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À Margem_José Centeio

Será possível falar da guerra construindo a paz?

| 02/11/2023

A paz é a condição para transformar os conflitos de modo criativo e não violento. (…) A paz é um contexto para uma forma construtiva de abordar um conflito.
Johan Galtung

Como escreveu o teólogo brasileiro Erico Hammes: “A não-violência é talvez o cerne da questão, já que agredir o outro é retirar-lhe possibilidade de vida, de futuro, em proveito próprio”. Por isso, “mais do que atitudes positivas de construção da paz, há que adotar comportamentos não-violentos. A paz exige uma conversão muito grande de si mesmo”.

 

Falar da paz não é fácil. Nestes tempos conturbados e disruptivos, é bem mais fácil falar da guerra, é mais fácil tomar partido por um dos lados. Pelo menos no que toca às guerras mediaticamente interessantes, ou seja, onde haja interesses geoestratégicos em jogo, porque as muitas outras guerras e os seus mortos continuam esquecidas e condenadas ao silêncio. Há guerras mais interessantes (onde disputam interesses) do que outras. Numas guerras, os mortos são heróis ou mártires. Noutras às valas comuns do anonimato e do esquecimento. Corro o risco, consciente, de esta ser mais uma entre as muitas reflexões que se fazem em tempo de guerra. Mesmo assim, arrisco na esperança de que alguma coisa possa despertar a vossa reflexão e, sobretudo, nos leve a todos e a todas a agir.

Tentarei, em breves notas, partilhar convosco algumas ideias.

Primeira. Há que ter consciência de quem somos e como o mal que nos habita se manifesta em nós. Conscientes das nossas fragilidades estaremos porventura mais disponíveis para com humildade nos colocarmos no lugar do outro. Na verdade, pouco sabemos de como agiríamos em situações limite. Já em tempos escrevi no 7MARGENS como o perdão em situações limite pode ser olhado com desconfiança pela sociedade, condenando até quem esteja disposto a perdoar. Quando as sociedades não privilegiam o diálogo e polarizam demasiado os debates, incentivando a tomar partido, a defenderem o seu território (físico ou ideológico) têm dificuldade em perdoar e em aceitar quem o tente. E a paz necessita, senão do perdão, pelo menos da confiança. Confiar no outro é dar-lhe a possibilidade de connosco fazer caminho.

Segunda. Sabendo nós da existência do mal – tenha ele o nome de demónio, belzebu, mafarrico ou outro, ou até nomes concretos desta nossa atualidade que nos sufoca – percebe-se que a paz seja na verdade, por um lado, um bem não absoluto e, por outro, uma utopia. Não será por acaso que os Evangelistas Mateus e Lucas narram as tentações de Cristo no deserto, quiçá querendo chamar a atenção para aquilo a que estamos sujeitos, nomeadamente a tentação do poder: “Dar-Te-ei todo este poderio e a sua glória, porque me foi entregue e dou-o a quem me aprouver. Se Te prostrares diante de mim, tudo será Teu”. (Lucas, 4; 6-7). Esse mal radical, estrutural, que se entranha nas sociedades e que faz de todos nós, pelo silêncio, também cúmplices. Significa isso desistência, impotência ou resignação? Nada disso. Pelo contrário, a paz, não sendo linear, é uma construção quotidiana que começa em cada um e em cada uma de nós. A utopia é a meta que talvez nunca se atinja, porque para além de nós, mas cada passo dado, por pequeno que seja, aproxima-nos dessa meta. Reconhecer a existência do mal não significa que lhe sejamos indiferentes, mas sim perceber que a construção da paz se faz sobretudo no tempo da ausência da guerra, nesse confronto diário entre amor e desamor.

Terceira. O ódio é possivelmente das feridas que vai muito para além do período da contenda e que mais tempo demora a sarar sem a certeza de que algum dia a ferida se feche completamente. E mesmo que tal aconteça, as cicatrizes serão visíveis para várias gerações. E não pode ser ignorado quando se fala de paz. Não bastam os tratados e os acordos, é preciso cuidar das almas feridas e abandonadas na solidão da reconstrução de um futuro adiado. O ódio será por muito tempo um pequeno rastilho que a qualquer momento pode ser ateado. Como se poderá retirar esse rastilho do caminho do futuro? Não haverá soluções previamente formatadas nem tão pouco certezas no cumprimento do objetivo, mas, em nome da paz, é nosso dever tentarmos percorrer caminhos que nos aproximem dessa aspiração. Nestes tempos que vivemos, causa-me muito desconforto as manifestações que, em vez de se afirmarem pela positiva, fazem do espaço público lugar de declaração de ódio ao outro. Desejaria que nestes tempos as manifestações fossem silenciosas, sem ruído e apenas defendendo o olhar de uns e de outros sem dedos apontados. Necessitamos urgentemente de silêncio.
Como disse o padre Tony Neves no programa 7MARGENS/Antena1: “É preciso predisposição para fazer caminho com o outro”.

Quarta. A perceção que temos das guerras é-nos sobretudo dada através dos meios de comunicação social, os quais também eles são guiados por interesses. Importa adquirir uma nova consciência da paz, que seja global, quotidiana, distanciada dos interesses em jogo. É preciso teorizar, estudar, ser criativo na descoberta de novos caminhos, mas sobretudo agir. A nossa humanidade reconhece-se não nos discursos, mas nos gestos em confronto com a realidade. É urgente substituir uma cultura da violência, do individualismo, do salve-se quem puder, por uma cultura da paz. Não podemos, não devemos deixar a paz apenas na mão dos políticos e da diplomacia, até porque estes se regem por interesses que sustêm os seus Estados e não pela justiça, embora às vezes esses polos de forma enganadora se aproximem, eles nunca se tocam. Construir a paz é sobretudo fazer caminho com outros. Como dizia Mahatma Gandhi: “Não existe caminho para a paz, a paz é o caminho”. Talvez único.

Quinta. Não existe paz sem vida digna, sem dignidade. Na construção da paz, há que lutar por uma paz positiva que não seja apenas a ausência de violência direta (guerra); ausência de violência estrutural onde as desigualdades e as injustiças sociais permitem o desenvolvimento de focos de tensão; ausência da violência cultural que se traduz em comportamentos e normas que legitimam socialmente a existência da pobreza, da exclusão, do aniquilamento do outro. Como escreveu o Papa Francisco, “a guerra é um fracasso da política e da humanidade”.

Sexta. Será possível falar e discutir a guerra construindo a paz? É possível e é urgente. Aliás, o 7MARGENS tem tentado fazer esse caminho: em Guerras de irmãos, Afinal, há vizinhos em Israel e Gaza, As mães conseguirão fazer-se ouvir? Ou ainda: O que se pode aprender num dia. Falar sobre a guerra não significa alimentar ódios ou exibir a contabilidade televisiva mórbida dos mortos e da destruição. Podemos dar voz às pessoas de boa vontade de ambos os lados e ao seu sofrimento.

Sétima. Há algum tempo, li algures que na Dinamarca, desde muito cedo, as crianças são ensinadas na escola a cultivar a empatia e a resolverem os conflitos fazendo uso dela. Afinal a escola também pode (e deve) ser transmissora de valores e opções coletivas democraticamente assumidas, mesmo que não sejam as que mais desejaríamos. Como escreveu o teólogo brasileiro Erico Hammes: “A não-violência é talvez o cerne da questão, já que agredir o outro é retirar-lhe possibilidade de vida, de futuro, em proveito próprio”. Por isso, “mais do que atitudes positivas de construção da paz, há que adotar comportamentos não-violentos. A paz exige uma conversão muito grande de si mesmo”. Não existe paz sem uma estratégia para a paz que substitua a cultura de poder, domínio e aniquilamento do outro, e receio da diferença, por uma cultura de relação e de abertura ao outro, de inclusão do outro. Não sendo a paz um bem absoluto, não se pode falar dela apenas quando a guerra se impõe. Ela deve ser preocupação permanente, pois há sempre um mafarrico à espreita.

Construir a paz significa, logo à partida, reconhecer a existência do mal (desamor). Por isso mesmo, a construção da paz, mais do que uma meta, é um processo, um caminho (o caminho), um objetivo, mas nunca deixará de ser uma utopia. Esta causa deveria atravessar todas as gerações independentemente das causas próprias e deveria ser olhada e refletida de forma transversal, integrada e não de forma isolada. Respeitar a dignidade das pessoas e dos povos é porventura um dos passos mais importantes na construção da paz.

Como escreveu Albert Camus: “A paz é a única batalha que vale a pena travar”.

 

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