Semana “Laudato Si’” (4): Este é o tempo oportuno, as coisas têm de mudar!

| 19 Mai 20

Juan Ambrósio: Este é o tempo oportuno, as coisas têm de mudar!

Depoimento de Juan Ambrósio, Faculdade de Teologia-Universidade Católica Portuguesa; membro da Comissão de Apoio Teológico e Científico e da Comissão Executiva da Rede Cuidar da Casa Comum.
Semana “Laudato Si’”, proposta pelo Papa Francisco para assinalar os cinco anos da publicação da encíclica sobre o “cuidado da casa comum”.
Iniciativa da Rede Cuidar da Casa Comum, com a colaboração do 7MARGENS.

 

O autodomínio dos animais caçadores

Ouvindo o vento que passa, muita gente espera que estas organizações não se fiquem pelos princípios éticos e religiosos, por muito bem elaborados que sejam. Sente-se a falta de ver que os problemas mais dolorosos são reconhecidos e denunciados concretamente quanto aos pontos mais sensíveis: sem medo nem cerimónia frente aos grupos de poder, que enriquecem e dominam na medida em que desprezam os mais fracos e sem hesitar perante actos de crueldade; e que a obsessão doentia de poder e riqueza se esconde sob a fachada de progressos científicos – sendo sobretudo jogadas de enriquecimento e domínio, à custa do equilíbrio de toda a natureza; por outro lado, a educação fundamental de cada pessoa exige compreender o orgulho de cada um de nós ser responsável por manter e gerir esse equilíbrio, como seres racionais e sensíveis à beleza e justiça que garantem o bem-estar geral. Sublinhe-se que é com alegria esperançosa que vemos o 7MARGENS debruçar-se tão convenientemente sobre a encíclica Laudato Si’.

A intervenção em causa será tanto mais eficaz, quanto mais revelar a independência e conhecimento suficientes para merecer atenção e motivar de facto o esforço necessário para inverter a destruição do maior bem: a vida bem enraizada na natureza.

E se nos sentimos andar para trás, lembremos que a vida é uma espiral em que o avançar parece descer de nível quando, na realidade, se está a tomar balanço. A presente crise é disso bom exemplo: pôs todo o mundo a pensar nas limitações humanas, a saber discernir quais os objectivos principais e a programar os melhores passos de dança para atingir a coreografia ideal. Mas é fundamental que não se tenha medo ou vergonha de temas tabu ou desagradáveis quer para o “povo” quer para os “poderosos”.

Os média encheram-nos de imagens sobre o ressuscitar da natureza, que já só em sonhos era verdadeiramente selvagem. O mundo precisa mesmo de um contínuo sistema de auto-lavagem.

Sentiram-se bem os efeitos da poluição sonora, que afecta directamente a saúde do corpo e alma, para além de transtornar o equilíbrio da natureza. Esperam-se tantas sugestões eficientes!

Os meios de transporte precisam de um corajoso planeamento em rede, atento à hierarquia de valores. Talvez a grande conversão seja no tráfego aéreo. Não é só pela pesadíssima poluição sonora: será humanamente aceitável que as pessoas sejam empilhadas para dar mais lucro (não a essas pessoas)?

O automóvel, para já, vai ser o meio de transporte preferido, juntando o prazer da autonomia e da higiene. Mas já pouco nos convida a apreciar e descobrir a beleza de qualquer viagem. Os ocupantes ficam mergulhados no desempenho técnico ou nas técnicas de esquecer o “Nunca mais chegamos! Temos de ultrapassar!”

Os grandes fabricantes têm apostado em encher os olhos de toda a gente com a potência do motor, velocidade, luxo… e não tanto com a comodidade e segurança real dos ocupantes, do trânsito em geral e dos peões. Podiam evitar muitas causas dos malefícios do ruído – então aqueles escapes e arranques gloriosos, que marcam importância, força, juventude e atraem os olhares e outros desejos…

Pára-se num restaurante? Será o que tem música mais alta. Na serra ou no mar, o ruído de altifalantes (e não só) impedem-nos de sentir a natureza e de dar o naturalíssimo e imprescindível repouso ao corpo e à mente.

Quanto aos recintos públicos de festas, não haveria vantagem em “confinar” o território e os decibéis? E o som desnecessariamente alto nos cinemas e nas discotecas, que se sabe que provoca mal-estar e agride a capacidade auditiva?

Somos animais e partilhamos muitas das suas tendências, fraquezas e forças, além do fundamental instinto de sobrevivência. Mas também somos racionais: como tal, dispomos da nobre capacidade de enfrentar o problema do bem e do mal. E porque desejamos sempre mais, aumentamos sempre mais a possibilidade de erro – mas também mais capacidade de sobrevivência e de aprender com o próprio mal.

Num acampamento na serra do Caramulo, dezenas de anos atrás, recordo o espanto de um dos rapazes do grupo, quando parou na orla da floresta a admirar a paisagem: “Que estranho, não se ouve nada!”

Quando os animais caçadores (em que nos incluímos) procuram a presa de que necessitam, ficam imóveis e silenciosos. Como os mais nobres representantes do reino animal, não deveríamos ser os melhores a guardar aquele autodomínio e silêncio, que nos permite pensar o que devemos procurar no vasto mundo à nossa volta?

Manuel Alte da Veiga, professor universitário aposentado.

 

Maria José Varandas:  Os laços invisíveis de uma comunhão universal

 

Depoimento de Maria José Varandas, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa; membro da Comissão de Apoio Teológico e Científico da Rede Cuidar da Casa Comum.
Semana “Laudato Si’”, proposta pelo Papa Francisco para assinalar os cinco anos da publicação da encíclica sobre o “cuidado da casa comum”.
Iniciativa da Rede Cuidar da Casa Comum, com a colaboração do 7MARGENS.

Artigos relacionados