Testemunho de adolescente ucraniano

Ser jovem num país em guerra, gelado e minado

| 11 Dez 2023

Habriel, jovem ucraniano atingido por mina. Foto UNICEF

Habriel, 17 anos, foi vítima da explosão de uma mina e partilha a sua história para que outras crianças e jovens não passem pelo mesmo. Foto © UNICEF

 

O que dizem os olhos de Habriel? É difícil traduzir por palavras, mas neles há um misto de sofrimento, desilusão, medo e – porque ainda só tem 17 anos – alguma esperança. Uma equipa da UNICEF conversa com ele junto à paragem de autocarros no centro de Izium (Ucrânia) onde, em fevereiro deste ano, sobreviveu à explosão de uma mina. Ele e mais seis amigos. Hoje, Habriel já não subestima o perigo que representam as minas e outros resíduos explosivos de guerra, mas muitas crianças e adolescentes sim. E porque no inverno o perigo é ainda maior, une-se agora ao trabalho de sensibilização da UNICEF e partilha a sua história.

Era precisamente ali, junto àquela paragem de autocarros, que Habriel se encontrava na “terrível noite de inverno” que jamais esquecerá. Um dos amigos encontrou no chão uma mina de “pétalas” e quis mostrá-la ao grupo. De repente, a mina explodiu-lhe nas mãos e os primeiros momentos após a explosão foram os mais assustadores. O adolescente recorda a surdez, a sensação de desorientação e o medo pelo que teria acontecido aos amigos. Depois de “um clarão branco”, viu-os a eles, feridos, deitados no meio da estrada, projetados pela onda de choque. Apesar de ele próprio ter as pernas perfuradas por estilhaços, conseguiu carregar as raparigas até outra paragem e colocá-las num banco. Foi aí que tentou ligar para a mãe, mas descobriu que também o telefone tinha um estilhaço. “Se não fosse pelo telefone, o fragmento ter-me-ia atingido no estômago”, afirma.

Alguém terá chamado ajuda e pouco tempo depois chegaram as ambulâncias que levaram Habriel e os amigos ao hospital de Kharviv., a cerca de 100 km. Perceberam então a sorte que tinham tido, no meio de todo o azar. É que, apesar de ser muito pequena, a chamada mina de “pétalas” é mortal. “Quebra-se em vários pedaços. Com o impacto, queima a pele e arde. Uma das raparigas que levou com um fragmento no pescoço teve ferimentos graves – a artéria carótida poderia ter sido perfurada”, explica o jovem.

 

Restos de explosivos em quase 30% do território

Sinal de alerta para a possível presença de minas em região da Ucrânia. Foto UNICEF

Aproximadamente 30 por cento do território da Ucrânia está potencialmente contaminado com minas ou restos de explosivos, mas uma grande área está ainda por sinalizar. Foto © UNICEF

 

A história de Habriel não é única. No meio da guerra em curso, a Ucrânia é hoje um dos países mais contaminados por minas do mundo, alerta a UNICEF. Após mais de nove anos de combates no leste do país e quase dois anos depois do início da guerra em grande escala – que eclodiu a 24 de fevereiro de 2022 – aproximadamente 30 por cento do território da Ucrânia está potencialmente contaminado com minas ou restos de explosivos. Segundo dados da Missão de Monitorização dos Direitos Humanos da ONU na Ucrânia, só entre 24 de fevereiro de 2022 e 19 de novembro de 2023, as minas e outros dispositivos explosivos vitimaram 116 crianças e jovens (91 ficaram feridas e 25 morreram).

A maioria das vítimas infantis ocorre quando as crianças confundem itens explosivos, como granadas de mão e fusíveis, com brinquedos. Mas no inverno, com os artefactos explosivos escondidos na neve, em lagos e reservatórios congelados, e com a falta de iluminação nas ruas, os riscos não são menores. É por isso que a UNICEF está a dinamizar, em colaboração com o Serviço de Emergência do Estado (SES) e o Ministério da Administração Interna (MIA), uma campanha de promoção da segurança infanto-juvenil neste inverno.

No âmbito desta campanha, foram criadas 15 salas de aula móveis de segurança com equipamentos especiais para ministrar aulas em diferentes regiões da Ucrânia. Nestas aulas, representantes do Serviço de Emergência do Estado e da Polícia Nacional utilizam ferramentas e formatos interactivos desenvolvidos pela UNICEF para apresentar às crianças temas vitais como segurança contra minas, incêndios e segurança cibernética, entre outros. A organização oferece também um curso online para professores sobre como ensinar a segurança em regiões minadas às crianças de diferentes faixas etárias, e há muitos outros materiais disponíveis para download no site All About Mine Safety.

Habriel à porta da casa que ele e a mãe alugaram em Izium. Foto UNICEF

Habriel à porta da casa que ele e a mãe alugaram em Izium, depois de a sua ter sido destruída num bombardeamento. Foto © UNICEF

 

Habriel, que vive sozinho com a mãe Kateryna numa casa alugada, depois de a deles ter sido destruída num bombardeamento, faz questão de partilhar a sua história para que nenhum outro jovem ou criança tenha de passar pelo mesmo.

Com o inverno gelado a aproximar-se, nas últimas semanas tem reunido lenha para se preparar para possíveis apagões e alimentar o pequeno fogão que têm para se aquecer. Mas já sabe que, sempre que sai em busca de lenha, existe o risco de perigo. Embora esteja sempre atento às placas que alertam sobre minas, elas nem sempre existem, pois o levantamento da área ainda está em curso e levará muito tempo até ficar concluído.

“As minas podem estar em toda a parte. As florestas e as estradas estão minadas”, reconhece. O melhor mesmo “é não ir a lugares desconhecidos”, aconselha. Porque a verdade, lamenta, é que “mesmo em áreas familiares, temos medo de dar um passo para a esquerda ou para a direita”.

 

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