[Debate 7M: A Igreja e os média-2]

Será a comunicação uma prioridade da Igreja?

| 22 Mai 2022

Na intervenção que foi convidado a fazer na conferência sobre os abusos sexuais de dia 10, o jornalista João Francisco Gomes teceu várias críticas ao modo como a Igreja Católica se relaciona com os média em Portugal. Depois de ter publicado esse texto na íntegra, e também tendo em conta a proximidade do Dia Mundial das Comunicações Sociais, que a Igreja Católica assinala no próximo dia 29, o 7MARGENS convidou vários jornalistas que têm acompanhado a informação religiosa com alguma regularidade a escrever um depoimento sobre o tema. A seguir, o contributo de Ângela Roque, jornalista da Rádio Renascença.

Ângela Roque: “Da teoria à prática, era fundamental que a comunicação fosse encarada como prioritária pela Igreja. Hoje mais do que nunca.” Foto © Ricardo Perna

Ângela Roque: “Da teoria à prática, era fundamental que a comunicação fosse encarada como prioritária pela Igreja. Hoje mais do que nunca.” Foto © Ricardo Perna

 

 

Na aproximação de mais um Dia Mundial das Comunicações Sociais, partilho algumas linhas de reflexão sobre o modo como a Igreja em Portugal se relaciona com os média e com os jornalistas.

Acompanho a área de Religião desde 2009, e reconheço que nestes últimos anos tem havido um esforço para melhorar a comunicação da Igreja. Eu própria, ao longo destes últimos 13 anos, já participei em diversos cursos de formação, workshops e seminários em que o tema central foi o da comunicação. Mas, verdadeiramente, o que mudou?

Muitas dioceses criaram gabinetes de comunicação – e muitos funcionam bem –, têm sites próprios e há consciência crescente da importância de se utilizarem as redes sociais e os meios digitais. Mas a situação varia muito de diocese para diocese, e há ainda um longo caminho a percorrer. Desde logo porque, em muitos casos, não se tomou consciência de que não basta ter um gabinete de comunicação, é preciso ativá-lo de forma profissional. Sem pessoas com formação – ou pelo menos com experiência na área –, que conheçam a realidade da profissão e se dediquem a tempo inteiro à função, não é possível dar resposta capaz às necessidades dos jornalistas.

Todos sabemos que o tempo do jornalismo não é o tempo da Igreja. Mas no atual contexto em que a Igreja está sob escrutínio permanente da opinião pública, há que saber manter canais abertos de comunicação com os jornalistas, ter disponibilidade para responder com clareza às questões que forem solicitadas, assegurar que há quem fale sobre os assuntos.

É certo que a Igreja sempre reconheceu a importância da comunicação em geral, e do jornalismo em particular – a celebração do Dia das Comunicações Sociais foi a única instituída pelo Concílio Vaticano II –, mas perante qualquer caso mais polémico que venha a lume, esbarramos facilmente em dificuldades. Ora, a Igreja tem de estar disposta ao contraditório. O jornalismo precisa desse contraditório para esclarecer, como é seu dever.

Os responsáveis pela comunicação das dioceses ou instituições da Igreja nem sempre têm noção da importância do seu trabalho. Um bom assessor/porta-voz/diretor de comunicação é aquele que prevê dificuldades, que entende a urgência dos jornalistas (queremos tudo para “ontem”), que fala ou arranja quem fale, sobre determinado assunto em tempo útil. Não é possível esperar horas, às vezes dias, por uma resposta. Como não é admissível que quem trata da comunicação esteja incontactável.

Melhorar o relacionamento com os média e com os jornalistas também implica “sair da bolha” e tomar consciência das dificuldades por que hoje passam os meios e os profissionais de comunicação. A crise não é uma coisa abstrata, é real.

Nos últimos anos assistiu-se a um empobrecimento das redações, com vagas sucessivas de despedimentos e/ou rescisões amigáveis. Menos jornalistas significa menos capacidade de acompanhamento e menos atenção ao que pode ser essencial, para se passar a tratar os assuntos “pela rama”.

Muitos jornais de referência deixaram de ter secções de Religião e hoje poucos são os média com profissionais dedicados a uma só área, muito menos só à de Religião. Não se estranhe, por isso, que na maioria dos casos só se fale de Igreja quando há escândalo ou polémica.

A par das dificuldades económicas e de gestão, os média e o jornalismo enfrentam hoje desafios inéditos e maiores do que nunca: num mundo globalizado, as redes sociais – onde a informação circula rapidamente e sem critério nem ética – já estão a condicionar demasiadas vezes as escolhas editoriais que se fazem e não raro estamos todos a fazer o mesmo, porque há a perceção – errada, do meu ponto de vista – de que o que “está a dar” nas redes é o que interessa às pessoas. Abordagens diferenciadoras são uma mais-valia, mas a verdade é que nem sempre as redações têm capacidade para garantir isso.

Apesar de nos últimos anos algumas destas questões terem sido alvo de reflexão também na Igreja, nomeadamente nas mensagens do Papa, na prática – falo de Portugal – parece não haver consciência deste manancial de dificuldades.

Este ano, a mensagem do Papa Francisco para o Dia das Comunicações Sociais é sobre a “escuta”, essencial no jornalismo. É “condição da boa comunicação”, sublinha o texto.

Francisco desafia-nos a “escutar com o ouvido do coração”, e diz que “para fornecer informação sólida, equilibrada e completa, é necessário ter escutado prolongadamente”. Tão pertinente, como sempre. Mas, na velocidade em que hoje trabalhamos, que tempo dedicamos à escuta? E que escuta nos é permitida?

O Papa diz que “a capacidade de escutar a sociedade é ainda mais preciosa neste tempo ferido pela longa pandemia”. A mensagem foi escrita e publicada antes da guerra na Ucrânia, ou faria certamente também referência ao conflito, que tantos desafios tem levantado a quem faz a cobertura da guerra. Francisco também fala da realidade das “migrações forçadas”, para dizer que cada pessoa tem “um nome”, e que o bom jornalismo deve mostrar os “rostos e histórias de pessoas concretas”.

Da teoria à prática, era fundamental que a comunicação fosse encarada como prioritária pela Igreja. Hoje mais do que nunca.

Os jornalistas não são “inimigos”. Escutar, como pede o Papa, implica perguntar. Que não deixemos de perguntar, escutar e dar voz aos “rostos e histórias de pessoas concretas”.

 

Ângela Roque é jornalista e editora da informação religiosa da Rádio Renascença.

Sinodalidade como interpelação às Igrejas locais e à colegialidade episcopal

Intervenção de Borges de Pinho na CEP

Sinodalidade como interpelação às Igrejas locais e à colegialidade episcopal novidade

Há quem continue a pensar que sinodalidade é mais uma “palavra de moda”, que perderá a sua relevância com o tempo. Esquece-se, porventura, que já há décadas falamos repetidamente de comunhão, corresponsabilidade e participação. Sobretudo, ignoram-se os princípios fundacionais e fundantes da Igreja e os critérios que daí decorrem para o ser cristão e a vida eclesial.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

De 1 a 31 de Julho

Helpo promove oficina de voluntariado internacional

  Encerram nesta sexta-feira, 24 de Junho, as inscrições para a Oficina de Voluntariado Internacional da Helpo, que decorre entre 1 e 3 de Julho. A iniciativa é aberta a quem se pretenda candidatar ao Programa de Voluntariado da Organização Não Governamental para...

António Vaz Pinto (1942-2022): o padre dinamizador

Jesuíta morreu aos 80 anos

António Vaz Pinto (1942-2022): o padre dinamizador

Por onde passou lançava projectos, dinamizava equipas, deixava-as a seguir para partir para outras aventuras, sempre com a mesma atitude. Poucos dias antes de completar 80 anos, no passado dia 2 de Junho, dizia na que seria a última entrevista que, se morresse daí a dias, morreria “de papo cheio”. Assim foi: o padre jesuíta António Vaz Pinto, nascido em 1942 em Arouca, 11º de 12 irmãos, morreu nesta sexta-feira, 1 de Julho, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde estava internado desde o dia 8, na sequência de um tumor pulmonar que foi diagnosticado nessa altura.

Abusos sexuais: “Senti que não acreditavam em mim”

Testemunho de uma mulher vítima

Abusos sexuais: “Senti que não acreditavam em mim”

Na conferência de imprensa da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa, que decorreu quinta-feira, 30 de junho, em Lisboa, foram lidos três testemunhos de vítimas de abusos, cujo anonimato foi mantido. Num dos casos, uma mulher de 50 anos fala do trauma que os abusos sofridos lhe deixaram e de como decidiu contar a sua história a um bispo, sentindo ainda assim que a sua versão não era plenamente aceite como verdadeira.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This