“Sema” – um filme que fala das violências sexuais na guerra do Congo

| 12 Mar 20

Imagem do filme “Sema – (“fala”, em swahili), sobre as mulheres vítimas de violências sexuais na R.D. Congo, realizado por Macherie Ekwa Bahango.

 

Um filme sobre a tragédia das agressões sexuais no maior país de África, a República Democrática do Congo (RDC), foi apresentado domingo passado, Dia Internacional da Mulher, no festival no Festival de Cinema Independente de Washington (EUA). Sema – que significa “fala”, em swahili – é um filme “duro”, descreve o serviço de notícias das Obras Missionárias Pontifícias (OMP), protagonizado por mulheres que sobreviveram à violência sexual no Congo.

A realizadora Macherie Ekwa Bahango (autora de Maki’la) escreveu o guião juntamente com várias sobreviventes, que se ofereceram para o desempenhar – 90% das actrizes do filme foram protagonistas dos factos e vários filhos de vítimas aparecem também a desempenhar o papel de crianças no filme.

Numa entrevista ao Catholic News Service, citada pela mesma fonte, a congolesa Tatiana Mukanire, coordenadora do Movimento de Sobreviventes de Violações e Violências Sexuais, explicou que, apesar de ser ficção, Sema mostra o que aconteceu nas últimas décadas, no seu país: mulheres violadas, que depois são recusadas e apontadas a dedo, tal como os filhos que nascem apesar dessa relação não-desejada.

“Não é fácil viver todos os dias com gente que te aponta a dedo”, dizia, referindo-se à pressão para que as agredidas abortassem. “O filho de uma serpente é uma serpente”, diz uma mulher da aldeia, que aparece no filme a dizer ao seu filho que não brinque com o filho de uma mulher violentada. E o marido de uma vítima de violação deixou-a, depois de ela e outras cinco mulheres da aldeia terem sido agredidas enquanto tratavam dos campos.

Apesar disso, muitas mulheres têm resistido. Em Dezembro, a jornalista e activista de direitos humanos congolesa Caddy Adzuba denunciou na organização católica de desenvolvimento Manos Unidas (Mãos Unidas), em Espanha, o “feminicídio” que se verifica no seu país e que equivale a um genocídio, como o 7MARGENS noticiou.

“O que acontece às mulheres não é um conto, mas uma realidade diária”, que se pode qualificar como genocídio. “É um feminicídio e como tal queremos que seja tipificado no Tribunal Penal Internacional. Por isso, o meu objectivo é lutar para que a voz das mulheres – dessas mulheres – seja escutada”, afirmou Adzuba, na ocasião, depois de receber oi Prémio Internacional Manos Unidas, pelo seu papel no apoio às mulheres vítimas da guerra e na denúncia destas situações.

O tema da violência sexual no Congo conseguiu também maior atenção por causa do Prémio Nobel de la Paz de 2018, o médico Denis Mukwege, entregue pelos seus esforços em educar as pessoas para a questão, especialmente durante a guerra.

Recorda o serviço de notícias das OMP que a Fundação Mukwege, criada pelo médico, apoia as mulheres que sobrevivem, em quatro frentes:  acesso universal à atenção integral; acesso universal às reparações; responsabilidade dos perpetradores, sejam indivíduos ou governos; e organização das sobreviventes para falar e actuar. Tatiana Mukanire, a líder do movimento de sobreviventes, é uma das 3.500 pessoas que a fundação apoiou e que, hoje, é capaz de falar do que aconteceu. Sema, para que os seus filhos possam ser uma “geração de esperança”.

 

(a seguir pode ver-se o trailer do filme)

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