Serão os cristãos uns inúteis?

| 11 Abr 2024

Desculpem a pergunta feita assim de chofre, logo no título. Admito que possa parecer um tanto ou quanto ofensiva para aqueles que se achem cristãos, mas desde já salvaguardo que não pretendo enxovalhar ninguém, e se acaso o fizesse teria de começar por mim própria.

Ela desenhou-se-me na mente esta quarta-feira, quando ouvia a habitual catequese do Papa Francisco (já agora: a quem não costuma ouvir –  ou ler –  seja-me permitido recomendar vivamente que o faça; se há coisa que falta no catolicismo é catequese como deve ser). Dizia o Papa, para explicar a importância da virtude da fortaleza: “O cristão sem coragem, que não inclina as próprias forças para o bem, que não incomoda ninguém, é um cristão inútil. Pensemos nisto!”.

Assumindo-me como cristã, “enfiei a carapuça”: servia-me perfeitamente… O Papa continuava: “É suficiente folhear um livro de história, ou infelizmente até os jornais, para descobrir os atos nefastos de que somos em parte vítimas e em parte protagonistas: guerras, violências, escravatura, opressão dos pobres, feridas que nunca cicatrizaram e continuam a sangrar. A virtude da fortaleza faz-nos reagir e gritar ‘não’, um ‘não’ categórico a tudo isto”.

Papa Francisco na catequese de 10 de abril. Foto Vatican Media

Papa Francisco durante a catequese de 10 de abril. Foto © Vatican Media

 

Qual foi a última vez em que gritámos “não” categoricamente perante o sofrimento de alguém? Talvez seja preciso algum tempo para pensarmos. A verdade é que, continuava o Papa, “no nosso Ocidente confortável, que diluiu um pouco tudo, transformando o caminho da perfeição num simples desenvolvimento orgânico, que não tem necessidade de lutar porque tudo lhe parece igual, às vezes sentimos uma saudável nostalgia dos profetas. Mas as pessoas importunas e visionárias são deveras raras”.

Pois são. E os inúteis… são, seremos cada vez mais?

Para quem o quer ser verdadeiramente, ser cristão é lixado. Perdoem-me o vernáculo, mas é mesmo. De que serve ir à missa ao domingo (ou até diariamente), bater no peito enquanto se profere o ato penitencial, dar umas moedas no ofertório e acender umas velinhas, se se sai da igreja e aquilo que lá dentro se experimenta não se repercute no modo de ser em família, no trabalho, na vida? Ou se ainda nem se saiu e já se está a apontar o dedo a este ou àquele? De que serve participar numa “caminhada pela vida”, envergando faixas contra o aborto e a eutanásia, se se esquecem tantas outras ameaças à dignidade humana, se se condena ou marginaliza alguém por ter uma orientação sexual diferente, se a nossa vontade é mandar os migrantes que connosco se cruzam de volta “para a terra deles”, se até votamos num partido que defende a prisão perpétua, contrariando o fundamental apelo evangélico à misericórdia? De que serve receber o batismo, a comunhão, a confirmação, se não há um compromisso verdadeiro em aliviar o sofrimento daqueles a quem se chamam “irmãos”? Podia continuar, mas acho que já exemplifiquei suficientemente onde quero chegar: não serve para nada. É inútil.

Escrevo isto naquele que é o 12º dia do tempo pascal para os cristãos. Passou uma semana e meia desde aquele domingo em que tantos “no nosso Ocidente confortável” inundaram as redes sociais de desejos de “Feliz Páscoa” e comeram alegremente folares e amêndoas de chocolate (eu incluída, que já admiti que sou gulosa). E o que celebraram os cristãos? Ou melhor: o que estão ainda a celebrar, neste tempo pascal que dura 50 dias, até ao Pentecostes? A ressurreição de Jesus, obviamente.

Mas porque morreu ele? É assim tão óbvio? Jesus morreu porque “não lhe importava quebrar a lei do sábado nem as tradições religiosas, só lhe preocupava aliviar o sofrimento das pessoas doentes e desnutridas da Galileia. Não o perdoaram. Identificava-se demasiado com as vítimas inocentes do Império e com os esquecidos pela religião do Templo. Executado sem piedade numa cruz, Nele se nos revela agora Deus, identificado para sempre com todas as vítimas inocentes da história”. A resposta é do teólogo católico espanhol José Antonio Pagola, autor do importante livro Jesus: Uma Abordagem Histórica [ver entrevista ao autor, sobre o livro, no 7MARGENS].

Não será este Deus, assim revelado por Jesus, muito diferente da imagem que antes se fazia dele (e que talvez alguns, demasiados, continuem a fazer hoje)? Pagola sublinha: é um Deus que “coloca em questão toda a prática religiosa que pretenda dar-lhe culto esquecendo o drama de um mundo onde se continua a crucificar os mais débeis e indefesos”. E se Deus morreu identificado com as vítimas, então a crucificação de Jesus transforma-se num desafio inquietante para os seus seguidores, pois “não podemos separar Deus do sofrimento dos inocentes. Não podemos adorar o Crucificado e viver de costas para o sofrimento de tantos seres humanos destruídos pela fome, pelas guerras ou pela miséria”, conclui o teólogo.

Crucificação. Jesus entre os dois ladrões

Jesus na cruz entre os dois ladrões (1619-1620). Rubens, Museu Real de Belas Artes de Antuérpia, Bélgica. “Não será este Deus, assim revelado por Jesus, muito diferente da imagem que antes faziam dele?”

É lixado… Sim, Jesus ressuscitou, mas um cristão, uma cristã não pode deixar de se sentir interpelado pelos crucificados dos nossos dias. E se este é o12º dia do tempo pascal, também é o 778º dia da guerra na Ucrânia, o 188º dia da guerra em Gaza, e o dia X ou Y de guerra na Síria, no Iémen e em tantos outros lugares esquecidos pelo mundo, cuja duração os média já nem se dão ao trabalho de contabilizar.

Sim, Jesus ressuscitou, aleluia, proclamam os cristãos; mas para que não se tornem inúteis, estes têm de continuar a contemplar o seu rosto na cruz. “Se olharmos mais detidamente, depressa descobrimos nesse rosto o de tantos outros crucificados que, longe ou perto de nós, estão a reclamar o nosso amor solidário e compassivo”, prossegue José Antonio Pagola. E, na mesma linha do Papa na sua catequese desta quarta-feira, o teólogo espanhol deixa o alerta: “Não podemos encerrar-nos na nossa ‘sociedade de bem-estar’, ignorando essa outra ‘sociedade do mal-estar’ em que milhões de seres humanos nascem só para se extinguir aos poucos anos de uma vida que só foi de sofrimento”.

O escritor e tradutor da Bíblia Frederico Lourenço traduziu a partir do grego não apenas os quatro evangelhos canónicos, mas também os evangelhos apócrifos. Numa entrevista a propósito do lançamento destes últimos, o classicista assinalava que, embora haja algumas diferenças e divergências no modo como Jesus é visto por cada um dos evangelistas, “há um denominador comum: todos eles dizem que Jesus foi alguém que veio pregar o evangelho do amor. Isso é comum e transversal a todos os textos antigos. O que me leva a pensar que, se todos estão de acordo nessa questão, ela foi a questão fundamental. Aquilo que ele veio dizer foi o amor”.

Na mesma entrevista, e apesar de reconhecer que não sabe “qual é o caminho certo para Deus”, Frederico Lourenço diz não ter “dúvida nenhuma” de que “as palavras de Jesus, a mensagem dele, são a coisa mais importante da história da humanidade e dão-nos a possibilidade, se as puséssemos em prática, de resolvermos os problemas da própria humanidade”. Mas “teríamos todos de as por em prática”, sublinha, não apenas os cristãos, não apenas os crentes: “Tem de ser a humanidade toda a pôr aquelas palavras em prática”, reitera.

Seremos inúteis – cristãos, judeus, muçulmanos, budistas, agnósticos, ateus, alargando o olhar – sempre que não pusermos este amor em prática. O amor que, mais do que um sentimento, é uma escolha que temos de fazer a cada momento.

Precisamos de “sair do lugar macio onde nos estabelecemos” e “repetir resolutamente o nosso ‘não’ ao mal e a tudo aquilo que conduz à indiferença. ‘Não’ ao mal, ‘não’ à indiferença; ‘sim’ ao caminho, ao caminho que nos leva a progredir, e pelo qual devemos lutar”, concluía o Papa.

Não sejamos inúteis para os crucificados de hoje. Para que eles não tenham de dizer, como Jesus, “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Ou pior: “Pai, perdoa-lhes… porque não fazem nada”.

 

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