Cartas de Luiza Andaluz em livro

“Seria grande caridade tratar do caso com urgência”

| 28 Mai 2022

Preocupações com um homem que estava preso, com o funcionamento de uma oficina de costura para raparigas que não tinham trabalho, com a comida para uma casa de meninas órfãs. E também o relato pessoal de como sentiu nascer-lhe a vocação. Em várias cartas, escritas entre 1905 e 1971 e agora publicadas, Luiza Andaluz, fundadora das Servas de Nossa Senhora de Fátima, dá conta das preocupações sociais que a nortearam ao longo do seu trabalho e na definição do carisma da sua congregação.

A apresentação deste 4º volume (num conjunto de seis previstos pela congregação e pela editora Lucerna) de textos de Luiza Andaluz mostra o seu carácter de voz feminina, com um sentido prático e uma importante capacidade de liderança que Luiza Andaluz tinha, como já escreveu no 7MARGENS a historiadora Rita Mendonça Leite.

Esta investigadora esteve neste sábado, 28, na Casa Madre Luiza Andaluz, em Santarém, numa sessão em que também participaram alguns dos destinatários de Luiza Andaluz. O 7MARGENS reproduz a seguir algumas das cartas agora reveladas.

Apresentação de livros com as obras de Luiza Andaluz, fundadora das Servas de Nossa Senhora de Fátima

Sessão de apresentação dos livros com as obras de Luiza Andaluz, em Santarém. Foto: Direitos reservados.

 

A SARAH
[s/l], 10 de julho de 1929

Minha boa Amiga,

(…) As senhoras da Liga andavam a tratar aqui do casamento de um pobre homem que estava preso. Infelizmente o preso foi mudado para Monsanto e para se tratar do casamento por procuração tornava-se muito dispendioso. Aí lhe mando pois os papéis e uma carta que a elucidará sobre o nome do homem e a cadeia aonde se encontra. A mulher e seis filhos estão aqui. Seria grande caridade tratar do caso com urgência. Eles nem registados estão. Se faltar mais algum papel tem a bondade de dizer e a mulher vai na altura que for preciso para se efetuar o casamento. Não podendo tratar do caso seria favor entregá-lo a quem lhe parecer mais conveniente.

Escrevo hoje muito à pressa.

Recomendo-me às suas boas orações e peço me creia sempre amiga dedicada

Luiza Maria

 

AO DIRETOR GERAL DE ASSISTÊNCIA PÚBLICA
Lisboa, 1930

Excelentíssimo Senhor Diretor Geral de Assistência Pública,

Tendo um grupo de senhoras fundado há três anos em Évora, na Rua da Mouraria 22, umas oficinas de costura para raparigas pobres com o nome de Casa de Trabalho de Nossa Senhora do Rosário, conseguiu alguns meses mais tarde ampliar esta instituição estabelecendo ali também uma escola de Instrução Primária.

Tanto a escola como a Casa de Trabalho estão sendo frequentadas por mais de 60 raparigas. Torna-se impossível aumentar o número de alunas, embora os pedidos sejam muito numerosos, porque as aulas não comportam maior lotação.

Veio ao nosso conhecimento que o Convento de Santa Helena do Monte Calvário, dessa cidade estava apenas ocupado por meia dúzia de velhinhas e observámos que nos servia admiravelmente para o desenvolvimento da nossa instituição de beneficência. Informaram-me está há anos de posse dele o grupo «Pro Évora» embora o respetivo despacho de cedência, por parte do Governo, não tivesse nunca chegado a ser assinado. Informaram-me ainda que nunca chegou a ser utilizado para fim algum, pois a hospedaria alentejana que ali pensava estabelecer a tinham ido abrir num local mais central e o museu regional (há vários museus em Évora) o tinham agora começado numas salas do antigo Paço Arquiepiscopal.

Como as Casas de Regeneração são uma necessidade atual que muito deve interessar V.ª Ex.cia, que com tão esclarecido zelo e tanta dedicação está olhando pela causa da Assistência em Portugal, lembrei trazer ao conhecimento de V.ª Ex.cia este meu desejo. Sendo-me cedido o Recolhimento do Calvário logo trataríamos de transferir para ele a casa de trabalho e a escola anexa (obras de preservação) procurando ampliar ainda a Instituição com o internato para as mais infelizes, a exemplo do que fizeram as senhoras de Portalegre que têm uma casa onde já se albergam 75 raparigas.

Nas mãos de V.ª Ex.cia, Excelentíssimo Senhor Diretor Geral da Assistência, deponho a nossa súplica, feita a favor da desgraça e confio que V.ª Ex.cia saberá interessar-se e conseguirá seja atendido tão justo pedido.

Luiza do Vadre Santa Martha (Andaluz)

Luiza Andaluz, fundadora das Servas de Nossa Senhora de Fátima aos 58 anos, em 1951, a ler o jornal Novidades.

Luiza Andaluz, fundadora das Servas de Nossa Senhora de Fátima aos 58 anos, em 1951, a ler o jornal Novidades. Foto: Direitos reservados.

 

A D. MANUEL GONÇALVES CEREJEIRA, cardeal-patriarca de Lisboa
[s/l, s/d] (Data atribuída: 1930)

Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor,

Conforme V.ª Ex.cia Rev.ma pediu aqui venho explicar o melhor que sei o início da nossa querida Obra. Quando em 1915 a minha irmã Eugénia partiu para o convento de Carmelitas em Echavacoïz, Cisur Mayor, Navarra, Espanha, eu não pensava sequer em me dar a Nosso Senhor. Aprovava a ideia dela, por ver que a satisfazia tão santamente essa sua ambição de ser religiosa mas não pensava em a imitar. Satisfazia-me muito mais olhar pelas criancinhas pobres de Santarém de quem começara a ocupar-me, ajudada sempre por minha Mãe desde a idade de 14 anos, talvez. Tratei de organizar e de dirigir o externato, que havia no Convento das Capuchas a pedido do Venerando Cardeal Neto, que era muito meu amigo. Quando a minha irmã Eugénia partiu para o Convento, havia apenas alguns meses que eu tinha conseguido reabrir o externato das Capuchas, numa casa alugada por mim no Largo de S. Julião, isto em data de 7 de julho de 1914 e a minha irmã partiu em março de 1915. Foi a minha irmã Condessa de Vila Verde levá-la e eu fiquei, mas intimamente emocionada, impressão que mais se acentuou quando em agosto do mesmo ano fui assistir à sua tomada de hábito. As grades, os cânticos das religiosas, o silêncio do santuário, aquela atmosfera de tanta piedade comoveram-me profundamente, chorava sem saber porquê. Pouco instruída nas coisas de Deus nem sabia que devíamos procurar o Senhor em nós, mas ali senti bem que era assim, e uma outra senhora que ali se encontrava e com quem falei quase sem cessar durante 2 dias e 2 noites, que a bem dizer passei em claro sentada na borda de uma cama[,] ensinou-me muita coisa que eu ouvi com prazer. No dia da cerimónia de entrada e tomada de hábito, fiquei esquecida aos pés do altar depois de terminada a parte que se realizou na capela, e quando dei por mim todos tinham saído e eu estava certa que queria muito ser de Nosso Senhor, só receava que Nosso Senhor o não quisesse também. Nunca vacilei nem mudei de ideias e nessa mesma ocasião pedi à Santa Prioresa que me guardasse um lugar. Com grande surpresa minha disse-me logo que sim, mas pediu-me ajudasse primeiro a tal outra senhora, a organizar uma escola que ela tinha em Lisboa, para que ela pudesse vir para o Carmelo sem demora, e que depois viria eu. Comecei a ajudar nessa escola, desenvolveu-se muito, mudamos do Campo de Santana, aonde hoje estão as Florinhas da Rua[,] para a Rua de Santa Martha, 94 para o edifício que as Irmãs da Caridade de S. Vicente se tinham visto obrigadas a largar, após a revolução de 1910. A seguir ao desenvolver desse Instituto, que tomou o nome de Instituto Profissional Feminino e que teve uma frequência enorme de internas e de externas, fomos abrindo várias outras escolas e casas de trabalho junto a freguesias aonde contávamos com o apoio dos párocos e a quem nós queríamos ajudar na sua missão de catequizar as crianças. Abrimos assim várias: Rua de S. Bento, Asilo do Lumiar, Escola de Pedrouços, Escola de Cascais etc. Parecia-me sentir que Nosso Senhor queria que se fossem espalhando estes pequenos núcleos por todo o país. Quando estava a arranjar um, já me sentia levada a pensar em começar outro. Continuava, contudo, sempre a pensar em ir para o Carmelo e passaram-se assim 9 anos. O meu Diretor, que estava em Madrid aonde eu ia todos os anos a caminho do Carmelo, recusava-me sempre licença para entrar.

Foi em 1922, durante a minha visita ao Carmelo, que eu fui ter com a minha irmã ao palratório e lhe disse que havia muito tempo que me sentia impelida a começar uma obra: associação ou comunidade não sabia bem o quê, que amparasse as nossas escolas e nos libertasse para podermos enfim vir para ali, mas que naquela data já me parecia tarde visto estar já com 46 anos e o meu Diretor continuava a dizer-me sempre que não era ainda oportuno. Como anteriormente me tinha dirigido muito tempo com o Senhor Arcebispo de Évora, e ainda muitas vezes costumava pedir-lhe conselho sobre qualquer coisa que necessitava, várias vezes já tinha falado a S.ª Ex.cia Rev.ma nestas ideias vagas. Depois de tudo o que se passou no Carmelo, nesta data, resolvi entregar-lhe este assunto e assim fiz, apenas de regresso a Lisboa, lembrando-me que foi justamente a 7 de outubro dia de Nossa Senhora do Rosário, que lhe escrevi. A resposta recebi-a por telegrama a 15 do mesmo mês. A 17 realizava-se uma pequena reunião em Torres Novas que chamamos a reunião com as 3 Marias: Maria de Jesus, Maria Vitorina e Maria Helena, e que foi presidida pelo Senhor Arcebispo de Évora. Elas disseram-me estar prontas a unir-se a esta ideia mas ainda sem perceberem o quê, nem para quê. Fomos correspondendo umas com as outras e com mais algumas pessoas, e combinou-se um retiro inicial para maio de 1923. Fomos a Fátima a 13 e depois entrámos em retiro. Começámos a fazer vida em comum a 15 de outubro do mesmo ano numa parte do atual Pensionato Andaluz.

Creio ter respondido a tudo, os livros juntos completam.

Queira V. E. R. abençoar a filha muito grata

Luiza Andaluz

 

A UM DESTINATÁRIO NÃO IDENTIFICADO
[s/l, s/d] (Data atribuída: 1949)

Ex.mo Senhor,

Passou mais um ano e eu venho novamente recorrer à bondade de V. Ex.ª.

Estamos na época das colheitas, não quer V. Ex.ª enviar-nos qualquer donativo em legumes, arroz, batatas, vinho, azeite ou lenha? Seja o que for tudo representa valiosa esmola para as orfãzitas do Instituto de Nossa Senhora dos Inocentes de Santarém por quem tanto me interesso. Passei há poucos dias por lá encontrei a despensa quase vazia e urge fornecê-la! Que o Senhor recompense com abundantes colheitas e escolhidas graças a generosidade de V. Ex.ª com a qual conto e desde já agradeço.

Luiza Andaluz

 

A D. MANUEL GONÇALVES CEREJEIRA, cardeal-patriarca de Lisboa
[s/l, s/d]

Eminentíssimo Senhor,

(…) Estimo tomar conta da Obra da Proteção (no caso de me ser realmente oferecida) pois que me parece uma obra de grande alcance social e creio que cabe bem dentro do programa de trabalho que Nosso Senhor nos traçou. Antes porém de fazer uma aceitação definitiva da obra, preciso conhecer bem todas as condições. Não sei quantas pessoas serão precisas desde já, e ignoro as habilitações que devem ter assim como os recursos de que a Proteção dispõe. (…)

Para poder aceitar com muita brevidade o encargo, preciso ser ajudada com elementos externos, isto que Vossa Eminência me poderia talvez ajudar a encontrar, e com Raparigas piedosas de Lisboa que tenham boa vontade em me auxiliar, enquanto não encontro e não escolho e preparo o núcleo de pessoal, que possa servir depois definitivamente. (…)

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Sinodalidade como interpelação às Igrejas locais e à colegialidade episcopal

Intervenção de Borges de Pinho na CEP

Sinodalidade como interpelação às Igrejas locais e à colegialidade episcopal

Há quem continue a pensar que sinodalidade é mais uma “palavra de moda”, que perderá a sua relevância com o tempo. Esquece-se, porventura, que já há décadas falamos repetidamente de comunhão, corresponsabilidade e participação. Sobretudo, ignoram-se os princípios fundacionais e fundantes da Igreja e os critérios que daí decorrem para o ser cristão e a vida eclesial.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This