Reflexão baseada no texto do Evangelho de S. Lucas 15:11-32.
Lucas conta-nos que a parábola do Filho Pródigo, dita por Jesus. Está integrada num conjunto de três estórias, para ilustrar a situação dos religiosos judeus, que estavam espiritualmente perdidos (caso da ovelha e da dracma) e longe de Deus (caso do filho pródigo).
Esta estória ensina-nos algumas verdades importantes:
1. É possível estar na família e não a valorizar
“E disse: Um certo homem tinha dois filhos. E o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me pertence. E ele repartiu por eles a fazenda. E, poucos dias depois, o filho mais novo, ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente” (11-13). Este filho tinha uma família, mas não a valorizava… Foi ele que se afastou da família pelo seu pé. Ninguém o mandou embora. Na sua imaturidade achava que o Pai não lhe dava a liberdade que ansiava e merecia. Queria ser independente. Há quem se desvie do caminho da fé porque não valoriza a sua família espiritual.
2. A fome espiritual chega sempre que se está longe de casa
“E, havendo ele gastado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a padecer necessidades” (14). Pródigo quer dizer “extravagante” ou gastador (dinheiro, saúde, tempo). Quando se perdem os valores vem a fome espiritual, mais cedo ou mais tarde.
3. O sistema deste mundo só tem impureza e degradação para oferecer
“E foi, e chegou-se a um dos cidadãos daquela terra, o qual o mandou para os seus campos, a apascentar porcos. E desejava encher o seu estômago com as bolotas que os porcos comiam, e ninguém lhe dava nada” (15,16). Quando estamos longe de casa acabamos a servir estranhos. Só quando bateu no fundo é que percebeu o erro grosseiro que tinha cometido. Foi preciso comer pior do que um porco, cheirar como um porco e viver no meio dos porcos, os animais mais impuros para os judeus.
Mas na casa do Pai havia abundância: “E, tornando em si, disse: Quantos empregados de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome!” (17). Subsistia uma esperança.

Andrea Mantegna (1431–1506), pormenor do retábulo de São Lucas, Pinacoteca di Brera, Milão. Foto @ Miguel Hermoso Cuesta | Wikimedia commons
4. O arrependimento é a chave da restauração.
“Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti.” (18). Sem arrependimento não há restauração. E o arrependimento vê-se pelos frutos de mudança (na atitude, na palavra e no pensamento) e não apenas por palavras.
5. Este filho, estando longe da família, no fundo acreditava que se regressasse seria aceite em casa.
“Já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus empregados” (19). Mas ele acabou por ser acolhido pelo Pai como não esperava: “E, levantando-se, foi para seu pai; e, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou” (20). Ele esperava apenas tolerância e não verdadeira compaixão.
6. Todos ficaram surpreendidos pela Graça que o Pai demonstrou.
“Mas o pai disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa; e vesti-lho, e ponde-lhe um anel na mão, e sandálias nos pés. E trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos, e alegremo-nos. Porque este meu filho estava morto, e reviveu, tinha-se perdido, e foi achado. E começaram a alegrar-se” (22-24). Numa sociedade patriarcal o filho mais novo pedir a herança ao pai e abandonar a família, era uma atitude altamente ofensiva! Por isso perdeu a dignidade de filho! Daí ser imperativo o arrependimento. Como diz S. Paulo, a Graça de Deus é sempre surpreendente: “onde o pecado abundou, superabundou a graça” (Romanos 5:20).
Então, quem tem uma família espiritual não a deve menosprezar, como fez aquele filho. Pode vir a arrepender-se. Valorize a sua comunidade de fé.
A fome espiritual chega sempre que se está longe de casa, porque este mundo só tem impureza e degradação para oferecer. Sem Deus nada faz sentido.
Não nos iludamos. Sem arrependimento não há restauração.
Embora no fundo este filho acreditasse que não seria posto fora se regressasse a casa, nunca pensou ser recebido pelo Pai com perdão e tanto amor. Ele esperava tolerância e não compaixão.
José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.
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