Semana “Laudato Si’” (3): Desenvolvimento sustentável e conversão ecológica para viver em harmonia

| 18 Mai 20

Rita Soares Franco: Uma conversão ecológica para viver em harmonia

Depoimento de Rita Soares Franco, membro do Foco de Conversão Ecológica da Capela do Rato (Lisboa).
Semana “Laudato Si’”, proposta pelo Papa Francisco para assinalar os cinco anos da publicação da encíclica sobre o “cuidado da casa comum”.
Iniciativa da Rede Cuidar da Casa Comum, com a colaboração do 7MARGENS.

 

Eduardo Duque: Uma estratégia de encontro entre Humanidade e Natureza

Depoimento de Eduardo Duque, Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais-Universidade Católica Portuguesa; membro da Comissão de Apoio Teológico e Científico da Rede Cuidar da Casa Comum.
Semana “Laudato Si’”, proposta pelo Papa Francisco para assinalar os cinco anos da publicação da encíclica sobre o “cuidado da casa comum”.
Iniciativa da Rede Cuidar da Casa Comum, com a colaboração do 7MARGENS.

 

“Laudato si’”, desenvolvimento sustentável e covid-19

Neste tempo em que vivemos afetados física e psicologicamente com a covid-19, será bom que nos lembremos das convergências da encíclica Laudato Si’ [cujo quinto aniversário da publicação passa no próximo dia 24] da exortação apostólica Querida Amazónia e dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, até para refletirmos sobre a nossa responsabilidade individual e coletiva perante o vírus. Os documentos mencionados acima, foram, até muito mais pela hierarquia da Igreja Católica, quase que ignorados, competindo-nos a penitência e a ação, não efetuada, de ao proclamarmos a Ressurreição do Senhor sabermos que os vírus não nascem sem a nossa passividade e indiferentismo, que são pecaminosos.

Fonseca (2016), aquando da publicação da encíclica, escreveu que ela continha relevantes referências para as organizações empresariais, se fossem capazes de ultrapassar uma economia baseada somente nos mercados, para também se pensar no bem-estar ambiental, social e cultural. A encíclica era importante porque era objeto de um diálogo global e inclusivo e fornecia contribuições para a relação entre o Homem e a Natureza, quer do ponto de visto teológico, quer de gestão, substantivando soluções que mitigassem a pobreza e o meio ambiente. Pelo trabalho de Fonseca (2016) percebe-se um alinhamento da encíclica com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

No mesmo sentido vai o estudo realizado por Giraud et.al (2016) sobre esse alinhamento entre os dois documentos que “examinam as relações entre clima e desenvolvimento”, como respostas coletivas para os desafios mundiais, englobando as várias ecologias: económica, ambiental, social e cultural. Quando o documento da Organização das Nações Unidas (ONU) refere que “as mudanças climáticas e o desenvolvimento não são separáveis”, a encíclica papal afirma que “as mudanças climáticas são um problema global”, frases com o mesmo conteúdo. Ambas se referem a que não há duas crises – uma social e outra ambiental – mas uma abordagem global e integral que combata a pobreza, quer económica, quer cultural. A diferença entre esses dois documentos é que Francisco abre-se à “Teologia do Povo” e a ONU mais a uma posição conservadora ao lado da classe média industrializada. Também a ONU refere a “boa governança”, como controlo da gestão, enquanto Francisco prefere uma Teologia da Libertação e clama contra a economia, enquanto for um “bezerro de ouro”, e “controlo” inferido numa distribuição equitativa.

Com a publicação de Querida Amazónia, o bispo de Roma apresenta-se como um poeta sonhador, e acentua a linha dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, mas sonha com uma efetiva descolonização a todos os níveis, reforçando a sua encíclica. O seu sentido comunitário, dirigido a todos os homens e mulheres, acentua-se na escuta da cultura dos povos, cuidando das suas raízes e interculturalidade, numa escuta da natureza cósmica – a fazer lembrar Leonardo Boff –, e num sonho de transformação eclesial. Sente-se em todo o documento uma rejeição definitiva da economia que mata e uma luta pela dignidade do ser humano e dos seres vivos, ultrapassando em muito os limites dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

Ao lado de referências de outras tradições religiosas que se coadunam com as preocupações de Francisco e da ONU, poderemos relacionar uma atuação profética do que viria a acontecer com a covid-19. Não que esta pandemia seja um castigo de Deus à humanidade cósmica (Deus não castiga), mas que seja o sinal que os documentos referidos têm de ser assumidos na sua plenitude, porque os vírus vêm das nossas mãos, fortalecem-se pelos atos praticados contra a humanidade, e muito pelas políticas contrárias ao desenvolvimento, ao bem-comum e ao bem-viver. É de notar que, embora pareça que Querida Amazónia se dirige a uma região da América Latina, não o é, mas refere-se a todos nós.

Compete às cristãs e aos cristãos de todas as tradições religiosas na unidade e na pluralidade, a defesa dos princípios ecológicos, enquanto diálogo, nas dimensões fundamentais da humanidade, nunca esquecendo que a ecologia cultural é um fulcro importantíssimo, para compreendermos a ecologia espiritual.

 

Bibliografia
Boff, L. (2013). La Sostenibilidad – Qué es y què no es. Cantabria. Editorial Sal Terrae.
Fonseca, L. M. C. M. (2016). Sustainability and pope Francis’s encyclical ‘Laudato Si’ (2015) the role of social enterprises. In European Journal of Science and Theology, 12(2), 53–64.
Giraud, Gael, Orliang, P. (2016). Laudato Si’ e os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Cadernos de Teologia Pública Unisinos, 13, 1-25.

Joaquim Armindo, diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental

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