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À Margem

Ser subversivo, hoje, é buscar ativamente a paz

| 18/12/2025

Com a Europa a ser empurrada e, porventura, a deixar-se arrastar para a guerra, serão sempre poucos os esforços e os gestos que travem esse caminho e se orientem no sentido da justiça e da paz.

Nestes dias que os cristãos e os judeus celebram a Luz que brilhou (Natal e Hanukah) e, de muitos modos, continua a brilhar no meio das trevas, é oportuno revisitar acontecimentos e testemunhos do ano que agora termina, que foram marcos e sinais da busca incessante da luz.

É impossível avançar por esse caminho sem ter presentes aqueles povos que se veem esmagados por políticas de terror, destruição e genocídio e escorraçados das suas próprias terras, como tem ocorrido em Gaza, no Sudão ou na República Popular do Congo.

Tantas vezes longe dos holofotes mediáticos e abandonados por quem tem o dever de os socorrer, mesmo aí não faltam os testemunhos da resiliência, da capacidade de “esperar contra toda a esperança”.

Tenho presentes os milhões de imigrantes dos Estados Unidos da América que, na maioria dos casos, trabalham há largos anos no país, aí tendo constituído a sua vida familiar e social e pagando os seus impostos. A muitos deles se negou, anos a fio, os documentos legais que lhes permitiriam viver em tranquilidade, acompanhados por iniciativas e projetos de acolhimento e integração. Todos eles se viram, de repente, procurados como peças de caça por matilhas de mascarados, até mesmo desrespeitando o interior de igrejas, e deportados em condições humilhantes e desumanas para os seus países de origem, em resultado de uma política cruel e diabólica de Trump.

Não esqueço aqueles muitos milhares de homens e mulheres, e mesmo de crianças, oriundos de África, Médio e Extremo Oriente, que buscam desesperadamente entrar na Europa à procura de uma vida melhor. Num esforço hercúleo que ninguém vê, eles são vítimas dos traficantes de carne humana; são perseguidos pelas polícias que a União Europeia financia para não os deixar fazer a travessia; e, se vencem com vida esse campo da morte que é o Mediterrâneo, correrão doravante um risco novo, há dias aprovado: serem “exportados” pelas políticas comunitárias para centros (offshore hubs) localizados em países de fora da UE, mesmo pessoas sem ligação anterior a esses países, enfrentando detenções mais longas, e incerteza sobre o que os espera.

People rescued from the central Mediterranean wait aboard the MSF search and rescue ship, Geo Barents, for a safe port for disembarkation. Mediterranean Sea, March 2022.

Muitos migrantes, “se vencem com vida esse campo da morte que é o Mediterrâneo, correrão doravante um risco novo, há dias aprovado: serem ‘exportados’ pelas políticas comunitárias”. Foto © MSF

Quer no caso dos EUA quer da União Europeia, são numerosas as agências e os serviços nascidos para acompanhar e proteger os migrantes e exilados, os operadores de barcos para os resgatar do mar, apesar das condições cada vez mais difíceis. Pessoas que se entregam sem limite à tarefa de dar uma mão a quem só encontra o pontapé.

O crescimento de organizações da extrema-direita que já partilham o poder ou estão em vias de o conseguir, e que são exímias a converter pessoas e grupos culturalmente diferentes em bodes expiatórios constituem de forma crescente uma ameaça à convivência e ao diálogo em sociedades cada vez mais interculturais, incluindo do ponto de vista religioso. Discursos carregados de ódio e preconceito, que acicatam as tensões e fazem crescer as divisões, incluindo no parlamento e nos canais televisivos, tornam as conversas impossíveis, cada qual alcandorado no seu posto de defesa e ataque. E, desgraçadamente, não falta quem aprecie estes salvadores de pacotilha, a quem minguam as ações construtivas do bem comum e onde sobra a retórica de charlatão.

Só faltava mesmo, neste quadro, aquilo a que fomos assistindo, com a tomada de posse do atual presidente dos Estados Unidos, em 20 de janeiro: o estraçalhamento dos esforços internacionais de enfrentamento da crise climática e da preservação do planeta; a imposição de medidas económicas que subvertem o comércio internacional; as ameaças e chantagens a países que não se submetam aos ditames da Casa Branca; a interferência em processos eleitorais para fazer vingar projetos políticos homólogos; extinção súbita das ajudas a populações carenciadas, originando situações catastróficas e mesmo letais; sem esquecer o cerco que tem vindo a ser feito à Europa, bem claro na estratégia de segurança, recentemente publicada.

A complexidade da situação internacional que Trump tem ajudado a agravar, com a posição (errática) em torno da guerra desencadeada pela Rússia na Ucrânia, pressiona a Europa a repensar-se e a definir-se na sua autonomia e identidade, num clima em que os consensos se tornam também cada vez mais difíceis.

A canalização de avultados montantes para o setor da defesa, planeados para os próximos anos, coexiste com o crescendo do discurso sobre a possível inevitabilidade da guerra, como se se tratasse de algo que não supõe debate democrático e consulta popular.

Neste cenário sumariamente esboçado, a preocupação com a paz, que distinguiu a construção da Europa no pós-guerra, parece estar a sucumbir. As imagens de aviões de guerra, de mísseis mais ou menos sofisticados, de drones de combate e de inteligência artificial aplicada a fins militares, que cada vez mais perpassam os ecrãs, articulam-se com lideranças que começam ostensivamente a preparar as famílias para o dever imperioso de “oferecerem a vida dos filhos” para combates não se sabe bem porquê e por quem.

Quem, neste ressoar das botas militares, se lembra de falar da paz? Quem se atreve a apelar à construção de uma agenda de paz? De lutar para que se procure a negociação e o diálogo e se aposte neles até ao fim, como vias privilegiadas de resolver os conflitos? Quem, entre tantos comentadores e peritos, entre candidatos e líderes, analisa as possibilidades da paz e os caminhos de a explorar? Quem procura, nas políticas e práticas educativas e culturais – incluindo na esfera religiosa – educar para a convivência pacífica e para o sentido de justiça social?

Acredito que continua a haver muitos concidadãos e concidadãs, crentes ou não na ação não-violenta de Jesus, que acreditam na prioridade da paz sobre a guerra, para quem a paz é um caminho que vale a pena – e é imperioso – percorrer.

O Papa Francisco – importa neste contexto sublinhá-lo – foi construtor de paz, e o Papa Leão colocou a paz como eixo do seu pontificado, desde o primeiro dia. Francisco foi um Papa das pontes, em vez dos muros (também nesse sentido foi, de facto, um pontífice), do encontro dialogante, da escuta e da comensalidade. Poucos dias antes de morrer, enquanto estava no hospital, escreveu ao diretor do jornal Corriere della Sera falando-lhe da importância das palavras, já que, anotava ele, “elas nunca são apenas palavras: são factos que constroem ambientes humanos”. “Elas podem ligar ou dividir, servir a verdade ou servir-se dela”, acrescentou, não sem deixar um apelo:

“Devemos desarmar as palavras, para desarmar as mentes e desarmar a Terra”.

O Papa Francisco lança uma pomba no final da oração pelas vítimas da guerra que decorreu em Mossul (Iraque), em março de 2021. Foto © Vatican Media

O novo Papa começou, ainda na varanda de São Pedro, com a saudação “A paz esteja com todos vós!” e, retomando a linha de desarmar as palavras e a comunicação, tem insistido em “uma paz desarmada e desarmante”, tema que desenvolve na mensagem para o Dia Mundial da Paz, apresentada esta quinta-feira, 18 de dezembro, para o dia inaugural de 2026.

Este Dia Mundial, que já foi, noutros tempos, um dia de profetismo e de denúncia (por exemplo, da guerra colonial que Portugal alimentou em África ao longo de 13 anos), precisa hoje de ser assumido em todo o seu significado, nas comunidades cristãs e na sociedade em geral. Mas essa mensagem da paz desarmada e desarmante só faz sentido se começar por (e em) cada um, nas suas relações quotidianas, e servir para estar mais atento às necessidades e apelos dos outros, dos descartados.

Não tenhamos dúvidas: nos tempos que se aproximam, vai ser subversivo defender a paz, construir a paz, pôr em ação caminhos de paz que, como sabemos, não existe sem justiça e sem a inspiração da luz que dá vida. Não será isso o Natal?

 

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