Que espero do Sínodo católico? (10)

Seis expectativas principais

| 5 Out 2023

O 7MARGENS acompanha os trabalhos da Assembleia-Geral do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade que já se iniciaram, publicando as expectativas dos seus leitores sobre este importante acontecimento (ver textos já publicados).

O que esperamos do sinodo_7 margens

Tenho grandes expectativas a respeito do Sínodo. Talvez seja ingenuidade minha, mas não deixo de acreditar que a Igreja é reformável, apesar da lentidão com que se vai renovando e do consequente desfasamento em relação à sociedade em que vive. Este facto revela um entorpecimento das estruturas e um conservadorismo excessivo que a impede de ser sinal profético no mundo.

Vamos então às minhas expectativas em relação ao Sínodo. Há assuntos que urge tratar, sob pena da credibilidade da Igreja estar em jogo. Desde logo, a questão do reconhecimento da plena igualdade da mulher em relação ao homem em todos os âmbitos da vida eclesial. E não se trata apenas da igualdade reconhecida teoricamente, mas da igualdade efetiva, do acesso da mulher a todos os cargos e funções da igreja, incluindo o acesso a todos os níveis do sacramento da ordem. E neste ponto já vamos tarde!

O segundo aspeto que me parece pertinente é a forma como se concretiza o recrutamento e formação dos candidatos aos vários graus do sacramento da ordem. Urge discutir este assunto sem medo e com total transparência, enfrentando o problema com ousadia. As coisas não podem permanecer como até agora. Um dos sinais mais claros da desadequação do atual formato é a crise dos abusos sexuais e de poder. A discussão, todavia, não deve ficar apenas pela forma como os padres são recrutados. Também a ausência de transparência com que os bispos são escolhidos deveria ser alvo de discussão.

Uma terceira questão, que me parece de enorme importância, é a efetiva sinodalização da Igreja. Significa isto que se deveria passar de uma conceção monárquica para uma conceção comunitária e democrática da organização. Toda a comunidade deve ter um papel relevante no processo de tomada de decisão. Para tal, é preciso alterar o código de direito canónico e os organismos de gestão da vida comunitária, desde o nível das paróquias até ao nível das dioceses.

Uma quarta questão seria a revisão da moral sexual oficial, fundada numa antropologia ultrapassada, sem qualquer fundamento nos textos originários do cristianismo e ainda menos na mensagem de Jesus. Torna-se obrigatório que se discuta a moral proibicionista que invadiu a teologia romana, com consequências nefastas sobre a consciência de muitas pessoas. É urgente rever a posição da Igreja face à comunidade LGBT+, a inconcebível proibição dos métodos anticoncecionais artificiais, bem como o recurso aos métodos de conceção medicamente assistida e tantas outras questões que têm isolado a Igreja e cavado um fosso enorme entre a instituição e os crentes.

Parece-me igualmente urgente que se repense o ecumenismo. O atual modelo está esgotado. Estar à espera de que as outras denominações cristãs se “convertam” ao catolicismo é insano, arrogante e totalmente despropositado. Torna-se, por isso, urgente que a igreja Católica passe a reconhecer nas outras denominações cristãs igual valor eclesial e se relacione com as outras como quem lhes reconhece total legitimidade, abrindo assim caminho para um ecumenismo que não visa a conversão do outro, mas o reconhecimento mútuo de legitimidade cristã, permitindo que todos participem plenamente nas celebrações de todas as denominações sem se sentirem intrusos, mas membros de um mesmo corpo eclesial cristão.

Uma última questão parece-me igualmente relevante. A abolição de todo o tipo de censura e de todo o tipo de exclusão é inerente à natureza da própria igreja enquanto sinal da misericórdia, da paciência e da tolerância de Deus em relação ao ser humano. Uma Igreja que exclui os seus membros por não afinarem pelo diapasão oficial é ainda a Igreja de Cristo? Que sentido tem a pena de excomunhão no interior da Igreja de Jesus? Todos têm lugar à mesa da comunhão que Deus nos oferece em Cristo. Ninguém pode ser excluído, ainda que defenda posições não enquadradas no catecismo oficial ou tenha tido comportamentos considerados de muita gravidade. Não está Deus sempre pronto a esperar pelo filho que se perdeu?

 

Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.

 

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