Ser cristão como experiência vital

| 27 Abr 2023

“São Paulo diz-nos que não há identidade cristã sem a experiência pessoal de encontro com Cristo.” Gravura: São Paulo Escrevendo as Epístolas, obra atribuída a Valentin de Boulogne. Museum of Fine Arts, Houston. Direitos reservados.

 

O corpus paulino – sobretudo o que inclui apenas as sete cartas autênticas – é de extrema importância para equacionarmos corretamente a identidade cristã e a natureza da Igreja. A muitos títulos, o seu conteúdo é também provocatório e crítico, se compararmos as suas propostas com a forma como o cristianismo foi sendo posteriormente concebido e vivido.

Ao ler o excelente ensaio de Tolentino Mendonça sobre o tema – Metamorfose necessária. Reler são Paulo –, mais convencido fiquei da urgência de reformarmos as estruturas cristãs e de pensarmos a identidade cristã não tanto como pertença a uma Igreja institucional, mas muito mais como experiência vital que em muito deve ultrapassar a frequência ritual ou a mera obediência hierárquica.

São Paulo diz-nos que não há identidade cristã sem a experiência pessoal de encontro com Cristo. O cristianismo é (tem de ser) o “lugar” propício a esse encontro transformador, existencialmente significativo. Ser cristão não é um processo concluído num dado momento da nossa existência, é antes um processo contínuo e inacabado de relação com Cristo e, obviamente, também de identificação com o Cristo que subsiste em cada ser humano, sobretudo nos deserdados da vida. Não há cristianismo sem experiência de amor universal, de fraternidade sem fronteiras, de comunhão irrestrita. E não se trata apenas de estabelecer comunhão com os que pertencem ao nosso “clube” (sejamos nós católicos, protestantes, evangélicos, ortodoxos…), mas sobretudo com os que a ele não pertencem, pois a visão cristã do mundo inclui necessariamente a construção de uma sociedade universal e fraterna sem qualquer tipo de fronteira.

Mas se a identidade cristã é essencialmente uma experiência mística, para que serve então a Igreja visível? Apesar de podermos (e devermos) ser cristãos no anonimato da nossa intimidade, bem como na relação com quem se cruza connosco, não deixa de ser significativa a pertença à comunidade eclesial, pois é nela que encontramos o meio propício para a realização da experiência de encontro com Cristo e com todos os seres humanos, através da experiência concreta de comunhão com aqueles que pertencem à nossa comunidade de fé. No entanto, uma Igreja que se feche sobre a própria fronteira e exclua tudo quanto está fora (autorreferencial, como diz o Papa Francisco) coloca-se fora do movimento cristão genuinamente evangélico. É por isso que os gestos de aproximação do Papa Francisco em relação a membros de outras religiões, as constantes tentativas de criação de confiança mútua entre partes desavindas, de conciliação dos opostos, através de propostas fraternas, bem como o discurso profético de defesa dos excluídos e muitas outras tomadas de posição constituem claramente atitudes que trazem de novo para o interior da instituição o evangelho que dela parece ter-se arredado. Correntes tradicionalistas veem nestes gestos do Papa uma traição ao núcleo central da fé cristã. A sua visão míope da realidade da Igreja, confinada a conceções profundamente excludentes, assenta num equívoco profundo, por meio do qual se transforma a Igreja numa seita autocentrada que rejeita toda a diferença. A reforma (ainda que tímida) que o Papa Francisco tem vindo a encetar não só não é uma traição à fé cristã como é a própria realização da missão da comunidade cristã tal como foi proposta por Jesus.

Apesar de o cristianismo ter de ser uma experiência vital (mística) de encontro com Deus através de Cristo, a Igreja enquanto organismo visível não pode ser dispensada, sob pena de se perder no esquecimento a riqueza da proposta cristã de amor e fraternidade universal. Uma visão individualista da fé não tem apoio no Novo Testamento e particularmente nas cartas de Paulo. O apóstolo dos gentios funda comunidades fraternas por onde quer que anuncie a alegria de evangelho. Tais comunidades não existem como refúgio de um mundo do qual o cristão se quer apartar; procuram antes ser ambientes onde se ensaia a experiência de comunhão fraterna. A comunidade é (ou deve ser) o ambiente propício ao encontro com Cristo, no qual se ensaia uma sociedade global fraterna onde todos tenham lugar. Deverá ser, portanto, o fermento na massa informe do mundo onde há ainda um trabalho imenso a levar por diante até que a comunidade de todos os seres humanos se humanize plenamente.

Porém, para que as comunidades cristãs possam ser isso mesmo, é necessário que se organizem de modo a proporcionar as condições fundamentais ao desenvolvimento de uma autêntica experiência cristã. E é neste ponto que é necessário proceder a urgentes reformas nas instituições eclesiais, regressando, na medida do possível, à forma organizativa das comunidades primitivas, incluindo as que transparecem nas cartas de Paulo. Como podem os cristãos aceder à experiência mística de identificação com Cristo em comunidades anónimas de grandes dimensões nas quais a participação de cada um se reduz à frequência da missa dominical? É preciso reequacionar a organização das comunidades, os rituais, a estrutura excessivamente hierarquizada… É preciso dar voz à comunidade, a cada pessoa que dela faz parte. É preciso repensar as nossas celebrações eucarísticas, promovendo a participação de cada membro tanto na preparação como no decorrer das mesmas. Como se pode proporcionar aos jovens, por exemplo, uma autêntica experiência vital se eles são meros espetadores num ritual anónimo?

O mesmo seja dito em relação aos poderes hierárquicos. As comunidades paulinas não os conheciam. As funções correspondiam a carismas, a dons que cada um tinha recebido de Deus e que a comunidade reconhecia, não eram o produto de uma ordenação formal sem qualquer reconhecimento pelas comunidades concretas. Hoje, o padre é imposto a uma comunidade (e o bispo a uma diocese), vindo de cima. Nas comunidades paulinas as funções eram reconhecidas e aceites pela comunidade, nasciam nela e dela brotavam naturalmente. Qual o modelo que queremos assumir, tendo em conta a missão da igreja descrita acima? Um modelo autoritário que determina tudo, cujos atores decorrem de um poder superior, alheio à comunidade concreta, ou, pelo contrário, um poder-serviço que provém da própria comunidade, que não toma decisões sem ter em conta o parecer da comunidade em que está inserido, que coordena as diversas ações e intervenientes, mas não condensa em si todos os carismas e todas as funções? Temos de nos perguntar, sem medo, qual o modelo de Igreja que melhor serve as suas finalidades. É que a Igreja não existe para si própria, para se autopreservar, como comunidade-refúgio por oposição ao mundo, mas como comunidade onde ensaiamos a comunhão fraterna, onde nos é permitido fazer a experiência mística de identificação com Cristo e reconhecer a presença de Cristo nos pobres, nos excluídos, nas vítimas, nos deserdados da Terra.

 

Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.

 

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