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Ser pai no inverno da Estónia

Tallinn à noite. Estónia

Tallinn à noite, fotografia de Fevereiro de 2013. Foto © Mb-world | Wikimedia Commons.

 

Estou a viver na Estónia há oito anos e fui pai recentemente.

Vim para aqui estudar e, como acontece a muitos outros portugueses espalhados por esse mundo, apaixonei-me por uma mulher deste país, arranjei trabalho, casei e o mais recente capítulo da minha história é o nascimento do meu filho, no mês de dezembro de 2021.

Quando eu menciono o mês de dezembro na Estónia, o que as pessoas geralmente pensam é que é frio e tem muita neve. E é! Quando fui levar a minha mulher ao hospital, foi a primeira vez que guiei com neve a sério, por isso estava um pouco assustado. O hospital fica a cinco minutos da nossa casa, por isso a aventura foi curta.

Durante todo o período de gravidez e no dia do parto em si, tive que me habituar a padrões sociais e culturais diferentes. Falar em russo e estoniano é possível a um nível fraco, mas consigo-me desenrascar. E claro, o contexto aqui também é de pandemia, portanto a qualquer altura eu sabia que podia ficar de fora da ala de partos da maternidade. Apesar de todas as dúvidas, pude estar lá e apoiar no pouco que podia, mas infelizmente não pude ficar lá num quarto privado ou visitar a minha família nos quartos partilhados. Eles saíram dois dias depois, portanto não foi assim tão mau. Todos os serviços de apoio são públicos e a equipa que tratou da minha mulher foi fenomenal. Quando os fui buscar, a temperatura era de -18 Cº e acho que nunca conduzi tão cuidadosamente na minha vida.

Agora tenho de me preparar para os próximos passos. Sempre foi a minha intenção usufruir da licença de paternidade quase total. Na Estónia, este tempo total 475 dias, a dividir entre a mãe e o pai. Só no primeiro mês é que o pai pode ficar em casa com a mãe e a criança. Metendo o período de Natal e Ano novo, estive um pouco mais de um mês sem trabalhar. Quanto ao período de quase ano e meio sem trabalhar, ainda não começou para mim, a mãe tem sempre que usar os primeiros dois meses. Toda a matemática é um pouco confusa se fizermos tudo de papel e lápis, mas tudo fica facilitado quando usamos os serviços digitais do estado para fazer as declarações. Tudo aparece discriminado, quanto vamos receber, quando temos de voltar a trabalhar. Resumindo, tenho que trabalhar de Janeiro a Abril. Depois só tenho de voltar ao trabalho no verão de 2023. Durante este período espero ter oportunidade de passar uma boa temporada com a minha família em Portugal, se a pandemia deixar.

Para além do agendamento das licenças de paternidade, também o registo do nome foi feito online. Estava com algum temor que o nome completo fosse chumbado, porque a tradição de dois nomes próprios e dois nomes de família não é muito estoniana. O meu pedido ficou oficializado com a minha assinatura digital, a minha mulher confirmou o pedido e a partir daí foi esperar.

A minha preocupação não se justificou. Após ter feito o pedido demorou um dia até receber o certificado de nascimento em várias línguas diferentes, português incluído, para depois tratar da nacionalidade do meu filho. Devido à pandemia, pude enviar os documentos por email, mas agora tenho que esperar pela confirmação da nacionalidade portuguesa. Ainda bem, porque o consulado fica do outro lado do mar Báltico, em Helsínquia. Tallinn já não tem embaixada. Espero pacientemente que os serviços portugueses para estrangeiros sejam mais digitais para se fazerem estes processos de uma forma mais segura e eficaz. No final de tudo, o único contacto presencial com as autoridades foi para ir buscar as prendas dadas pela câmara municipal de Tallinn.

Depois deste início, estamos a habituar-nos a um novo estilo de vida, partilhando as centenas de fotos com a minha família e amigos que estão em Portugal, a 4000 km de distância. Recebemos muitos presentes, postais e fizemos montes de ligações com vídeo. Temos sorte em poder encurtar a distância com a tecnologia. Há 20 anos não era tão fácil assim. Agora só queremos que venham visitar e ver esta criança luso-estoniana.

 

Miguel Melo vive em Tallinn, na Estónia, desde 2013, onde tirou o mestrado em Relações Internacionais. Hoje trabalha como coordenador de projetos numa empresa de identidade eletrónica e assinaturas digitais. É casado e pai de um filho.

 

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