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Senhores Bispos

| 23/03/2019

Senhores Bispos

by | 23 Mar 19 | Entre Margens, Últimas

Abusos sexuais na Igreja? Pedofilia? Já sabemos. A Comunicação Social anuncia, disserta, desenvolve. A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) já se pronunciou. Alguns bispos evocaram, nos seus documentos quaresmais. O assunto não morreu, o tema ressuscita a cada dia. É mais que universal. Monstruoso.

Tomando outro enfoque, centro-me na nossa concreta sociedade, em que, sem distinção de classes, a tradição, o costume, a prática de violência doméstica são hoje notícia constante. Os números cortam-me: doze mulheres assassinadas nas primeiras dez semanas do ano. Nas primeiras doze semanas, 131 suspeitos de crimes de violência doméstica por violação, lenocínio, agressão grave. Por dia, duas pessoas, homens e mulheres, detidas por violência doméstica, neste primeiro trimestre do ano. Falam os magistrados em “números negros”, a procuradora-geral da República classifica “este cenário desolador”.

Mais meios de responsabilizar, menos penas suspensas, são considerados, ganham espaço de debate. Soubemos que, em 2018,  a PSP e a GNR receberam 26.439 queixas de violência doméstica. “Mais luta e menos luto” foi frase pronunciada no Parlamento, que aprovou maior transversalidade entre ministérios para a prevenção e o combate contra a dita violência doméstica.

E tomo, assim, a liberdade de questionar a nossa respeitável Conferência Episcopal sobre o seu silêncio em face desta   realidade. Um número crescente de católicos atentos espera uma palavra, uma posição, uma proposta de ação. Espera que a nossa CEP aplique o discernimento à avaliação dos sofrimentos nas grandes cidades e nas aldeias remotas. Existe uma rede paroquial que poderá, lúcida e concretamente, atenuar estes sofrimentos. Considerando a dignidade dos mais frágeis, mais pobres, mais vulneráveis, mais dependentes. Transformando mentalidades, corrigindo conceitos de poder e submissão, debilidade e força, simplesmente cumprindo a Palavra de Jesus. Neste tempo de retirada de Quaresma e meditação sobre as desordens e desgraças da nossa condição humana, vou desfiando perguntas que se encadeiam sem parar.

O que têm comum os consultórios dos médicos e os confessionários dos padres? O corpo despido e a alma exposta? O espaço de liberdade? O desabafo? A queixa? O ouvido que escuta? A misericórdia que perdoa? Tanto quanto os médicos, os padres são ainda sabedores dos segredos de nós e dos outros? Mesmo neste ambiente de desabafo anónimo em redes sociais?

E por aí fora, sem parar, chegaríamos ao infinito da associação de ideias, no invisível das grandes perguntas, na imaginação das rotinas, na imensidão de casos e gente que ao longo de uma vida vai desfilando por nós. Na Comédia Humana a que assistimos, e em todas as classes sociais, talvez hoje exista mais infelicidade clandestina do que o sucesso que se quer afirmar, aparente.

Senhores Bispos: esperamos.

 

Leonor Xavier é escritora e jornalista e integra o movimento Nós Somos Igreja – Portugal

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