António José Seguro e o Papa Leão XIV estão de acordo na necessidade de pôr fim às guerras e procurar soluções para os conflitos através do diálogo. A conclusão resulta do encontro que o Presidente da República manteve esta quinta-feira, 24 de setembro, com o Papa, no Vaticano, e que António José Seguro relatou aos jornalistas como tendo sido uma conversa “muito importante e muito profunda”, centrada na paz, na dignidade humana e na esperança.
“Ambos defendemos o cessar imediato das guerras, o cessar dos conflitos e a resolução dos problemas por meios pacíficos”, afirmou o Presidente português, à saída da audiência, que durou cerca de 45 minutos. A Santa Sé confirmou que, nas conversações mantidas posteriormente na Secretaria de Estado, foram abordados os conflitos no mundo, as migrações, o multilateralismo, o respeito pelo direito internacional e “a urgência de um constante empenho em prol da paz”.
“Somos seres humanos, dotados de racionalidade. Portanto, é normal que entre seres humanos os problemas se resolvam à mesa e não num campo de batalha”, sublinhou António José Seguro.
O Presidente da República disse ter ficado “muito impressionado” com o Papa, que conhecia até agora sobretudo através da comunicação social, destacando a sua “simplicidade” e a forma “assertiva” como olha para os problemas.
“Foi uma conversa muito, muito franca”, afirmou, acrescentando que saiu do encontro com uma convicção: é necessário “fazermos o que está à nossa disposição para que as pessoas tenham uma vida melhor e para que o mundo seja um mundo mais justo e um mundo de paz”.
Até porque, insistiu o Presidente, não basta falar de esperança: é necessário traduzi-la em decisões e ações concretas. “A esperança não pode ser uma palavra desprovida de significado. Ela tem que corresponder à ação. Caso contrário, a esperança fica apenas nos belos livros e nos belos discursos”, afirmou.
Seguro defendeu, neste contexto, a importância de pessoas e instituições que mantenham abertas as vias do diálogo. “Precisamos de pessoas livres e de instituições que atribuam ao diálogo, à diplomacia e à política os instrumentos para encontrarmos as soluções [para os conflitos]”, afirmou.
Questionado pelos jornalistas sobre as guerras em curso, Seguro afirmou que “não se justifica absolutamente” a existência destes conflitos e defendeu que os líderes devem sentar-se à mesa, dialogar e procurar soluções, em particular nos casos da Ucrânia e do Médio Oriente.
O Presidente português relacionou ainda os conflitos internacionais com as consequências económicas que atingem as populações, nomeadamente através do aumento dos preços da energia e da inflação. E disse ter transmitido ao Papa que, em Portugal, “há muitas pessoas para quem o dinheiro não estica até ao final do mês”.
Nas declarações aos jornalistas, António José Seguro falou também sobre o mandato de António Guterres como secretário-geral das Nações Unidas, que termina no final deste ano, considerando que o português deixa um legado marcado pela “defesa da paz”, do “humanismo”, da “tolerância” e da resolução dos conflitos por meios pacíficos. “O melhor balanço que se pode fazer em relação ao trabalho que o engenheiro António Guterres fez à frente da Secretaria-Geral das Nações Unidas” é, afirmou, o de alguém que “honra os nossos valores” e que se manteve firme na defesa da dignidade humana.
Seguro reconheceu, contudo, que, durante estes anos, “as Nações Unidas deixaram de ter o seu papel de grande protagonista nos conflitos que o mundo está a enfrentar”. O Presidente da República falou de um “enfraquecimento das instituições do multilateralismo”, atribuindo parte das limitações da organização à sua dependência das contribuições financeiras dos Estados, “designadamente dos Estados Unidos”.
Vinda do Papa a Portugal ainda por confirmar oficialmente

O Presidente português ofereceu ao Papa uma escultura em porcelana de Cristo crucificado, da autoria do arquiteto Álvaro Siza Vieira. Foto © Vatican Media
Durante o encontro, António José Seguro renovou o convite para que Leão XIV visite Portugal em 2027. O Presidente disse não ter recebido ainda uma resposta, a qual estará dependente do “calendário exigente” do Papa para o próximo ano.
Seguro considera, contudo, que a eventual visita seria uma oportunidade para Portugal acolher uma mensagem de paz e diálogo num contexto internacional marcado pela incerteza.
“É muito importante […] uma boa oportunidade para o mundo, a partir de Lisboa e a partir de Portugal, poder ouvir uma mensagem de paz, uma mensagem de diálogo que é relevantíssima nos tempos de incerteza que vivemos”, afirmou.
O convite tinha sido formalizado em maio. A ter lugar, a visita acontecerá num ano em que Portugal assinala os 500 anos da criação da nunciatura apostólica no país e o 110.º aniversário das aparições de Fátima.
Questionado sobre o que o Papa lhe teria respondido concretamente após renovar o convite, o Presidente português recusou antecipar uma decisão que, segundo afirmou, cabe ao próprio Leão XIV tornar pública.
“Não gostaria, porque cabe, naturalmente, ao Papa dizer e dar […] a notícia pública daquilo que será a sua decisão para a visita em 2027”, afirmou. Ainda assim, acrescentou: “Tenho a minha convicção que vai ser uma resposta ao nível do convite que lhe fizemos”.
O encontro entre António José Seguro e Leão XIV decorreu no Palácio Apostólico do Vaticano. O Presidente português ofereceu ao Papa uma escultura em porcelana de Cristo crucificado, da Vista Alegre, da autoria do arquiteto Álvaro Siza Vieira. O Papa ofereceu ao Presidente português uma peça intitulada Cornucopia, reprodução de um elemento da decoração do pavimento da Capela do Santíssimo Sacramento da Basílica de São Pedro.










