[O flagelo que não acaba (VIII)]

Sensibilidade e bom senso

| 5 Mai 2023

abusos sexuais, Marko Ivan Rupnik, Conferência Episcopal Portuguesa,

Eucaristia da jornada de oração pelas vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica, em Fátima, junto do mosaico da autoria do padre jesuíta esloveno Marko Ivan Rupnik, ele próprio acusado de abusos. Foto Agência Ecclesia/PR

 

Pessoas perfeitas? Felizmente elas não existem na vida porque isso nos faria deuses. Ninguém nasce sabendo tudo; porém, nascemos com a capacidade de aprender e aquilo que não podemos aprender ou que nos causa dúvidas podemos perguntar.

As dúvidas nem sempre são existenciais ou de tipo laboral, por assim dizer; muitas vezes são uma questão de saber se um fato e uma cor são adequados para um evento ou como nos dirigirmos a alguém ou onde ter um encontro ou uma comemoração. Questões aparentemente menores podem causar não grandes problemas, mas sim sentimentos de receio.

Há dias surpreendeu-me muito a celebração litúrgica em Fátima para pedir perdão às vítimas de abusos sexuais na Igreja. [ver 7MARGENS]

Fátima é grande e tem vários espaços para isso. O local escolhido tinha por detrás do altar um mosaico de Marko Rupnik (relembro que ainda não está afastado do ministério sacerdotal e ainda é jesuíta).

Haverá menos sensibilidade?

Os bispos não têm de saber de tudo porque são pessoas como as outras, mas, quem os assessora? Mais ainda, pedem assessoria? O senso comum costuma ser o menos comum de todos os sentidos e, algumas vezes, a sua ausência é clamorosa.

Pode ser que aqui, em Portugal, não haja vítimas de Rupnik (ou sim, mas ainda não se revelaram). De qualquer modo, a questão é que as vítimas de abusos sexuais voltaram a sentir-se desprezadas com esse gesto absurdo.

Por favor, um pouco de sensibilidade e bom senso. Não é assim tão difícil. Gestos deste tipo mostram falta de empatia, desprezo pelas vítimas, desconhecimento do mínimo necessário para gerar um clima de encontro e confiança. Alguém pensa em como é importante começar a trabalhar na construção da confiança? Vai ser muito difícil recuperá-la, mas, desde logo, gestos como este não ajudam nada.

No caso das vítimas de abuso – de qualquer tipo de abuso – a primeira coisa é reconhecer o delito porque, relembro, abusar e agredir sexualmente uma pessoa não é um erro, é um delito. Também é necessária muita humildade porque, se cada pessoa é um solo sagrado, as vítimas são particularmente terra sagrada violentada e violada. A comunicação é vital, é necessário abrir canais diretos onde uma voz acolha e gere escuta. O correio eletrónico funciona, mas para outras questões. É preciso ser sensível, paciente e estar disposto a escutar tudo aquilo que as vítimas sintam necessidade de dizer, mesmo que sejam expressões de ódio, porque precisam de romper o muro de silêncio em que têm vivido. E, sobretudo, que não intuam uma mentira porque, nesse caso, não haverá nada que fazer com a confiança.

Tudo isto, se possível, sem sinais, símbolos e imagens que evoquem algo ou alguém relacionado com os abusos, porque é muito doloroso que, enquanto algumas dioceses se perguntam o que fazer com as obras de Rupnik – a de Lourdes vai submeter uma consulta aos seus fiéis –

[ver 7MARGENS] as vítimas as continuem a ver numa celebração de pedido de perdão.

E, mais uma pequena questão: alguém fez uma leitura devido ao escasso número de fiéis presentes nessa celebração em Fátima?

Ânimo! Um pequeno esforço para pôr em prática um pouco de sensibilidade e bom senso.

 

Cristina Inogés Sanz é teóloga e integra a comissão metodológica do Sínodo dos Bispos católicos. Tradução de Júlio Martin.

 

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