Cerca de 1520, Quentin Matsys, o fundador da Escola de Antuérpia e bem conhecido em Portugal pelo maravilhoso políptico das Sete Dores de Maria, do convento da Madre de Deus, pintou os Cônjuges malcasados, ao sentir que os turbilhões financeiros da venda das indulgências e o poder escandaloso das elites traziam guerras no horizonte.
O quadro mostra um homem de meia idade afogueado pela mulher bonita e mais nova, sem perceber que ela lhe roubou a bolsa. À fealdade grotesca do homem, cego pela luxúria, contrapõe-se a menina aparentemente simpática que o ludibria: mas a sua ganância também é cega pois o dinheiro que rouba vai parar às mãos de um bobo meio diabólico cujo rosto exprime uma combinação de luxúria e ganância. É a moral do quadro; o ganho não vai para o par dos malcasados mas para a própria insensatez.
No fim de contas, é a loucura que rege o mundo. Fora este o tema de O Ilusionista de Bosch e do Elogio da Loucura de Erasmo e A Nave dos Loucos de Sebastian Brant. O que a Igreja considerava pecados – luxúria e ganância – tornou-se motivo de sátira para o grande pintor humanista que oferecia um espelho em que os espectadores se podiam refletir. Deste ponto de vista, a lição moral ia muito para além da simples batota entre parceiros. Tal como nos jogos de soma zero da geopolítica, cada um dos lados pensa que está a ganhar à custa do outro, mas é um terceiro que se ri enquanto o mundo não explode.
Entram Trump e sequazes e instalaram a insensatez. O trumpismo é um Super-Brexit em que a América corta com o mundo e quer uma nova ordem política já anunciada em 2016 e mesmo desde o Tea Party. É um movimento de direita radical que consegue a fusão entre a “fuga adiante” rumo à globalização de sinal menos e a “fuga para trás”, para as fronteiras estatais, ao mesmo tempo que alimenta o negacionismo climático e promove a singularidade digital.
Todos viram, desde os anos 80, a intrusão da Natureza como ator político de primeira grandeza; vieram os avisos sobre os limites do crescimento, as exigências frustradas de desenvolvimento sustentável, as crises de poluição, as catástrofes ambientais, as pandemias e o crescimento incessante do “sistema de produção” sem levar em consideração os demais seres de que dependemos. A China tornou-se a “fábrica do mundo”. A América passou a dominar os serviços, impelida pelo surto do mundo digital e toda a parafernália de algoritmos, big data, robótica e inteligência artificial que levou Remo Bodei a escrever em 2015 que o Verbo fez-se máquina.
Entretanto, os movimentos ecológicos e sociais que continuaram a julgar a Terra preguiçosamente como cenário de parque natural, perderam as batalhas face às exigências de crescimento do PIB, alimentado pela ganância do consumo e ignorância sobre os novos agentes.
Pelo contrário, quem percebeu muito bem a intrusão do Terrestre foram as “elites revoltadas” que dominam em Washington, como em Pequim e Moscovo. Recusaram o natural e exponenciaram o digital. Dobraram as apostas e aceleraram a exploração da Terra. Drill, baby drill!. Não era a marquesa de Pompadour, a “Melanie” do rei Luís XV que dizia “Depois de nós, o dilúvio?”. Foi um duplo cinismo. Por um lado, campanhas de negação do colapso climático que sabiam estar em curso. Por outro lado, sucessivas desregulamentações da economia e sucessivas desmontagens nos equipamentos de proteção social, a deixar as populações ainda mais desamparadas perante as catástrofes que já se fizeram sentir; as epidemias devidas a cortes no USAID já começaram; e vêm aí outros desastres, como o plano da China para construir a maior barragem do mundo no Tibete, no rio Brahmaputra a gerar 60 milhões de giga watts, e um mega-desastre para a Índia.

Pelo contrário, quem percebeu muito bem a intrusão do Terrestre foram as “elites revoltadas” que dominam em Washington, como em Pequim e Moscovo. Recusaram o natural e exponenciaram o digital. Dobraram as apostas e aceleraram a exploração da Terra.
Estes três movimentos – a exploração desenfreada dos recursos da Terra, a corrida para a supremacia no digital e a negação da crise ambiental – são sintomas de uma idêntica resposta de grande parte das classes dirigentes na América e da China; é como se tivessem chegado à conclusão de que não há mais lugar comum na terra para todos e que não vale a pena fingir que a história conduz a um horizonte comum, em que “todos” possam prosperar igualmente.
Esta fuga das classes dirigentes para os “condomínios”, tem a sua expressão mais louca nos planos para colonizar Marte. E dessa fuga, de que Donald Trump é o mais destacado exemplo, somos nós que sofremos as consequências. A ausência de um mundo comum partilhável está a enlouquecer-nos e a tornar-nos idiotas.
A situação atual é ainda pior do que a dos anos 1930, um cenário com muitos mais fatores. Nos anos 30, a democracia foi ameaçada pelas massas, como escreveu Ortega y Gasset. Mas agora, diz Christopher Lasch, a democracia é ameaçada pela revolta das elites. Estas tornaram-se nómadas e globais, rejeitando os limites das nações e dos lugares. Isoladas em enclaves, abandonaram a classe média, dividiram a sociedade e atraiçoaram a ideia de democracia para todos.

“As elites tornaram-se nómadas e globais, rejeitando os limites das nações e dos lugares. Isoladas em enclaves, abandonaram a classe média, dividiram a sociedade e atraiçoaram a ideia de democracia para todos.”
O “trumpismo” assenta nestas ideias; consegue reunir a fuga adiante, em direção ao proveito económico máximo, abandonando o resto do mundo à sua própria sorte, com a fuga para trás de todo um povo, em direção ao nacionalismo MAGA, atrás de um muro. As elites ligadas a Trump prometeram “grandeza” aos que seguiam em direção ao Local-menos; e com isso, garantiram enormes benefícios aos bilionários que continuam a vender serviços ao Global-mais. Com promessas políticas deste quilate é escusado acusar os eleitores trumpistas de “não acreditarem nos factos”. Eles podem não ser idiotas mas alguém os convenceu a desconhecer a situação geopolítica.
O mundo já começara a perder o respeito pela América que intimidava as nações com o poder hegemónico do dólar, e multiplicava as guerras no Médio Oriente e à herança indo-europeia. Mas o mais revoltante é que agora, um país com tantas capacidades científicas, técnicas e culturais voltou a escolher dirigentes mentecaptos e incapazes de dirigir um “mundo livre” para os equilíbrios de que a humanidade carece com os novos poderes do Terrestre e do Digital.
Está à vista de todos que os EUA iniciaram uma experiência de isolacionismo e mesmo que o presidente venha a ser afastado mercê da 25ª Emenda da constituição americana, o atual vice-presidente Vance já deu sinais perturbadores suficientes de que manterá a coligação MAGA de nacionalistas, techno bros, conservadores assustados e fundamentalistas religiosos.
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.










