AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Porto de Pesca de Rabo de Peixe. Foto © Marco Luciano. Açores São Miguel
Porto de Pesca de Rabo de Peixe. Foto © Marco Luciano.

[Da minha varanda]

Ser cristão em Rabo de Peixe

| 08/03/2026

Chamo-me Marco Luciano. Sou pároco na Vila de Rabo de Peixe. Terra de mar bravo, de gente rija e coração grande. Aqui nada é pequeno: nem o vento, nem as ondas, nem as histórias que cada um carrega.

É nesta terra que tenho a alegria de ser pastor. E digo-o com frontalidade: este povo tem-me ensinado que o cristianismo é muito mais do que aquilo que eu julgava saber.

Quando aqui cheguei, em setembro, vinha com formação, ideias organizadas, planos pastorais bem estruturados. Pensava que vinha ensinar. Afinal, tenho sido eu o aluno. A fé não vive apenas nos livros nem nas reuniões onde se discutem estratégias e calendários. Vive nas cozinhas simples, nas conversas à porta de casa, no cais, à espera que o barco regresse. Vive no rosto de quem já sofreu muito e, mesmo assim, continua a acreditar.

E é daqui que lanço a pergunta que me inquieta: como ser cristão hoje, na Vila de Rabo de Peixe?

Há uma certa nostalgia quando se fala da Igreja. A saudade de um tempo em que as igrejas estavam cheias, as procissões eram longas e parecia haver mais certezas. Mas esse tempo passou. E talvez nunca tenha sido tão perfeito como agora se recorda.

Entretanto, a juventude afastou-se. Não porque não tenha sede de sentido. Mas porque muitas vezes não encontra uma linguagem que lhe diga alguma coisa. Vemos jovens desorientados, alguns já vencidos antes de começarem a lutar a sério. E a Igreja, por vezes, continua a falar como se todos ainda estivessem sentados nos bancos à espera de ouvir.

Há divorciados que se sentem cristãos de segunda linha. Homossexuais que acreditam em Deus, mas vivem com a sensação de que o seu lugar é sempre no fundo da sala. Pessoas que erraram, que reconstruíram a vida, que procuram sinceramente caminhar, mas que continuam a sentir que pertencem à “prateleira de baixo”.

E nós? Muitas vezes andamos ocupados com debates acesos sobre latim ou não latim, sobre detalhes litúrgicos que têm o seu valor, mas que não seguram ninguém quando a vida está a desabar. Discutimos a forma enquanto muita gente sangra por dentro.

Há momentos em que parece que estamos mais preocupados em preservar uma estética do que em salvar pessoas. Mais atentos à correção das rubricas do que à solidão de quem já perdeu a esperança. O latim pode ser belo, mas não consola uma mãe aflita nem devolve dignidade a quem se sente excluído.

Talvez o que nos falte seja coragem. Coragem de sair da sacristia. Coragem de ir pelas ruas da paróquia sem medo de nos misturarmos. Coragem de sentar-me no café e ouvir histórias sem começar logo a responder com normas. Coragem de olhar um jovem nos olhos e perguntar, com verdade: “O que é que te dói?”

O mar ensina-me muito. Nunca está parado. Há dias de bonança e dias de tempestade. Mas continua sempre ali, profundo e fiel. A fé também não pode ser água estagnada, fechada em recipientes bem arrumados. Tem de ser viva. Tem de ter movimento. Tem de saber atravessar a tempestade.

Não quero uma Igreja confortável nos seus espaços fechados enquanto a rua se afasta. Não quero uma Igreja especialista em passado e tímida perante o presente. Quero uma Igreja que arrisque amar agora, com as pessoas concretas que tem à frente.

Sou feliz por ser pastor deste povo. Eles ensinaram-me que o cristianismo não é uma teoria impecável. É vida real. É luta diária. É recomeço depois da queda. É esperança que insiste mesmo quando tudo parece perdido.

E termino com um convite simples.

Marco Luciano, pároco na Vila de Rabo de Peixe. Foto: Direitos reservados.

Marco Luciano, pároco na Vila de Rabo de Peixe. Foto: Direitos reservados.

Venham à “minha varanda”. Fica em frente à igreja, com vista para o cais. Ali, entre o som do mar e as vozes da vila, não há perguntas proibidas nem pessoas de segunda categoria. Ali cabem as dúvidas, as revoltas, as falhas e as alegrias.

Talvez seja ali, de frente para o mar, que possamos reaprender juntos o essencial: ser cristão hoje é ter coragem de amar pessoas reais, com histórias reais, aqui e agora.

Marco Luciano é padre católico e pároco de Rabo de Peixe (São Miguel, Açores).

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Arquidiocese no Missouri leva práticas do ICE a tribunal

EUA

Arquidiocese no Missouri leva práticas do ICE a tribunal novidade

A arquidiocese de St. Louis, no Missouri (EUA), intentou uma ação contra o Governo federal por ver os seus padres impedidos de distribuir a comunhão e ouvir em confissão os detidos pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, no acrónimo em inglês) internados no Centro de Detenção do Condado de Ste. Genevieve.

“Depressa passas de bestial a besta”

[Lugar (in)comum]

“Depressa passas de bestial a besta” novidade

“Na era dos ecrãs e da comunicação imediata, construímos expectativas irrealistas, esperando infalibilidade de quem está sob o holofote. Chega a ser irónica a facilidade com que se eleva alguém a um estatuto quase divino para em seguida lhe ser exigido um comportamento humanamente irrepreensível.” [Texto de Júlia Costa]

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber

[Entre Margens]

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber novidade

Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo. [Texto de Rúben Azevedo].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This