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Ser generoso na prosperidade – um hino de virtudes

| 14/02/2021

“Na nossa condição humana somos como a tal figueira que deve gerar frutos”. (Foto: Wikimedia Commons)

 

Uma análise objectiva dos textos essenciais das sagradas escrituras das grandes religiões mundiais, mostra-nos que o fortalecimento dos aspectos positivos do carácter humano é um aspecto comum a todas elas.

Um exemplo desses textos essenciais é o Sermão da Montanha, que enunciou os princípios orientadores da vida cristã e marcou o caráter espiritual de múltiplas gerações de cristãos. O modelo de virtudes ali descrito foi referido por centenas de sábios cristãos, entre os quais Santo Agostinho que afirmou: “Se alguém considerar pia e sobriamente o sermão que nosso Senhor Jesus Cristo proferiu na montanha, conforme lido no Evangelho de Mateus, creio que encontrará nele, no que diz respeito aos mais elevados valores morais, um padrão perfeito da vida cristã.”

Nas Escrituras Bahá’ís também podemos encontrar vários textos que descrevem o modelo de vida dos crentes. O mais conhecido é uma epístola de Bahá’u’lláh dirigida a um dos Seus filhos, onde o fundador da Fé Bahá’í usa uma linguagem espiritualmente intensa e profundamente poética, para nos apresentar um código de conduta moral universal:

Sê generoso na prosperidade e grato no infortúnio.

Sê digno da confiança do teu próximo e dirige-lhe um olhar afectuoso e acolhedor.

Sê um tesouro para o pobre, uma advertência para o rico, uma resposta ao pranto do necessitado, e preserva a santidade das tuas promessas.

Sê recto no teu julgamento e comedido nas tuas palavras. Com ninguém sejas injusto e a todos mostra brandura.

Sê como uma lâmpada para os que caminham nas trevas, um consolo para o triste, um mar para o sedento, um refúgio para o abatido, um sustentáculo e defensor da vítima da opressão. Que a integridade e a rectidão marquem todos os teus actos.

Sê um lar para o forasteiro, um bálsamo para o sofredor, fortaleza para o fugitivo.

Sê os olhos para os cegos e farol para os pés dos que se perdem.

Sê um adorno na face da verdade; uma coroa na fronte da fidelidade; um pilar no templo da rectidão; um sopro de vida no corpo da humanidade; um estandarte das hostes da justiça; uma estrela sobre o horizonte da virtude; uma gota de orvalho no solo do coração humano; uma arca no oceano do conhecimento; um sol no céu da generosidade; uma joia no diadema da sabedoria; uma luz radiante no firmamento da tua geração; um fruto na árvore da humanidade.

Tal como o Sermão da Montanha, encontramos aqui um apelo fortíssimo a uma vida com um propósito positivo, de serviço ao próximo, um encorajamento para que cada um de nós a ser diferente pela positiva. Vemos neste texto um hino às virtudes que permitem ao ser humano ultrapassar a mundanidade e o materialismo – é um a código de conduta moral enunciado numa forma poética e profundamente apelativa.

Na nossa condição humana somos como a tal figueira que deve gerar frutos (Mateus 21:18-22) na forma de um carácter generoso, inspirado pelos ensinamentos divinos. Se não formos capazes de gerar esses frutos, para que servem as nossas vidas?

Não tenho dúvidas de que quem aprecia o Sermão da Montanha, saberá certamente apreciar o encanto deste e de outros excertos das Escrituras Bahá’ís. O padrão de valores espirituais comuns a estes dois textos é um indicador de uma identidade espiritual que transcende crenças religiosas e convicções particulares. E é a afirmação desta identidade espiritual comum que um dia nos permitirá ver a Terra como um só país e a humanidade como os seus cidadãos.

 

Marco Oliveira é membro da Comunidade Bahá’í de Portugal

 

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