“Sequência da Páscoa: uma das mais belas histórias do mundo”

| 5 Abr 2021


Os monges de Tibhrine, numa foto pouco antes de terem sido raptados e mortos, acontecimento na origem do filme Dos Homens e dos Deuses. Foto: Direitos reservados.

 

Este é o título de um brevíssimo texto de Marguerite Yourcenar, incluído na colectânea O Tempo Esse Grande Escultor. Começa assim: “Deixo por momentos ao menos as cerimónias e os ritos da mais santa das semanas cristãs e tento extrair dos textos sagrados que se lêem mas nem sempre se ouvem, na igreja, as partes que nos impressionariam se as encontrássemos em Dostoievski ou Tolstoi, ou em qualquer biografia ou reportagem de um grande homem ou de uma grande vítima. Em suma, o desenrolar de uma das mais belas histórias do mundo.”

Sem poder ir ao cinema para poder falar de um novo filme que, entretanto, tivesse estreado, porque estamos em tempo de Páscoa e porque temos ainda viva diante dos olhos a profética peregrinação do Papa Francisco ao Iraque – que não pode ser esquecida, mas sempre lembrada e posta em prática – resolvi escrever (para mim, a primeira vez neste lugar) sobre um filme profundamente pascal e actual: Dos Homens e dos Deuses (é quase pecado não ter experimentado a comoção de vê-lo). E não fui o único a fazê-lo por estes dias.

Cinco olhares sobre o filme, tantos quantas as chagas luminosas de Cristo:

  1. O filme, realizado por Xavier Beauvois, parte da história verídica do martírio de sete monges trapistas da Ordem Cisterciense da Estrita Observância, sequestrados e mortos, no Mosteiro de Tibhirine, na Argélia, em 1996. Deu também origem a um livro, prefaciado pelo Papa Francisco, que recolhe testemunhos sobre os frutos da mensagem de paz e de convivência entre o cristianismo e o islão postos em prática pelos monges.
  2. Em 27 de Janeiro de 2018, o Papa Francisco reconheceu o martírio desses monges abrindo caminho para a sua beatificação.

“Vinte anos após a sua morte, somos convidados a ser sinais de simplicidade e de misericórdia, no exercício quotidiano do dom de si, a exemplo de Cristo. Não haverá outro modo de combater o mal que tece a sua teia no nosso mundo”, referia, na altura, um texto divulgado pelo Vaticano.

Continua a ser, como pudemos ver na “teimosia” do Papa em manter a sua “arriscada” ida ao Iraque, uma necessidade maior deste mundo trazer ao de cima e à luz os pequeninos sinais de fraternidade entre todos e a alegria que essa comunhão é capaz de gerar. Também disso nos fala o filme.

  1. O filme é uma magnífica história de amor. Antes de mais, pela entrega daqueles monges a Deus na sua vida regrada e simples, nos seus trabalhos e contacto com a natureza, na sua liturgia, nas suas tensões e procura da luz que guie nos caminhos. Lembro-me bem daquela vela sempre acesa no meio da mesa e das discussões, como quem sabe que há Alguém capaz de nos levar a ultrapassar os inevitáveis conflitos. E são tantos, seja qual for a vida e a situação. Para eles, o mais difícil foi tomar a decisão de ficar ou partir quando a situação se agravou.

Mas também uma história de amor aos outros, como mostram as portas abertas do mosteiro para os monges saírem e os vizinhos entrarem, numa convivência natural e tecida de harmonia. Como devia ser.

  1. Neste olhar pascal sobressai a “última ceia”, acompanhada pela música pungente do Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky, densa e demorada em cada rosto, anunciadora do que aconteceria depois: o ataque ao mosteiro e o assassinato dos sete monges. Aqueles monges, cada um com as dúvidas e lutas interiores, viveram na carne aquela entrega que tantas vezes celebraram na mesa da Eucaristia.
  2. Em tempo pascal, este filme, litúrgico e profundamente espiritual, pode ser uma boa companhia.

“Uma das mais belas histórias do mundo termina com os reflexos de uma Presença, bastante semelhantes a nuvens que o Sol já posto ainda ilumina”, escreve ainda Yourcenar.

 

Manuel Mendes é padre católico e pároco de Esmoriz (Ovar); o texto foi inicialmente publicado na revista Mensageiro de Santo António, de Abril de 2021.

 

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