Senhora do Rosário: Que batalhas há para vencer?

| 21 Mai 2024

A exposição, intitulada «Mês de Maio. Mês de Maria», que tem por curador o Prof. José Abílio Coelho, historiador, da Universidade do Minho, conta com as principais ‘apresentações’ de Nossa Senhora do Rosário, sobretudo em escultura e pintura, que se encontram dispersas por igrejas e capelas do arciprestado de Póvoa de Lanhoso. Cada uma delas é acompanhada da respetiva ficha descritiva. As obras de arte e os documentos encontram-se em exposição, durante o mês de maio, na igreja de Nossa Senhora do Amparo, na Póvoa de Lanhoso. Divulgamos o texto, da autoria do Padre Joaquim Félix, publicado no catálogo da exposição  «A Senhora do Rosário no Arciprestado Povoense».
«Somos nutridos pela grandeza, pela amplidão e pela aparente futilidade das narrativas que imprimimos uns nos outros mediante encontros e desencontros, assim como da recordação que nos impregna e nos propulsa. Apercebemo-nos que, por muito insólito que pareça, tudo está interligado e nós somos elos de uma corrente imensa que se estende até ao infinito. E as palavras, embatendo no infinito, regressam com novos rasgos de alimento espiritual.»

[Adelino Ascenso]

Basílica de Santa Maria in Aracoeli, Roma: relevo, no frontal do altar do Tempietto di Sant’Elena, com a mulher de menino nos braços, segundo a profecia da Sibila Tiburtina ao imperador Augusto, anunciando a vinda de Cristo. Fotografia © Joaquim Félix

 

Batalhas a partir do discurso de um ‘louco’

 

Terminada a visita, com esta nota sobre a Senhora do Rosário, vamos sair pela porta principal, aqui ao lado. Porta que fazia parte de um conjunto de três, embora todas elas sejam adições posteriores. Porque, se repararmos bem, ainda se nota a fachada original, que, com o passar do tempo, perdeu os mosaicos e frescos. Sim, à exceção de um mosaico, que ainda se pode contemplar no tímpano.

Enfim, desçamos por esta escadaria, que é bem mais suave que a de mármore, e nos permite apreciar a esplêndida panorâmica. Enquanto uns apontavam para as ruínas dos fóruns imperiais, com o mercado de Trajano e o Coliseu ao fundo, um jovem disse: Estas escadas estão a despertar na minha memória a passagem de um filme. Estarei a pensar bem, ou será uma associação minha? Não, não, estás a lembrar-te de uma cena extraordinária. Ainda te recordas do filme? Neste momento, estou com dificuldade em chegar ao título. Eu lembro-o, sem problema algum. Na verdade, escutai todos, trata-se de uma cena do filme «Nostalgia», do realizador russo Andrei Tarkovsky, estreado no ano de 1983. Para mim, ele continua a ser um dos mais poéticos e espirituais de toda a cinematografia. Enfim, já que o lembraste, assim que dobrarmos a esquina, para a Piazza del Campidoglio, ali em baixo, iremos rever um outro momento do filme, que se articula com esta cena por ti referida.

Descendo as escadas desde a Basílica de Santa Maria in Aracoeli para a Piazza del Campidoglio. Fotografia © Joaquim Félix

Feita a promessa, um outro jovem, espantado, atirou: Oh! sobre aquela coluna está a escultura da loba! E todos para lá dirigiram os olhos. É verdade! E, como sabeis, desde os livros de História, é o símbolo da cidade de Roma, com Rómulo e Remo a serem amamentados pela loba. Sim, sim, mas é tão pequenina, não é? Eu pensava que seria bem maior, diz um outro, surpreendido com a singeleza e as dimensões. Não sois os únicos a surpreender-vos, disse-lhes. E acrescentei: deixa-a em paz por agora; vamos para a praça. Dai primeiro uma volta, perscrutai-a bem; depois sentaremos à sombra para uns apontamentos sobre este lugar, ainda antes de vermos a tal passagem do filme de Tarkovsky.

Passados 15 minutos, todos se aproximaram do lado do Palácio Novo, voltando-se para a estátua equestre. Conta-se que, em 1536, o papa Paulo III Farnese, após a visita a Roma do imperador Carlos I, se teria envergonhado com as condições que, então, a praça ostentava e, inclusive, toda a colina do Capitolino. Para superar o aspeto desqualificado, solicitou a Michelangelo Buonarroti que organizasse a praça. Vede, por exemplo, como ela foi orientada na direção da Praça de S. Pedro, no Vaticano. Reparai no desenho gráfico do pavimento, que aparece nas moedas de 50 cêntimos da república italiana, que também adotou o euro. Além disso, desenhou também o Palácio Novo, que fica nas nossas costas, e redesenhou os Palácio dos Conservadores, que fica do outro lado, à nossa frente. Deste modo, ele conseguiu garantir a harmonia estilística de ambos os edifícios. Atualmente, nestes palácios, que por um tempo chegaram a ser residência papal, são os atuais Museus Capitolinos, que conservam uma coleção extraordinária de obras de arte do período romano, como também pinturas da renascença italiana, inclusive de Caravaggio. E, porque o não disse antes, acrescento: a escultura original da loba capitolina encontra-se nestes museus; a que está sobre a coluna é uma cópia.

Escultura: símbolo da cidade de Roma, com Rómulo e Remo a serem amamentados pela loba. Fotografia © Joaquim Félix

Concentremo-nos agora na magnífica estátua equestre, que, como a loba, é uma réplica, pois a original também se conserva no Palácio dos Conservadores. De que imperador será? É de Marco Aurélio. Pois, pois, estavas a ver pelo telemóvel… E porque alguns estão com os telemóveis ligados, vamos então ver, ou rever conforme os casos, a passagem do filme, atrás prometida para este lugar. Trata-se do ‘discurso de Domenico’. Para facilitar a visualização, se alguém não tem dados, veja pelo telemóvel do vizinho. E, por uma questão de entendimento, proponho que a vejamos com legendas em espanhol, já que não está disponível em português. Mesmo assim, vou traduzi-lo, para que melhor se possa auferir do seu discurso, que dura apenas 7 minutos e 24 segundos.

Agora, prestai atenção à tradução que, de forma livre, faço para português:

«Qual antepassado fala em mim? Não posso viver simultaneamente na minha cabeça e no meu corpo. Por isso não consigo ser uma só pessoa. Sou capaz de sentir uma infinidade de coisas ao mesmo tempo.

O verdadeiro mal do nosso tempo é que não existem mais grandes mestres. A estrada do nosso coração está coberta de sombra. É preciso escutar as vozes que parecem inúteis. É necessário que, nos cérebros ocupados por longos tubos de esgoto das paredes da escola, do asfalto e de práticas assistenciais, entre o zumbido dos insetos. É necessário encher os ouvidos e os olhos de todos nós com coisas que sejam o início de um grande sonho. Alguém tem de gritar ‘pirâmides’, vamos construir as pirâmides. Não importa se, depois, não as construímos. Há que alimentar o desejo. Temos que puxar a alma de todos os lados, como se fosse um lençol expansível até ao infinito.

Se quiserdes que o mundo avance, demos as mãos uns aos outros. Precisamos de misturar os chamados ‘saudáveis’ ​​e os chamados ‘doentes’. Hei, vós ó saudáveis! O que significa vossa saúde? Todos os olhos da humanidade estão observando a ravina em que todos estamos a cair. A liberdade nada nos aproveita se vós não tiverdes a coragem de nos olhar na cara, de comer connosco, de beber connosco, de dormir connosco! São precisamente as pessoas ditas saudáveis que trouxeram o mundo até ao limiar da catástrofe. Homem, escuta! [Há] em ti água, fogo e depois a cinza e os ossos dentro da cinza. Os ossos e a cinza!

Onde estou quando não estou na realidade e nem mesmo na minha imaginação? Faço um novo pacto com o mundo: que haja sol de noite e neve em agosto. As grandes coisas acabam. São as pequenas que duram. A sociedade deve tornar a unir-se e não permanecer assim fragmentada. Bastaria observar a natureza para entender que a vida é simples. E que é preciso voltar ao ponto em que estivemos antes, naquele ponto no qual vós tomastes a estrada errada. É necessário voltar às bases principais da vida sem poluir a água. Que raça de mundo é este se um louco vos diz que deveríeis envergonhar-vos!

Oh mãe! Oh mãe! O ar é aquela coisa leve que gira à volta da tua cabeça e se torna mais clara quando ris».

 

Oh, estas palavras levam-me sempre à compunção! Às lágrimas, quero dizer. Talvez porque, também, possuo um azulejo branco, de formato retangular, com a última frase deste discurso, manuscrita a azul, pela mão de um dos principais colaboradores de Andrei Tarkovsky neste filme, em relação ao guião e à escolha dos lugares. Refiro-me ao poeta italiano Tonino Guerra, que mo ofereceu, tal como a outros dois amigos meus, na sua casa, em Pennabilli, na província de Rimini, região da Emília-Romanha. Sim, muito perto de um dos mais antigos países do mundo, San Marino.

Depois deste discurso, de um ‘tolo’ ― como Domenico provocatoriamente se apelidou ―, estando nós com o Palazzo Senatorio, edifício sede do município de Roma, ao nosso lado, e o Palazzo dei Conservatori às nossas espaldas, gostaria de fazer uma proposta ousada. Até porque foi neste palácio assinado, a 25 de março de 1957, o Tratado que instituiu a Comunidade Económica Europeia, passando a sua aplicação a vigorar a partir 1 de janeiro de 1958. É para guerreiros resilientes. Estais dispostos a escutar os desafios? Bem, vamos ouvi-los e, de seguida, responderemos.

Palazzo dei Conservatori: neste palácio foi assinado, a 25 de março de 1957, o Tratado que instituiu a Comunidade Económica Europeia. Fotografia © Joaquim Félix

Depois de termos exaltado o teto de Santa Maria in Aracoeli, que assinala a vitória sobre os turcos otomanos na batalha de Lepanto, creio que poderíamos, sob o patrocínio de Nossa Senhora do Rosário, delinear outras batalhas. Sim, para nós, neste período da história, em mudança de época. Não, não é para nos atirarmos contra os islâmicos, nem tão-pouco tentar atingi-los na Turquia. Hoje, em muitas povoações da Turquia, seguramente seríamos bem recebidos. A fazer lembrar aquela história de vida, contada por Adelino Ascenso, no seu livro intitulado A mística do arado. Hum, não conhecemos essa história! Oh, sim, recordo-a rapidamente, com as palavras dele: «Os camponeses turcos estavam a merendar, no meio da vasta seara, e chamaram o peregrino que caminhava pela estrada, sob um sol escaldante, com a mochila às costas e o violino na mão. Sentei-me e aceitei a sua partilha: pão, vinho, azeitonas e malaguetas, as quais fizeram imediatamente que se me rebentassem as lágrimas e aos comensais as gargalhadas. Um encontro fraterno, que fazia com que o coração transbordasse de sintonia, mesmo sendo diferentes as culturas, as línguas e as religiões» (pág.125).

Então, quais são as batalhas em que está a pensar? Creio que, tendo presente o referido livro, poderia selecionar três, no capítulo «A descida do monte». Afinal, nós, não só real, mas também simbólica e espiritualmente, vamos fazer a descida desde Monte Capitolino. A primeira batalha seria «olhar em profundidade». Que significa isso? Concretizo com palavras dele e na sua metáfora: «O lavrador, quando pega no arado, olha para a frente. Sim, há que olhar para a frente, com esperança, mas olhar, também, mais a fundo; não só a extensão, mas também a profundidade. Escavar até às raízes da nossa identidade, localizar os sinais de alerta e interrogarmo-nos, destemidamente, tentarmos descobrir as razões pelas quais poderemos correr o risco de chegar à letargia de águas mornas. É preciso coragem. Correndo riscos e acolhê-los como sal da existência» (pág. 84).

Ui, será uma batalha muito exigente! E qual será a segunda? A segunda é esta: «o desafio da interculturalidade». Em relação a esta, sublinho um parágrafo de Adelino Ascenso: «Outro aspeto incontornável que exige muito de nós todos e que está ligado à necessidade de vencermos a tendência para o individualismo é a interculturalidade. Não há como fugir a este desafio ou fingir que ele não existe, começando pelo gigantesco fenómeno da migração dos povos e do encontro de culturas. Ou enfrentamos corajosamente este fenómeno ou procuramos, medrosamente, subterfúgios para o evitarmos. Mas se, em vez de o enfrentarmos, procuramos alhear-nos dessa realidade, viveremos num azedume cada vez mais grave, que nos faz infelizes e que transmite infelicidade aos outros. Deixamos de poder partilhar o melhor de nós mesmos» (pág. 86).

Teremos ainda disponibilidade para ouvir a terceira batalha? Bem sei que isto está a mexer connosco. Mas, como depreendereis, não posso infantilizar-vos, nem pensar em pequeno para vós. Sim, para vós, mas também para mim, porque não me autoexcluo. Eis então a terceira batalha: «espiritualidade da ousadia e do risco». Que deseja dizer com isto? Simplesmente o que escreveu Adelino Ascenso, recorrendo a um discurso do atual Papa: «Dizia o Papa Francisco, a 13 de maio de 2017, em Fátima, que ‘o rosto belo da Igreja brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre e rica no amor’. Em ordem a fortalecer a Igreja com tais características, requer-se um retorno a uma espiritualidade da coragem, da sobriedade e do risco» (pág. 89). Como admitireis, não posso continuar a citar o livro. Bom seria mesmo lê-lo na íntegra. Estou persuadido de que entenderemos melhor em que consistem estas três novas batalhas, em primeiro lugar, para nós. Aliás, sairemos, da leitura do livro, muito diferentes.

Estatua equestre de Marco Aurélio. Sobre a qual foi proferido o ‘discurso de Domenico’. Fotografia © Joaquim Félix

 

Se nos dermos as mãos, como assim persuadia Domenico, iremos despoluir a água desta sociedade de que fazemos parte. E teremos motivos para sorrir e aligeirar o ar à volta da nossa cabeça. Porque, se queremos que o mundo siga em frente, ou mudá-lo, como dizia Tina Anselmi, temos de estar lá. Estaremos lá? Oh, sim, estas três batalhas, à semelhança de outras que poderíamos enunciar, ser-nos-ão cansativas. Façamos, pois, o que está ao nosso alcance, sem cair no desinteresse. E a Senhora do Rosário, que ajudou a alcançar tantas vitórias, estará connosco.

Agora, para deglutir estes enormes desafios, convido-vos a beber, ali à frente, na fonte das águas márcias. Que nunca nos falte a sede! Repitamos até chegar a essa fonte, como o refrão de um salmo das descidas, mesmo se desprovidos do apoio de azulejos brancos, manuscritos a azul: «Oh mãe! Oh mãe! O ar é aquela coisa leve que gira à volta da tua cabeça e se torna mais clara quando ris». Todos, escusado será dizer, rebentaram em gargalhadas. E não foram precisas malaguetas!

Perspetiva sobre os Dióscoros, à entrada da Piazza del Campidoglio, no topo da escadaria. Fotografia © Joaquim Félix

 

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