Segunda leitura – “Um pouco mais de azul – eu era além”

| 18 Abr 21

“Os representantes da companhia do Senhor Deus eram, portanto, os pobres e os pobres consideravam-se como membros da companhia.” Foto © Catarina Soares Barbosa.

 

Já tudo foi dito sobre isto, já toda a gente falou disto, mas eu não consigo não falar disto também: em Portugal, um terço dos pobres trabalham, têm até emprego estável, mas são e continuarão a ser pobres. E os seus filhos têm uma grande probabilidade de vir a ser pobres também.

Digo outra vez, até me doer bem fundo e de modo a não esquecer: em Portugal, um terço dos pobres trabalham, têm até emprego estável, mas são e continuarão a ser pobres. E os seus filhos têm uma grande probabilidade de vir a ser pobres também.

É triste ser pobre. Mas mais triste é uma pessoa estar condenada a ser pobre toda a vida, por muito que se esfalfe, por muito que trabalhe, por muito que procure melhorar a sua vida e a dos seus. Há qualquer coisa de destino trágico nisto: quem de nós não conhece pessoas que trabalham muitíssimo, de manhã à noite, todos os dias e tantas vezes ao fim-de-semana, quando não a fazer ainda uns biscates por fora, e que, não obstante, têm de contar os tostões todos os meses, todos, todos, todos?… Gente a quem nunca sobra nada de nada para guardar com vista ao dia de amanhã, gente que espera pelo subsídio de férias para dar a entrada para um frigorífico ou para uns óculos, gente a quem 20 ou 30 euros por mês têm um impacto muito grande na gestão do orçamento doméstico”, como diz um estudo agora divulgado?

Quem não conhece pessoas assim? E o que é que pensarão essas pessoas de manhã, quando se levantam, como olham para o dia que começa e que vai ser dolorosamente igual ao de ontem e igual ao de amanhã, que é que esperam da vida a médio prazo quando sabem que aparentemente nada muda, como é que sobrevivem, como é que vivem?…

A parte mais dolorosa é saber que se pode ter um emprego, um emprego estável, com contrato sem termo, com ordenado mínimo ou até algo mais, com as condições genéricas para se poder levar uma vida razoável, e mesmo assim não se escapa à pobreza. Do total de pobres no país, e tantos são, há um terço (um terço!) que têm trabalho, que têm emprego, que ganham ordenado. Não são desempregados, não são precários, não são preguiçosos, não são dos “malandros que não querem fazer nada”, ou dos que “só estão à espera do RSI”, nada disso. São gente que trabalha a tempo inteiro, que tem contrato, que ganha salário, que recebe subsídio de férias e 13º mês, e que mesmo assim é pobre. Pobre. Pobre. Pobre.

Lá diz o estudo: “Não basta ter um emprego seguro para não se ser pobre. A conjugação entre os baixos rendimentos do trabalho e a estrutura familiar (…), num contexto de fraqueza dos apoios sociais, explica que se possa ser um trabalhador contratualmente estável e, ao mesmo tempo, ser‐se pobre”. Pior ainda, quem é pobre começou a ser pobre ainda em criança e tem filhos que com grande probabilidade vão ser pobres também. Porque apanhados naquela mesma engrenagem de que não se percebe como é possível fugir. Há exceções, claro, mas filho de pobre arrisca-se mesmo a ser pobre. Por muito que trabalhe. Por muito que se esforce. Por muito mérito que tenha. Parece um destino. Trágico.

 

pobreza mendigo foto direitos reservados

Mesmo quem tem trabalho estável vive na pobreza, qual mendigo. Foto © Direitos Reservados

 

Ainda os dados do estudo, citados da Rádio Renascença: “A isto junta-se um contexto que não é favorável a uma melhoria da sua situação económica. O estudo mostra que neste grupo dos trabalhadores pobres há uma trajetória de vida marcada por pobreza logo na infância e depois na vida adulta. Saíram cedo da escola para entrar no mercado de trabalho, por volta dos 15 anos, para ajudar a família, devido a problemas de saúde dos pais ou dos próprios enquanto crianças, a instabilidade laboral e até a perda de membros significativos do agregado familiar. (…) A pobreza tem uma clara dimensão familiar e na maior parte das biografias, estes pobres entraram na pobreza na infância e nunca conseguiram sair”.

Como um destino, como um fado. Trágico. E que eu não sei como se pode combater, como se pode alterar, mas que não posso deixar de dizer. Um e outra e outra vez. “Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar”. Mas… e depois?

(Enquanto escrevo isto, salta-me dos jornais a notícia de que o grupo Auchan vai distribuir uma parte dos lucros do ano passado pelos seus trabalhadores – os chamados “colaboradores”, que habitualmente só “colaboram” nos esforços e não nos ganhos… Parece que é mesmo verdade: 17,7 milhões de euros, que significam cerca de 2,45 salários por cada trabalhador, vão ser distribuídos no seio da empresa.

O grupo, conhecido no domínio dos supermercados, parece que já costuma fazer isto, já costuma olhar para os trabalhadores como pessoas com quem se partilham perdas, mas também receitas. E como no ano passado manteve e até aumentou os seus lucros, decidiu – oh! espanto… – que parte deles deveria caber aos trabalhadores.  Sim, aos trabalhadores. Àqueles que ajudaram a gerar as receitas. Àqueles que, trabalhando ali no duro todos os dias, se calhar continuam bastante pobres. Mas que, com estas e com outras, podiam olhar para o futuro de modo um nadinha mais risonho, com um pozinho mais de esperança. “Um pouco mais de sol – eu era brasa / Um pouco mais de azul – eu era além”, como escreveu Mário de Sá-Carneiro. “Para atingir, faltou-me um golpe de asa…”)

 

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