Cinema

“Pathos Ethos Logos”: Seremos salvos?

| 23 Nov 21

“Nem o anjo visitador, na sua enigmática, tranquila aparição pode interromper os desígnios da natureza.” Foto: Direitos reservados.

 

As personagens desta obra monumental, Pathos Ethos Logos, a que custa referir-nos como sendo um filme (?) – Luís Miguel Cintra chama-lhe “calhamaço” – são como visitantes de museus. Olham, são vagamente testemunhas da vida que passa. Não exprimem emoções por aquilo que veem. Pouco falam e quando o fazem, a mais das vezes é em off. Por vezes dizem textos que não são falas suas, mas sim de outros. Não os vemos fazer quase nada. Sonham. Têm pesadelos. Veem vagamente os outros. Olham a guerra e a religião: os seus artefactos e os seus ícones. Têm pais com quem se desentenderam definitivamente. 

Os pais – neste filme não há mães, apenas a promessa de o vir a ser – com quem tecem dissonâncias, zangas, desalinhos e desistências, por vezes parecem prefigurar o Pai. Mas não. Daqui não vem salvação nenhuma. Apenas a diferenciação, o antagonismo, a memória pesada e, por fim, a autonomia dilacerada.

Há, sim, um casal que se ama. Que tem um cão e vai ter um filho. Que precisa de uma casa. Que a acha não por seguir a estrela de Belém, mas por consultar os classificados do DN. Ele, o marido, faz coisas. Trabalha numa cozinha industrial, arranja as plantas da casa, joga um rugby de rua meio trapalhão, diverte-se correndo com o seu Fúria e faz outras banalidades. É real. É cigano. Vive. É o Cláudio. No princípio é-nos dito que deixou tudo aquilo de que gostava para se juntar à mulher que ama. E a terceira parte do filme é quase toda isto: uma longa mostra de um amor banal, quotidiano, normal, simples, sem nuvens nem exaltações, sem “quês” nem “porquês”. O amor, normalmente, naturalmente, como nunca fora filmado antes.

E há a mulher, Fabiana. Cigana. A amada que espera o filho. O seu tempo não é aquele habitual das mulheres, o tempo do fazer, o tempo das tarefas. O seu é o tempo da espera. É também o tempo da escrita que não regista apenas a espera, mas se abre ao futuro, à esperança de um filho anunciado que possa ler o que agora a mãe escreve. Para que saiba como foi amado, desejado, querido.

Contudo, o amor não é garantia bastante. Nem o anjo visitador, na sua enigmática, tranquila aparição – que mal desperta o sono feliz da grávida quase mãe e o volta a embalar serenamente –, pode interromper os desígnios da natureza. Quem ama, quem muito ama, quem é assim tão fortemente amado – até esta se tornar a sua normal condição de existir – a esse, nada nem ninguém o protege, nem está ao abrigo do que quer que seja. No âmago da tragédia, a sua força, fortaleza e salvação é poder gritar o nome do amado. Nesse grito vive toda a esperança do mundo.

Este desespero que nos vai na alma

“O mundo é o palco da violência humana. Toda a história da humanidade nos é contada como história da guerra (…) História da guerra, do martírio, da tortura e do domínio. Violência real, maior do que a imaginada nos sonhos e pesadelos.” Foto: Direitos reservados.

 

Mundo que é o palco da violência humana. Toda a história da humanidade nos é contada como história da guerra – iniciativa de um dos personagens transformado em colecionador de guerreiros, armas ligeiras, canhões e demais artefactos bélicos. História da guerra, do martírio, da tortura e do domínio. Violência real, maior do que a imaginada nos sonhos e pesadelos. Corpos aprisionados, maltratados, batidos até à morte – este é o legado horrendo da história da humanidade. Que agora se prolonga na devastação parasita do próprio planeta, levando-o à exaustão, exaurindo-lhe os equilíbrios que o mantiveram um lugar amigo da vida enquanto o homem matava, aniquilava, submetia, torturava.

Nem o planeta escapa a esta voracidade de poder: no vislumbre de futuro que nos é dado, tudo é tóxico. Os homens de 2037 saem às ruas de lama vestidos com escafandros e máscaras de proteção que não lhes permitem comunicar entre si. Não veem caras (cobertas por máscaras antigás integrais), não ouvem (as máscaras não lhes permitem ouvir) nem se conseguem fazer ouvir. Os corpos desaparecem por detrás de uma uniformização mascarada: todos parecem iguais, mas nenhum chega sequer a ser, pois ninguém tem um corpo visível e reconhecível.

Em contraponto do desespero da obra humana, a voz humana que procura a transcendência, o princípio, Deus. Textos belíssimos que fazem parte da herança cultural do Ocidente. A Bíblia, do poema do Génesis ao Apocalipse (lido pela voz poderosa e inesquecível de Luís Miguel Cintra), passando pelos Evangelhos, Meditações de São João da Cruz, escritos de Simone Weil no seu trânsito entre a origem judaica e a fé cristã que recusa toda e qualquer Igreja, textos de mártires e antes Antígona dita e redita numa audição fora do nexo narrativo só para dar voz a Sófocles e à mulher que desde a antiguidade desafia a brutalidade do poder. À voz junta-se a mão e a genialidade humana capaz de imaginar algo tão improvável como o Big Bang para interpretar o universo, ou obras de arte como a Sagrada Família de Gaudí, em Barcelona, a Abadia beneditina de Montserrat não muito longe da capital catalã, e a sua Virgem Negra, ou ainda, mais perto e mais prosaica, ma não menos significativa, a Abadia de Singeverga. Se este filme em três partes procura desvendar a Palavra, as palavras que vai buscar são dignas dessa busca. Sem qualquer dúvida!

Uma torrente para apontar o vazio

“As personagens desta obra monumental são como visitantes de museus. Olham, são vagamente testemunhas da vida que passa. Não exprimem emoções por aquilo que veem…” Foto: Direitos reservados.

 

Todos, ou quase todos, os filmes têm palavras e banda sonora. Aqui, porém, não sabemos se é a música que tem palavras. Ou imagens. Se foi para as palavras que as imagens foram encontradas, ou se a música veio por sugestão das imagens. Que importa? Não importa. O que sabemos e sentimos é que nesta obra não vemos apenas, ouvimos, ouvimos, ouvimos… Música, todo o tipo de música. Escolhas belíssimas. Nenhuma encomenda, simples uso precioso da música já escrita por outros, pronta, disponível. Esta obra indecifrável que contemplamos horas a fio como se olhámos repetidas vezes a vida que (des)conhecemos é transbordante de visões e audições: imagens de rara beleza, poemas lindíssimos, textos icónicos, música pujante nos seus extremos de harmonia /desarmonia. 

É como se, para dizer o indizível, os autores se munissem de uma torrente de meios, processos, sons, situações, imagens. Como se, apavorados por sempre lhes fugir o inalcançável Verbo deitassem mão de tudo o que podem, viveram, conhecem, julgam saber, temem ou gostam, para que não descubramos o vazio que, afinal, é o único lugar em que nenhuma palavra pode ser dita, mas pode ser procurada e, talvez, ouvida.  Dessa profusão, desse caudal superabundante por eles criado somos nós os usufrutuários agradecidos.

Não sei se este “calhamaço” algum dia poderá ser visto no circuito comercial. Mas as suas três partes vão ser exibidas na próxima sexta, sábado e domingo na Casa do Cinema de Coimbra. Só valerá a pena ir à sua presença se, como disse na apresentação em Lisboa, o beneditino Bernardino Costa, abade do Mosteiro de Singeverga, estivermos disponíveis para o aceitar como uma proposta de “suspensão na qual o espetador repousa junto à margem do rio, não para o atravessar, mas para o percorrer até à fonte.” Ou para confessarmos, como na mesma ocasião disse Luís Miguel Cintra: “Não sei se esgotarei alguma vez o campo aberto da multiplicidade de registos para onde o filme me lança e que é afinal o mesmo em que eu constantemente me vejo sacudido pela minha vida.”

Tal como o seu título, este incontável percurso talvez se possa resumir nisto: “Somos estes. Estamos aqui. Temos estes nossos costumes. Procuramos uma razão, um princípio. Encontrámos a palavra de Deus.” Ou talvez o plural seja excessivo e o que temos diante de nós é ainda menos, talvez apenas isto: “Sou este. Estou aqui. Tenho estes hábitos que herdei de outros. Não sei bem que lhes fazer. Procuro. Procuro uma razão, uma ordem, uma lógica. Não encontro. Encontrei a palavra de Deus. Desconfio de mim e do que sou capaz de com Ela fazer.”

“… E há a mulher, Fabiana. A amada que espera o filho. O seu tempo não é aquele habitual das mulheres, o tempo do fazer, o tempo das tarefas. O seu é o tempo da espera.” Foto: Direitos reservados.


Pathos Ethos Logos
2021, 641 [193 + 234 + 214] min
Realização: Joaquim Vicente Pinto e Nuno Leonel
Argumento: Joaquim Vicente Pinto e Nuno Leonel
Diretor de Fotografia: Nuno Leonel
Com: Ângela Cerveira; Rafaela Jacinto; Fabiana Silva; Cláudio Ribeiro
Estreia: Festival de Locarno [2021] – Seleção oficial
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=3odaKTkRzTI

Próxima exibição: Casa do Cinema de Coimbra, dias 25, 26 e 27 de novembro às 21h45.

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Encontra um trabalho que não amas, não perderás um minuto da tua vida

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Ainda antes de acabar o curso fui à minha primeira entrevista de trabalho “a sério”, numa produtora de filmes num bairro trendy de Lisboa. Roubei um dia à escrita da tese de mestrado, apanhei o comboio e lá fui eu, tão nervosa quanto entusiasmada. O dono começou por me perguntar se fazer cinema era o meu sonho. Fiquei logo sem chão. Sofri, desde muito cedo, de um mal que me acompanha até hoje: sonhava demais e muitos sonhos diferentes.

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