Semana Laudato Si’ (5) – Um manual de sobrevivência, um grito silencioso e um exercício para a reconstrução

| 20 Mai 20

Luísa Schmidt: Um manual de sobrevivência para a humanidade

Depoimento de Luísa Schmidt, Instituto de Ciências Sociais-Universidade de Lisboa; membro da Comissão de Apoio Teológico e Científico da Rede Cuidar da Casa Comum.
Semana “Laudato Si’”, proposta pelo Papa Francisco para assinalar os cinco anos da publicação da encíclica sobre o “cuidado da casa comum”.
Iniciativa da Rede Cuidar da Casa Comum, com a colaboração do 7MARGENS.

 

António e Maria José Ferreira: O grito silencioso de uma paisagem destruída

Depoimento de António e Maria José Ferreira, membros do Foco de Conversão Ecológica de Envendos.
Semana “Laudato Si’”, proposta pelo Papa Francisco para assinalar os cinco anos da publicação da encíclica sobre o “cuidado da casa comum”.
Iniciativa da Rede Cuidar da Casa Comum, com a colaboração do 7MARGENS.

 

Cuidar da Casa Comum: um exercício de diaconia para a reconstrução o mundo

A presença dos cristãos no mundo contemporâneo requer a correlação dos verbos cuidar e servir na conjugação do agir como dinâmica da encarnação, onde se inscreve a práxis do diaconado. Nas escrituras o diakonos aparece associado ao servo, com o sentido de se baixar para assistir às necessidades do outro numa atitude de despojamento de poder e de reconhecimento do dom. Mas não se cingindo à sua dimensão ministerial e hierárquica, a diaconia como serviço, quando ampliado o seu significado, fundamenta-se no carácter ontológico dos cristãos que são chamados a exercê-la conforme as áreas e contextos onde se inserem. Pelo que também aqui radica o seu posicionamento em matéria ecológica, tornando-se operativa na tarefa do cuidar da criação.

Se as questões ecológicas a todos dizem respeito – das instâncias políticas ao cidadão comum – os cristãos, precisamente porque vinculados no modelo de serviço d’Aquele que os congrega, devem assumir as exigências que decorrem da actual fragilidade do planeta como incumbência da sua missão no mundo: um mandato de cuidado pelos bens e pelos outros em vista à promoção do desenvolvimento sustentável, do bem comum e da qualidade de vida de todos. Neste sentido, hoje o exercício da diaconia cristã implica uma resposta comprometida e responsável ao “urgente desafio” de Francisco de “proteger a nossa casa comum” (LS, 13). Na encíclica Laudato Sí’, que esta semana celebramos, Francisco apela a uma resposta urgente e global à crise ecológica e deixa-nos a seguinte interpelação: “Que tipo de mundo queremos deixar àqueles que virão depois de nós, às crianças que estão a crescer?” (LS, 160).

Em 1998, o relatório da Comissão Independente sobre a População e a Qualidade de Vida da ONU, presidida por Maria de Lourdes Pintasilgo, vinculou o desejo de “cuidar o futuro” à responsabilidade comum do cumprimento de “um programa radical para viver melhor” que implicasse a conjunção das variáveis do desenvolvimento sustentável e da qualidade de vida. A resposta à interpelação de Francisco não pode ser menos exigente: uma vez que supõe a passagem do sonambulismo da indiferença e da resignação para a assunção encarnada de uma “nova solidariedade universal” assente na interligação das questões ambientais, sociais, económicas, políticas e antropológicas da ecologia integral, além de uma lógica meramente administrativa, em vista à concretização dos dezassete objectivos de desenvolvimento sustentável da Agenda 2030 das Nações Unidas.

Em bom rigor, o que Francisco nos diz é que não podemos querer ter uma “relação justa” com o mundo renunciando ao imperativo de justiça como “coordenada fundamental” na relação que estabelecemos com os homens e as mulheres que connosco partilham a Terra. Além das bandeiras que compartimentam as causas, qualquer política ecológica é indissociável da busca da justiça e da paz, pelo que a erradicação da pobreza e da fome, a igualdade de género e a redução das demais desigualdades, a promoção da saúde, educação, trabalho e segurança dignos, são sinónimos da preservação dos ecossistemas, da acção climática, da aposta nas energias renováveis e da salvaguarda dos recursos naturais, e vice-versa.

Como lembrava Sophia de Mello Breyner Andresen num discurso proferido na Associação Portuguesa de Escritores em Julho de 1964, por ocasião da entrega do Grande Prémio de Poesia atribuído a Livro Sexto: “Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor.” (Arte Poética III)

Cientes de que o tempo que lhes é dado hoje a viver “é o tempo duma profunda tomada de consciência”, o compromisso dos cristãos com desenvolvimento sustentável e a qualidade de vida é irrenunciável, e joga-se nos diversos âmbitos onde se movem: das estruturas de acção humanitária, social ou política propriamente ditas, aos contextos profissionais, académicos e familiares onde se inserem, bem assim, sem esquecer as ambiências eclesiásticas e religiosas de cada uma das comunidades cristãs que incorporam. Na era do Antropoceno, onde a intervenção humana no ambiente constitui um factor determinante do mesmo, a diaconia dos batizados esgrime-se, portanto, na mudança dos estilos de vida e consumo dos cristãos, individual e comunitariamente considerados: rejeitando o “pecado organizado” ao superar a lógica da maximização do lucro e da posse na nossa relação com as coisas, a natureza e os outros, por aquela do “Bem-Viver” e do “Bem-Fazer” (Querida Amazónia, 71).

No contexto português, a Rede Cuidar da Casa Comum surge como repto por parte de alguns baptizados (cristãos de diferentes igrejas e denominações) ao procurar dar corpo às interpelações de Francisco inscritas nesse “manual de sobrevivência para a humanidade”, como a designa Luísa Schmidt, através do diálogo entre crentes e não crentes de várias instituições e comunidades. A partir da encíclica, ao procurar promover nas comunidades cristãs uma “efectiva conversão ecológica e sugerir caminhos de actuação concreta com vista a uma ecologia integral”, a Rede posiciona-se como uma plataforma oportuna de aproximação e diálogo ecuménico em Portugal diante do desafio de resiliência para o qual todas as Igrejas cristãs são convocadas, e diante do qual a Igreja Católica, em particular, não se pode furtar.

Nesta semana em que celebramos o quinto aniversário da Laudato Sí’, esta aproximação ganha sentido com a realização da vigília ecuménica de oração pela criação a acontecer na noite desta quinta-feira, 21 de maio, às 21h30, organizada em conjunto pela Rede Cuidar da Casa Comum, pelas igrejas do Conselho Português de Igrejas Cristãs e a Sociedade Bíblica Portuguesa (à qual se pode aceder a partir da página de Facebook da Rede). Fazemo-lo em conjunto pois sabemos que “as coisas podem mudar”, na justa medida em que, em conjunto, “não aceitamos a fatalidade do mal”. Fazemo-lo, ainda, não resignados, antes fundados na confiança que a oração, mesmo se aparentemente inútil e insuficiente, é um outro modo de conspirar a esperança em busca dos “novos Céus e nova Terra”. É, então, no louvor que se exprime também o nosso protesto pela urgência da mudança, pois, como escrevia José Augusto Mourão, “se o canto do mundo é uma Páscoa, então o canto inclui / necessariamente a queixa por tudo aquilo que ainda / está cativo e sofre”.

Porque imersos na história, a ecologia deve ser equacionada pelos cristãos em chave diaconal como componente constitutiva do baptismo que os identifica, em “obediência criativa ao Evangelho”. Assim considerado, o Cuidado da Casa Comum vivido como diaconia sobre o mundo pode ser sinal de esperança para os homens e mulheres do nosso tempo em vista à construção da “cidade nova”, sem muros nem ameias. Como que uma profecia em busca da “forma justa” do Universo.

Pedro J. Silva Rei é historiador, membro da Comissão Executiva da Rede Cuidar da Casa Comum; este texto foi inicialmente publicado na revista Mensageiro do Coração de Jesus.

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