX: a única riqueza de um proletário (que muitas vezes também acarreta mais pobreza…) são os filhos. Foto: Direitos reservados.

 

Nos últimos dias fiquei todo contente com uma coisa nova que aprendi. Tem a ver com uma palavra. Aliás, fico sempre muito contente quando aprendo coisas que têm a ver com palavras, com a sua etimologia, com o seu sentido original, e com a evolução de significado ou uso que foram tendo. Fico por vezes maravilhado, quase como uma criança perante uma revelação, os olhos muito abertos e um sorriso feliz por agora se saber: “Ai é?!…”.

Aconteceu-me há muitos anos com a expressão “saber de cor”. Eu fartava-me de a dizer (sei de cor, sei isso de cor e salteado, não sei de cor nenhuma letra de canções, etc…) mas sem pensar exatamente no que estava a dizer. E ouvi alguém explicar que “saber de cor” é “saber com o coração”. É saber de dentro, saber do fundo, cá do íntimo, não é apenas um saber racional, material. E achei muito bonito.

Entretanto aprendi que os franceses também usam savoir par coeur e os ingleses know by heart, é mais fácil para eles a ligação, eu é que não sabia, nunca tinha pensado, mas desde que fiquei a saber nunca mais esqueci. E quando digo que “sei este poema de cor” (por acaso sei pouquíssimos…), sinto que estou a dizer mais do que apenas “sei reproduzir mecanicamente as palavras do poema”. Não. Se sei de cor, sei com o meu coração. Não é lindo?…

Pois esta semana aconteceu-me uma coisa do mesmo género com outra palavra. Se calhar já devia saber, se calhar já devia ter pensado nisso, mas confesso que nunca, até aparecer um programa de televisão que me apanhou (e ainda bem!) numa esquina, desprevenido. A palavra é “proletário”. Nem de propósito, fica muito bem à volta do 1º de Maio, dia em que escrevo. E então o que é etimologicamente um proletário? É alguém que não tem nada de seu a não ser… filhos. Daí o termo “prole”. Dizem os dicionários que a palavra vem do latim e na Roma antiga servia para referir todos aqueles, pobres, que não tinham quaisquer propriedades e cuja única utilidade para o Estado era gerar filhos (prole) para engrossar as fileiras dos exércitos do império. E motivo pelo qual até ficavam isentos de impostos.

Um proletário, portanto, é alguém que não tem nada de seu, nem terrenos, nem fortunas, nem heranças, nada, e que apenas vive de vender a força dos seus braços num qualquer trabalho, recebendo daí um salário para sobreviver. A única riqueza (que muitas vezes também acarreta até mais pobreza…) são os filhos. A única ‘coisa’ de seu, por assim dizer.

Aprendi isto tudo numa bela série que tem passado na RTP2, intitulada O Tempo dos Operários. E aprendi ainda mais coisas. Nos finais do século XIX, em certas zonas de Itália, os operários (proletários…) foram desenvolvendo o costume de pôr aos filhos nomes muito fora do habitual (e o habitual estava ali bastante marcado pela Igreja, como se imaginará). Davam-lhes nomes como Ribelle, Vero, Ideale, Pensiero, Libero Avanti, Communardo, todos com alguma ressonância política, como se percebe. Mas noutros casos nem sequer eram nomes dessa índole, eram designações fantasiosas, livres, fora da norma ou do costume. E porquê, como explicou na série um estudioso destas coisas? Porque dar o nome aos filhos era a única coisa que os operários (os proletários…) podiam fazer com total liberdade e sem prestar contas a ninguém. Porque os filhos eram a única ‘coisa’ de seu e com a qual podiam (ao contrário de tudo o resto) fazer o que muito bem entendessem. Como a sua única ‘propriedade’ eram os filhos, dar nomes alternativos aos filhos era uma declaração de autonomia, era a única forma de mostrar que ao menos ali ninguém mandava neles. Nem o patrão do trabalho, nem os políticos da terra, nem a Igreja, ninguém…

E deram ainda outro exemplo, também muito bonito, este saído de França. Por essa altura (e bem mais tarde, quase até aos nossos dias), havia operários de fábrica que gostavam de fazer certos trabalhos “por debaixo da mesa”. Se trabalhavam numa fábrica de automóveis, por exemplo, nas horas mortas do trabalho iam pegando nuns pedaços de metal e construíam pequenas coisas (animais, brinquedos, pequenas esculturas) que depois levavam consigo. Para quê? Para terem a noção de que ao menos alguma coisa que lhes saía das mãos era deles, só deles e só para eles. Era fruto do seu trabalho, mas não ia para as mãos de ninguém.

Um trabalhador francês deu até o exemplo de um operário português, emigrante, que era um funcionário exemplar, nunca faltava, nunca se atrasava, nunca fazia greve, nada; mas ao longo dos anos foi construindo na fábrica, “por debaixo da mesa” e com materiais nela surripiados, uma série de ferramentas de que precisava para os biscates que fazia em casa (e que, assim, já não precisava de comprar). Era a sua maneira de subverter um pouco o sistema e de afirmar a sua autonomia, de fazer trabalho para si. Porque ele era um proletário, não tinha nada de seu, e assim já tinha alguma coisita, nem que fosse um martelo, uma pá ou uma enxada. Feitos pelas suas próprias mãos, mesmo que às escondidas do patrão (que aos camaradas de trabalho ele piscava-lhes o olho cúmplice sempre que fazia aquilo…).

Foi isto que aprendi esta semana. E bem gostei. Nestas alturas farto-me de pensar que há tanta coisa tão interessante que ainda não sei e quero aprender…

 

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