Sementes

| 1 Mai 2023

Na parábola que Jesus contou a semente pode cair em diferentes locais e isso determina o seu futuro, isto é, os casos em que vai gerar vida nova ou ficar simplesmente pelo caminho, sem cumprir o propósito para o qual foi lançada à terra.

 

Vincent van Gogh, O Semeador (Junho de 1888) – Museu Kröller-Müller – Países Baixos

Vincent van Gogh, O Semeador (Junho de 1888) – Museu Kröller-Müller – Países Baixos

 

O evangelista Lucas descreve que Jesus de Nazaré estava a anunciar o evangelho do reino a uma multidão vinda de várias cidades e contou-lhes uma estória que ficou conhecida como a parábola do semeador (8:4-15), para ilustrar as diversas atitudes das pessoas quando ouvem a Palavra ou a mensagem de Deus aos homens. Talvez esta seja a única parábola bíblica que foi explicada aos discípulos pelo próprio Mestre, mas que ainda assim pode carecer de compreensão.

Entenda-se à partida que o evangelho do reino é simbolizado por uma semente, já que dispõe de potencial de vida espiritual. Compreenda-se ainda que o semeador representa a testemunha, e que lhe compete lançar a semente, mas não viver a vida dela.

Assim, a semente caída junto do caminho significa aqueles que apenas ouviram a Palavra mas não a receberam. Isto é, não creram, por isso não chega a germinar pelo facto de deixarem que os que andam pelos caminhos da vida a pisem e destruam, talvez devido à opinião pública e à pressão social. Depois as aves (forças das trevas) comem (roubam) o que resta. E vão usar esses restos para o seu trabalho de engano (misturar verdade com mentira).

Estes não chegaram a gerar vida dentro de si.

Quanto à semente caída sobre as pedras, pretenderá significar aqueles que ouviram a Palavra e a receberam com alegria, mas não chegaram a criar raiz, acabando por secar por falta de humidade, ou seja, porque não se moveram em ambiente de fé. Assim como a semente física precisa da humidade e temperatura adequadas para germinar, também aquele que recebe a Palavra necessita desse enquadramento espiritual. Quando isso não sucede e vem a adversidade ou a tentação acabam por desistir.

Estes também não chegaram a gerar vida dentro de si.

A Parábola do Semeador. Ilustração (c. 1180) de Herrad de Landsberg no Hortus Deliciarum, da Abadia de Hohenburg (Alsácia).

A Parábola do Semeador. Ilustração (c. 1180) de Herrad de Landsberg no Hortus Deliciarum, da Abadia de Hohenburg (Alsácia).

 

Já a semente caída entre espinhos representa aqueles que ouviram a Palavra e a receberam. Neste caso a semente germinou, mas os espinhos à sua volta sufocaram-na. Estes espinhos podem significar as preocupações desta vida que provocam as crises de fé. Mas também podem representar alguma dificuldade em lidar com a prosperidade e a riqueza. Muitos mantêm-se na dependência divina nos tempos de dificuldade mas depois, quando a vida corre bem, descartam-na.

Mas, e ainda de acordo com a explicação de Jesus, os espinhos podem também tipificar a dificuldade em saber gerir os prazeres da vida, os quais, sempre que carecem de legitimidade (produzem sofrimento a terceiros ou autodestruição ao próprio) ou não são adequados (subvertem uma ordem saudável de prioridades) se tornam verdadeiros obstáculos a uma vida harmoniosa.

Estes são os que se convertem mas ficam pelo caminho porque não cumprem o propósito de Deus na sua vida (“não dão fruto com perfeição”), isto é, são como frutos intragáveis que não chegaram ao tempo da maturação.

Finalmente, a semente caída em boa terra refere-se aos que ouviram a Palavra e a acolheram, permanecendo firmes, guardando a sua mente e alma ao conservarem a Palavra num coração “honesto e bom”.

Isto é, optam por se mover num ambiente de fé, dispõem-se a enfrentar com sucesso as tentações e as tribulações; aprendem a lidar bem com as preocupações, a privação, a prosperidade e os prazeres da vida, e decidem cumprir o propósito de Deus para a sua vida.

Estes são os únicos que geraram vida dentro de si.

A fé vem por ouvir a Palavra de Deus (Romanos 10:17), mas nem todos que a ouvem creem. E nem todos os que creem criam raiz, ou seja, permanecem na fé. E nem todos os que criam raiz aprendem a lidar com as lutas e os perigos desta vida. Mas aqueles cujo coração é uma boa terra, que aprendem a depender de Deus a cada dia tendo consciência das suas fraquezas e limitações, são esses os que vão adiante, até ao fim, alcançando a vida com abundância que está proposta aos que creem (João 10:10) e a vida eterna na presença de Deus.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.

 

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