Um fundo de emergência da Cáritas, uma carta de solidariedade do Papa Leão antes mesmo de os bispos portugueses tomarem qualquer posição, um seminário transformado em quartel-general de bombeiros e Protecção Civil, um apelo a voluntários para que, neste fim-de-semana, ajudem na operação “Limpar Leiria”. Três dias depois da passagem da tempestade Kristin sobretudo pela zona centro do país, deixando um rasto de uma imensa destruição, o momento agora é de manifestar solidariedade, organizar soluções e responder a urgências.
O fundo de emergência para acorrer a situações mais prementes, de famílias com habitações danificadas, que necessitam de apoio social e logístico ou bens essenciais, foi criado pela rede Cáritas, através da Cáritas Portuguesa e da Cáritas Diocesana de Leiria. Ana Mota, presidente da Cáritas de Leiria, afirmou, depois de uma reunião com a Protecção Civil, que “a criação do Fundo de Emergência Social permitirá reforçar o apoio às famílias afectadas”.
Já a Cáritas Portuguesa mobilizou também, nesta sexta-feira, 30, um fundo de emergências nacionais, apelando a todas as pessoas que contribuam para apoiar as vítimas das tempestades desta semana. “Estamos a proceder ao levantamento de necessidades junto da nossa rede Cáritas e a promover a articulação de respostas de apoio para as Cáritas Diocesanas dos distritos afectados”, informou a instituição católica de apoio social, em comunicado.
“A situação de emergência continua a afectar várias zonas do país, com falhas no fornecimento de electricidade, água e comunicações, colocando muitas famílias e instituições em situação de vulnerabilidade”, acrescenta o documento, onde se pode aceder também aos dados para fazer donativos.
A Cáritas de Leiria está também, em colaboração com os municípios da diocese, a identificar família com necessidades. Todos os donativos recolhidos no fundo de emergência “reverterão integralmente para este fundo”, diz a instituição, que está igualmente a recolher alimentos não perecíveis, produtos de higiene, lonas, cordas e outros materiais essenciais na sede da instituição, em Leiria, entre as 9h00 e as 18h00.
Na lista de bens que podem ser doados, a Cáritas inclui arroz, massa, azeite, óleo, enlatados, leite e papas infantis, bolachas e cereais. Para a higiene, são necessários champô e sabonete, gel de banho, fraldas e toalhetes, produtos de higiene oral e feminina. Outros materiais necessários são lonas, manga plástica e cordas.
A Confederação Portuguesa do Voluntariado apela, entretanto, a todos os voluntários disponíveis “que respondam aos apelos de apoio das autoridades e das organizações que estão no terreno, nomeadamente a Câmara Municipal de Leiria e a Cáritas Diocesana de Leiria-Fátima, que estão a organizar a Operação ‘Limpar Leiria’.”
“Os impactos desta tempestade reforçam a importância de uma colaboração solidária e eficaz entre instituições e cidadãos, bem como a articulação entre entidades de voluntariado, garantindo melhor coordenação e operacionalidade no terreno”, diz o comunicado da CVP enviado ao 7MARGENS, que manifesta “a sua mais profunda solidariedade para com as famílias das vítimas, bem como com todas as populações afectadas por este fenómeno meteorológico extremo”.
Mil refeições para os socorristas

O Papa Leão XIV numa audiência em Agosto de 2025: uma carta a manifestar “pesar pelas vítimas”. Foto © Vatican Media.
O Papa Leão XIV, através do secretário de Estado Pietro Parolin, enviou, entretanto, uma mensagem ao bispo de Leiria-Fátima, José Ornelas, que é também o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa. “Ao saber das graves consequências da passagem da depressão Kristin pelo território português, que deixou um cenário particularmente devastador no centro do país, o Santo Padre deseja comunicar o seu pesar pelas pessoas que perderam a vida, unindo-se espiritualmente à dor dos respetivos familiares”, diz o texto.
A carta refere que o Papa sentiu “muito de perto a situação dos feridos, dos desalojados e de quem ficou seriamente afectado pelos enormes estragos dessa tempestade”, rezando por todos os “que se unem para os socorrer” e reconhecendo o “empenho das organizações eclesiais, sem esquecer a espontânea entreajuda de cada cidadão”. O Papa “suplica de Deus para todos o bálsamo da solidariedade e a luz da esperança cristã”, conclui o cardeal Parolin.
O bispo de Leiria-Fátima e o arcebispo de Évora foram os únicos que, até agora, divulgaram mensagens a propósito da tempestade – não houve, até agora, qualquer manifestação de solidariedade por parte do conjunto do episcopado. Aliás, decorreu em Fátima esta semana um simpósio de clero das dioceses do centro, com a participação de pouco mais de uma centena de padres. Tendo terminado na quinta-feira, os participantes também não endereçaram qualquer mensagem às vítimas da intempérie.
Francisco Senra Coelho, arcebispo de Évora, publicou uma mensagem dirigida a Alcácer do Sal, na qual coloca ao dispor da câmara municipal “todo o apoio” que seja possível “e de que possam necessitar ou vir a necessitar”. Ao mesmo tempo, promete tudo fazer para celebrar a missa no próximo domingo, às 12 horas, na Igreja de Santiago.
Expressando a sua solidariedade com as vítimas mortais e suas famílias, os feridos e “aqueles que perderam bens, memórias e meios de vida”, o bispo de Leiria afirma que, “à medida que a rede de comunicações o permite”, a diocese tem procurado “oferecer apoio concreto e presença pastoral junto das comunidades afectadas, agindo em articulação com as autoridades locais e nacionais de socorro e reparação das condições de vida das áreas atingidas”.
Referindo a recolha de bens feita através da Cáritas, o bispo de Leiria acrescenta a sua solidariedade com as outras dioceses “que enfrentam contrariedades semelhantes”, agradecendo ainda a “solidária disponibilidade das organizações que, desde a primeira hora, marcam presença ao nosso lado, como corporações de bombeiros, forças de segurança e proteção civil, e outros organismos de carácter público e social”, que constitui “um sinal muito positivo de humanidade solidária”.
O Seminário de Leiria, onde desde há tempos está também instalada a casa episcopal, foi atingido pela tempestade da madrugada de quarta-feira. Dezenas de árvores que rodeiam o edifício, sobretudo pinheiros, plantados há três, quatro e cinco décadas, tombaram perante o poder do vento e da intempérie. “Os maiores foram plantados há 50 anos”, disse ao 7MARGENS um padre que participou também na plantação dos pinheiros.
Para lá da destruição, a Diocese colocou à disposição da Protecção Civil, dos bombeiros e das autoridades policiais, as instalações do seminário, que se converteu em quartel-general dos agentes dos diferentes serviços oriundos de todo o país. Para se para se ter ideia do que ali se passa, só nesta sexta-feira, foram servidos mais de mil almoços, enquanto os parques de estacionamento estão lotados com ambulâncias e nos quartos as pessoas se vão revezando a descansar, já que o socorro não pode parar.










