
“Nascido na França em 1915 e falecido na Tailândia em 1968, a sua vida mostra a evolução de um homem que busca desde que tem uso da razão, e que se deixa encontrar por esse Deus que buscou mesmo nos episódios mais difíceis da sua existência.” Foto: fanciscanmedia.org
Thomas Merton é considerado como um dos grandes místicos do século XX. A sua capacidade de análise da realidade não se perdeu, ficou até mais aguçada, após a sua entrada na Abadia de Getsémani como monge trapista da estrita observância.
Estamos perante um homem que, como bom místico, não perde o contacto com a realidade e não tira os seus pés nem as suas mãos da lama de qualquer fraqueza e problema humano.
Nascido na França em 1915 e falecido na Tailândia em 1968, a sua vida mostra a evolução de um homem que busca desde que tem uso da razão, e que se deixa encontrar por esse Deus que buscou mesmo nos episódios mais difíceis da sua existência.
Escritor desde muito jovem, soube captar nos seus textos a essência de todos os temas que tratava. Fossem artigos – é impossível calcular quantos escreveu e nem todos foram publicados ainda – ou livros, Merton é um companheiro de leitura fascinante e atemporal. Não é necessário colocarmo-nos no momento em que ele escreveu o que estivermos a ler; pelo contrário, a sua atemporalidade situa-nos em qualquer realidade actual.
Merton é sagaz, intuitivo, inteligente, divertido, profundo e crente com uma maneira de crer que não evita as dúvidas, os medos, as alegrias, os problemas da vida, os riscos que o viver acarreta. Incansável promotor da paz entre os povos e as religiões, os seus comentários a este respeito são proféticos e excepcionais. A sua compaixão desde a solitude para com a família humana, a sua sensibilidade ecológica e a linguagem moderna com que soube aproximar a sabedoria de tradições contemplativas milenárias à compreensão do século XX são, especialmente hoje, uma fonte de inspiração e luz em tempos de mudanças sem precedentes. E, atrever-me-ia a dizer, que poderiam ser de grande ajuda para a renovação que a vida religiosa tanto necessita.
A sua vida, antes da sua conversão ao catolicismo, daria para escrever uma série da Netflix e, contada tal como foi, é possível que muitas pessoas acreditassem que havia nela muita criatividade dos guionistas.
Após a chegada à abadia, a sua vida também não foi a que se espera de um monge trapista porque Merton é um ser paradoxal. Diria mais: o paradoxo é uma parte fundamental da sua vida. Trocava correspondência com João XXIII e com o Dalai Lama, que conheceu e com quem teve uma intensa amizade, com a mesma naturalidade com que ensinava e acompanhava os noviços da abadia.
Mas porque é que me pergunto se será que podemos gostar de Thomas Merton em Portugal? Todo o escritor tem uma obra emblemática, uma obra de muito sucesso, que costuma ser a primeira a ser traduzida para outras línguas amparada pelo seu sucesso. A partir daí, o restante da sua obra é publicado com critérios diversos e, normalmente, a cronologia da sua produção não costuma ser um deles.
Mas Thomas Merton necessita de uma ordem para se poder compreendê-lo e prova disso, é que Merton está publicado em todos os países seguindo a mesma ordem. Essa ordem começa com a tradução e edição de A Montanha dos Sete Patamares, que é a sua biografia e o primeiro livro que escreveu na Abadia. Sem este livro é impossível conhecer Merton e, sem conhecer Merton, é impossível mergulhar posteriormente na sua obra.
Após a sua biografia, publica-se Conjecturas de um Espectador Culpado. Este livro é um conjunto de reflexões pessoais, metáforas, observações, intuições e considerações sobre leituras e acontecimentos. E é, também, um conjunto de observações e meditações – poéticas e literárias – outras históricas e até teológicas, que fazem de Thomas Merton um “espectador” implicado e privilegiado com quem podemos aprender a olhar e a questionar, e que nos vai apresentando o seu pensamento.
Sem estes dois livros, Merton torna-se ininteligível, distante, sem contexto. Achei muito estranho ver poucos livros de Merton em português porque ele é uma figura necessária neste momento. Tenho a certeza de que A Montanha dos Sete Patamares seria muito bem acolhido. Não é um livro religioso em si mesmo, é um livro vital. Quando foi publicado nos Estados Unidos, em 1948, foi um sucesso editorial, chegando-se a vender seiscentos mil exemplares no primeiro ano.
Actualmente continua a ser um dos livros mais vendidos. A Montanha dos Sete Patamares é um daqueles livros que, quando se lê, nos perguntamos sempre porque razão demorámos tanto a fazê-lo…
Portugal tem bons peritos em Thomas Merton. Seria bom que se coordenassem para apresentar este autor hoje tão necessário.
Cristina Inogés Sanz é teóloga e membro do Sínodo dos Bispos por nomeação do Papa Francisco, depois de ter integrado a comissão metodológica de preparação. Autora do livro “A sinfonia feminina (incompleta) de Thomas Merton”, Edições Paulinas.









