Sentido de missão ou imperioso apelo ao indevido destaque

| 6 Jun 2023

redes sociais foto c pixabay (1200 x 612 px)

“Enfim, temos assistido a desfiles de formas perigosas de brincar com coisas muito sérias…” Foto © Pixabay 

(“Postar” ou viver)

Muito recentemente estava a enviar uma nota biográfica curricular resumida para facilitar a minha apresentação, pelo moderador, numas jornadas de saúde mental e dei por mim, no fim de tudo, a acrescentar “não tem redes sociais”. E, sim, fi-lo pela primeira vez num registo oficial ou que virá a ser público. Como preferirem.

Depois de ter enviado, fiquei a pensar sobre o que tinha acabado de fazer e, de facto, parece-me que foi uma espécie de vontade de contrariar a norma, para não dizer a normalidade.

Nos últimos tempos, em alguns domínios, temos assistido a descrições contraditórias de intenções que, obviamente, não passarão disso; temos assistido a detalhadas narrativas de missões que nunca foram realizadas nem poderão sê-lo, mas, para os mais distraídos, parecem aliciantes ou mesmo, diria eu, salvíficas; temos assistido a promessas ambiciosas que nunca se cumprirão; temos assistido a modos de afirmação pessoal que mais não visam do que colocar as personalidades e os egos acima de quaisquer princípios; enfim, temos assistido a desfiles de formas perigosas de brincar com coisas muito sérias… E, ainda nada tendo sido feito, continuamos a assistir a certezas reiteradas acerca do que não se sabe, mas até parece que sim, tendo em conta a assertividade com que são disseminadas entrevistas, publicações, posts.

Na verdade, o compromisso não é nem pode ser uma mão cheia de nada, disfarçada de somos tão competentes e capazes que faremos melhor do que qualquer um. Parece óbvio, mas nada é “melhor” do que vender bem uma imagem, real ou fictícia. O que se alcançar importa pouco, mas o destaque, a retribuição, a validação e o aplauso, esses são prioritários.

Num tempo em que, maioritariamente, se “posta” em vez de se viver; se apregoa em vez de se fazer; se exibe em vez de se resguardar e de, no fim, apresentar resultados; se inventa o que não se fez para se prometer o que se pretenderia que fosse feito, é mesmo difícil ser apenas autêntico e ficar na sua, acreditando que o justo reconhecimento acontecerá. Somos humanos e se o ideal é ter aquele reconhecimento como um valor acrescentado e não como uma necessidade, não deixa de custar observar recompensa dada a quem apenas devia ser oferecida uma indubitável retirada.

Vivemos numa época autopromocional. Não há dúvida. Mas, para lugares de responsabilidade, funções relevantes, tarefas que só poderiam ser rigorosas, é necessário que a ingenuidade não domine os recrutadores.

Às vezes é mesmo difícil assistir, sem nada poder fazer, a processos que evoluem numa direção indesejável apenas porque uns se aproveitam de contextos e circunstâncias para se evidenciarem e outros o permitem por serem demasiado crédulos e bem-intencionados.

De facto, as redes sociais não são o único lugar de autopromoção, embora o sejam de forma muito prevalente. Também os media divulgam o que é notícia ou os que se mostram líderes nas várias vertentes da nossa sociedade.

Os novos formatos de teletrabalho suscitaram uma série de estudos relativos às lacunas de socialização e à falta de ligamento, se assim se pode dizer, entre preocupações de vários domínios das nossas vidas. Ao mesmo tempo o recurso a meios virtuais, a necessidade de protagonismo, os medos de desaparecer exacerbaram-se enormemente.

Quem deixou de se deslocar também deixou de ter um tempo em que podia distrair-se, fosse com o que fosse – podcasts, música, conversas telefónicas com amigos ou família; deixou de separar responsabilidades e tarefas, pois passou a “encaixar” umas nas outras, como se não existissem fronteiras entre elas.

E qual o meio preferencial para compensar tudo isto? Inventar-se ainda mais. Fazer-se sobressair. Produzir-se de forma fictícia, apenas para ser aplaudido.

Claro que estes fenómenos, mesmo no retomar ao quase normal quotidiano, tiveram as suas consequências, que é como quem diz as suas heranças e os seus herdeiros.

Os que, antes, já eram discretos, tranquilos e viviam do ser, não mudaram muito a sua vida; os indiscretos, intranquilos e que já tendiam a viver das aparências, deslumbraram-se com a possibilidade de, finalmente, se destacarem, permitindo-se ser apenas forma sem conteúdo.

Quando as decisões de cada um são tomadas apenas relativamente à sua vida não profissional, ao modo como gerem a sua existência, e isso não tem consequências em funções desempenhadas face a outros, trata-se do uso da liberdade individual que escolhe fazer. Devemos ser gestores das nossas escolhas, das nossas opções. Se, com isso, não prejudicarmos quem nos rodeia, estamos apenas a definir o caminho que pretendemos percorrer.

O problema coloca-se quando a extensão desse agir exibido e balofo é feita em domínios de grande responsabilidade social ou outra. Nesse caso, na verdade, já não se trata de um tema de liberdade, mas tão só de uma questão de caráter que não é suficiente.

Ainda que sem grande esperança, este texto é uma espécie de apelo – que os enganadores parem, se calem e desistam de tentar; que os decisores ganhem capacidade de observação e excluam de responsabilidades quem inventa experiência, anuncia o que não faz, apregoa o que não sabe e se destaca, na realidade, por bem ter conseguido divulgar uma magnífica produção fictícia da sua competência.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt

 

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