Ser feliz: um direito e um dever… com Manuela Silva

| 14 Out 19 | Entre Margens, Últimas

A Manuela Silva partiu para Deus. Deixou-nos no dia 7 deste mês. No dizer do poeta e com isso mostraste-nos, Senhor,/a beleza do teu Nome no rosto da nossa irmã/ que ao nosso olhar deixou de ser visível”.

De certa maneira à procura da sua voz, retomo a leitura da sua obra mais recente: Resiliência Criatividade Beleza, livro publicado em 2018, que reúne o conjunto dos escritos mensais que, entre Janeiro de 2014 e Julho de 2018, a Manuela foi publicando no site da Fundação Betânia e replicados no blogue “Ouvido do Vento”.

Escolho ao acaso o texto “Ser feliz: um direito e um dever”.

Já quase tudo foi dito sobre a vida e a personalidade da Manuela. Esta reflexão não pretende acrescentar nada de novo, mas tão só testemunhar, por quem com ela privou de muito perto, esta faceta que lhe era tão presente e tão querida da Felicidade de Viver.

Para a Manuela, viver era sinónimo de ser feliz. A sua frase, muito provavelmente a última que proferiu na vida terrena, já por diversas vezes citada é certamente um dos seus testemunhos mais fortes: “Digam aos meus amigos que gostei muito de viver”.

Gostar de viver era, para a Manuela, viver em felicidade, sempre acreditando no melhor de amanhã e sempre afirmando a Esperança, profundamente cristã e alicerçada humanamente, na construção de um mundo melhor, mais justo e mais fraterno. No texto a que me refiro a Manuela diz: “Quando vivemos num mundo marcado por profunda e duradoura crise exterior, como sucede no mundo actual e, de modo particular no nosso País, o nosso olhar sobre a realidade e sobre nós próprios tende a tornar-se inseguro e sombrio … Reconhecê-lo constitui um primeiro passo para poder superar esta dupla ameaça e não desistir de procurar e felicidade.

Para a Manuela, “a felicidade porém é também uma construção da nossa personalidade e do nosso modo de vida … a felicidade autoalimenta-se de dizermos sim à vida, tal como esta se apresenta …”.

E como sempre a Manuela não se ficava pela teoria da reflexão. Explicava sempre, como no entender dela, se passava à prática: “Trata-se afinal, de pôr em prática a sabedoria evangélica de unir o amor a Deus com o amor ao próximo como fundamento seguro da felicidade.”

A sua figura fisicamente franzina, mesmo nos últimos tempos muito afectada pela doença que a viria a vitimar, sempre apresentou um rosto sorridente e pleno de optimismo. A Manuela poupava aos seus amigos a faceta negativa da sua doença. Quando a visitava ou ouvia a sua voz pelo telefone, ficava sempre com a impressão que a sua força seria inesgotável.

Foi assim que a Manuela viveu e irradiou a vida junto dos que com ela tiveram o privilégio de privar mais frequentemente ou mais episodicamente.

Termino com mais uma frase sua que bem revela o seu programa de vida: “É no silêncio e pela meditação regular, mais do que através de qualquer outra mediação, que aprenderemos a amar-nos, a olhar com lucidez o nosso lugar no mundo e a encontrar a energia necessária para agir em consequência e por esta via construir a nossa autoestima e felicidade.”

Peçamos a Deus que nos dê a capacidade de honrar este testemunho riquíssimo da vida da nossa amiga Manuela, agora que ela junto do Senhor intercede por todos nós.

Lisboa, 14-10-2019

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