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Exposição na Brotéria

Será espera? Será esforço? Será búzio? “Rémiges Cansadas” até sábado em Lisboa

| 02/09/2024

Rémiges Cansadas, arte, Samuel Silva, Brotéria, Daniel Faria

Exposição “Rémiges Cansadas”, de Samuel Silva. Foto © António Marujo/7MARGENS

Entra-se através de uma cortina negra. Do lado de lá…

Olhamos, inquirimos o significado. Cordas, luzes, corpos suspensos, apenas entre vistos, pressentidos, mas simultaneamente ocultados. É o que se pode descrever, sob pena de estragar o efeito a quem queira ver ainda a exposição (instalação?) Rémiges Cansadas, patente no centro cultural Brotéria, dos jesuítas, em Lisboa, até ao próximo sábado. Às 11h da manhã desse dia, precisamente, uma visita guiada com o autor, Samuel Silva, será uma das últimas – e melhores – oportunidades para apreciar a mostra.

Perguntas. Perguntas que nos envolvem, perguntas que fazemos, perguntas extraídas de um poema de Daniel Faria ainda inédito, O País de Deus. Podemos imaginar ou aguardar a legenda sonora que, a espaços, nos vai inquirindo. Por exemplo esta, repetida: “Ela espera. Porque espera ainda tanto nada? Ela espera. Porque espera ainda tanto nada?”

Perguntas ou afirmações? O artista, professor auxiliar na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e membro integrado no Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade, quis expressamente que as perguntas feitas estivessem longe de uma “dimensão demasiado literária” e nem sequer aparecessem como “ilustrativas do que existe de visual”. A sua presença pretende, antes, acrescentar “uma dimensão de questionamento para lá do retiniano” e despistar a “dimensão religiosa mais literal”. Por isso as frases/perguntas são ditas quase em sussurro, quase sem entoação poética ou eloquência, explica.

Uma metáfora da espera? Do esforço? Da persistência? Alguns dos objectos remetem para essas ideias. O título é retirado de um verso de O País de Deus. Rémige, recorda o dicionário, para as penas resistentes das aves, que auxiliam a direcção do voo. “Partem tardíssimo regressarão?”, ouviremos também – mas a escuta exige a permanência, será esta outra metáfora do que (ainda e apenas) perscrutamos?

A metáfora do título, escreve o curador Álvaro Moreira, fala dessas penas de voo, “estruturas rígidas e assimétricas que garantem a propulsão, direcção e sustentação do voo das aves e cansadas como adjectivo de uma acção que perdeu vitalidade por intemperança de empenho e desencanto na ausência de resposta”.

Vamos à sinopse, citando-a da página do centro cultural Brotéria: em 1991, Daniel Faria (1971-1999), autor de Homens que São Como Lugares Mal Situados, ofereceu a um amigo um poema-objecto, com o título O País de Deus. Vinha escrito num rolo de papel de caixa registadora e começava pela dedicatória: “O País de Deus, Porto 17 de Junho de 1991, ao João Pedro, Na instituição do ministério de Leitor, Sé Catedral do Porto 14 de Julho de 1991.” Monge beneditino de Singeverga, Daniel Faria morreu prematuramente em 1999, na sequência de uma queda acidental.

 

“Eis o Outono…”

Rémiges Cansadas, arte, Samuel Silva, Brotéria, Daniel Faria

Foto © António Marujo/7MARGENS

Num excerto publicado há anos pela revista Viragem, do Metanoia – Movimento Católico de Profissionais, Daniel Faria falava do Outono: “Eis o outono/ Trazendo os homens/ Para pisar/ As folhas/ Pisar as uvas// O outono/ Para pisar/ O sol// O outono para descalçar/ As mulheres/ Para as prender/ No meio do areal// Para desprender/ As suas ladainhas:// deus do mar/ dai-nos mais ondas// deus da terra/ dai-nos mais mar”.

Ladainha talvez, esta exposição/instalação de Rémiges Cansadas. De novo a sinopse: “A conjunção desta oferta e do escrito em forma de rolo remete para as ações litúrgicas da leitura – como o acto sacralizado de ler publicamente palavras que se desenrolam e se escondem tornando-se, em simultâneo, presença e ocultação –, provenientes de uma mesma tradição bíblica que Daniel Faria parafraseia em O Livro de Ezequiel: ‘E do que estava escrito ele o abria/ Para eu comer/ Palavras enroladas como um caminho sem saída/ Um rolo violento como um cerco/ Ele mo deu a provar/ Na boca era cheio de sons iguais ao movimento/ Das fustigas/ O ruído das asas dos animais ao tocarem-se/O ruído das rodas quietas dos animais ao passar’.”

Rémiges Cansadas convoca a literatura tornando-a uma “experiência plástica”, diz ainda a sinopse. Mais ainda, ela é uma experiência que convoca os sentidos, aqui provocados pelos cabos de navios, fumo e luz, pela “atmosfera turva que potencia a ambiguidade” e ainda por “um elemento escultórico suspenso, em chumbo, cuja morfologia poderá insinuar uma cóclea – estrutura helicoidal recôndita associada ao sistema auditivo e ao equilíbrio do corpo”.

Como que um rumor que escutamos num búzio, como que um mistério que se adensa. Por isso, talvez ganhe (ainda mais) sentido também o resto do excerto de O País de Deus, antes referido, e que parece outra legenda para esta exposição:

deus das nuvens
dai-nos mais céu

deus do vento
dai-nos amarras

deus dos sinos
dai-nos silêncio

deus da razão
dai-nos gemidos

deus da alma
dai-nos ternura

deus dos punhais
dai-nos loucura

deus dos cabelos
dai-nos os rios

deus da noite
dai-nos a paz

deus da abundância
dai-nos a sede

deus do pó
dai-nos caminhos

deus do perdão
dai-nos desculpas

deus do sentir
dai-nos mais dor

deus das aves
dai-nos a sombra

deus dos barcos
dai-nos os ventos

deus dos rochedos
dai-nos as casas

deus dos búzios
dai-nos segredos

deus das sementes
dai-nos colheitas

deus das flores
dai-nos o linho

deus dos peixes
dai-nos as redes

deus do sol
dai-nos a água

deus das marés
dai-nos sossego

deus da ira
dai-nos abrigo

deus da fome
dai-nos o pão

deus do fogo
dai-nos estio

deus dos rumos
dai-nos os astros

deus das cheias
dai-nos vazios

deus das pontes
dai-nos amigos

deus dos seixos
dai-nos o barro

deus da pedra
dai-nos as margens

deus do outono
dai-nos nascentes

deus do menino
dai-nos regresso

deus do fim
dai-nos acenos

deus da morte
somos pequenos.

Rémiges Cansadas, arte, Samuel Silva, Brotéria, Daniel Faria

Foto © António Marujo/7MARGENS

Rémiges Cansadas, 2024, de Samuel Silva
Cabos náuticos, fumo, luz, chumbo, voz [excertos do poema O País de Deus (inédito). Daniel Faria, 1991]. Dimensões variáveis.
Curadoria de Álvaro Moreira
Organização – Brotéria
Rua São Pedro de Alcântara, 3 – Lisboa
Todos os dias, até sábado, 7 de Setembro, das 10h às 18h.
Entrada livre.

 

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