Estou atrasado. Bastante. Com alguma desculpa, mas não muita. Bem vistas as coisas, bastante pouca. O livro Pinheiros, Oliveiras e Castanheiros, de Manuel Branco Mendes (edição Espaço Ulmeiro), foi apresentado em 2024 mas só agora aludo a ele. A meu favor: o livro não se desactualiza, nem a sua leitura que, desde já, sugiro. Assim, presumo, também os comentários serão actuais pois tanto faz que fossem produzidos no ano passado, neste, ou no próximo. Talvez por isso fui adiando a escrita.
Devo dizer que conheço o autor há décadas e que, ainda assim, achei curioso descobri-lo um pouco através da leitura do seu livro. Este é uma peça que cativa, se não mesmo captura, pela sua apresentação invulgar, quase em A4, com o texto manchado por abundantes fotografias e documentos que ora funcionam com uma ilustração, ora como uma motivação para a leitura.
Heteróclito (o livro)

Então, de que trata o livro? Pois não é óbvia a descrição, é um tanto indefinida, ou talvez heteróclita. Digamos que parte da passagem do autor por um seminário menor dos Dominicanos nos anos 1960, já beneficiando dos abalos do Vaticano II, numa trajectória comum a muitos outros que tinham aqui uma escapatória a vidas de intensa ruralidade pré-programada, com as dificuldades inerentes (relembra uma mãe: “Não te esqueças, Armando. Nós fazemos um grande sacrifício para te ter a estudar, ainda por cima tão longe. Estuda, filho”). Porém, sendo testemunhal, não é de todo autobiográfico. O autor desenvolve uma peculiar narrativa que combina uma certa historiografia com um relato sociológico rigoroso que caracteriza a época e o seminário, trespassando-a com uma discreta – à falta de melhor expressão – espiritualidade, interpolando nela com eficácia citações de outros seminaristas sobre a vida no seminário e o percurso de cada um. Na componente histórica avulta ainda o enquadramento eclesial e sócio-cultural, permitindo ao leitor possuir óculos com as lentes certas para ler os dados e os relatos.
Na verdade, este aspecto não é irrelevante ou menor. Toda a narrativa é beneficiária de uma vivência que, por sua vez, e se bem percebi a toada, decorre dos ventos renovadores (hoje, apetece mais usar a palavra libertadores) do Vaticano II, que os Dominicanos souberam usar nas tarefas educativas. De certo modo, também aqui é feita a história dos Dominicanos em Portugal.
Ao ouvir falar de seminários, o candidato a leitor poderá pré-alarmar-se, antevendo (legitimamente, como bem se sabe hoje) obscuridades na linha da Manhã Submersa de Vergílio Ferreira. Eu próprio, no início, temi tropeçar algures nos textos em mais uma (ou mais, que isso nunca vem no singular) inconfidência sobre abusos sexuais, mais algum episódio de terror escondido, agora revelado, em mais uma tragédia a somar às tantas hoje conhecidas.
Mas descansemos. Quase com surpresa, nada disso ocorre – bem pelo contrário! O relato do autor, e dos muitos que ele convoca para testemunharem sobre a vida de seminaristas, processa-se num registo (mesmo que crítico) de serenidade e de reconhecimento das oportunidades que o seminário dominicano lhes proporcionou. Tudo somado, quase uma certa felicidade. Admito que este termo, este sentimento, seja uma contaminação do acto de apresentação do livro em 2024. Nunca discuti esta ideia com o Manuel Mendes. Fica para mais uma conversa com ele.
Felicidade (sobre a apresentação do livro)

Sessão de apresentação do livro: “Devagarinho, ao longo da sessão fui entendendo alguma coisa: não era só pelo reencontro, era pela memória saudável que traziam do tempo do seminário, essa casa que pela mão dos Dominicanos os tinha resgatado a um anunciado trajecto daquela ruralidade dura dos anos 1960, ou mesmo da pobreza.” Foto: Direitos Reservados
Já estive em muitas apresentações de livros de índole profissional, de literatura, poesia ou ficção. Já passei por sessões deprimentes com cinco pessoas, e casas cheias de 100 ou mais almas a vibrar. Já me alegrei nelas, já saí indiferente, já apanhei estuchas antológicas de gente que fala para a dimensão mais recôndita do seu umbigo. Já estive em apresentações felizes de 30 minutos e noutras que se prolongaram por exasperantes duas horas.
Ora a apresentação de Pinheiros, Oliveiras e Castanheiros não foi nada disto. Tal como o livro é peculiar, também a sua apresentação foi um momento único, não apenas pelas 200 pessoas presentes, mas pela diversidade de origens. Respondendo ao convite, compareceram amigos e um grande número de ex-seminaristas e suas famílias. Como descrever, como explicar, a geração de um ambiente de uma febril e estranha felicidade? Devagarinho, ao longo da sessão fui entendendo alguma coisa: não era só pelo reencontro, era pela memória saudável que traziam do tempo do seminário, essa casa que pela mão dos Dominicanos os tinha resgatado a um anunciado trajecto daquela ruralidade dura dos anos 1960, ou mesmo da pobreza.
O Manuel Mendes fez tudo bem na organização da sessão: convidou o Pedro Strecht e a Susana Peralta não tanto para apresentar o livro mas para, a seu propósito, reflectir sobre as problemáticas da educação, da juventude e da evolução da sociedade portuguesa. Fizeram intervenções tão diferentes mas ambas brilhantes, cativantes e interpeladoras, pondo tudo em perspectiva. E depois de ele próprio falar um pouco, deu a palavra aos ex-seminaristas, o que foi absolutamente comovedor. Parece que nenhum teve vocação sacerdotal, embora muitos se tenham mantido ligados à Igreja, enquanto outros se afastaram, ainda que mantendo um núcleo de valores que os orientou pela vida fora. São aqueles que se identificam como agnósticos (quiçá ateus) mas que denotam a extracção católica no discurso, nos valores e nos comportamentos, cristãos sem um Cristo divino, partilhando valores, mas não o corpo teleológico da religião.
Destacaria ainda dois aspectos que me pareceram relevantes. O primeiro é que ao invés do que seria de esperar, todos referiram que a sua passagem pelo seminário, enquanto crianças e adolescentes, não foi pesarosa ou traumática, contrariando as perspectivas mais comuns e que hoje temos automaticamente por adquiridas. Um outro é que a maioria fez percursos notáveis ao nível pessoal, académico, profissional e, nalguns casos, político ou sindical. Todos eles referiram que a sua vida era tributária daquele elevador social que tiveram a rara oportunidade de apanhar em novos. Alguns explicitaram mesmo o profundo agradecimento à Igreja e às pessoas concretas que moldaram a sua educação e personalidade, detalhe que foi também salientado pela Susana Peralta, personalidade de fora da Igreja.
Seminários (não, obrigado)

Foto reproduzida do livro Pinheiros, Oliveiras e Castanheiros.
Uma das questões que coloco é se será possível que no futuro os que se sentiram chamados por Deus ao sacerdócio poderão dizer que foram felizes nos seminários. Eu suspeito que será difícil. É certo que a comparação é forçada sobretudo pelas idades e contextos de formação. O livro fala de seminários menores; hoje os seminários, pelo menos os diocesanos, destinam-se aos mais velhos que já consolidaram uma opção.
O seminário descrito no livro desenvolveu um trabalho de mérito que parece dever-se à combinação de dois factores principais: os padres formadores decentes, íntegros e cultos, e os ventos frescos vindos de Roma e do Concílio Vaticano II, o que o livro desenvolve. Suponho que tenha sido uma fase excepcional e, porventura, a última experiência positiva de um modelo que perdeu sentido e em que a Igreja insiste.
Costuma dizer-se “não hei-de morrer sem…”. Neste caso, receio morrer, mesmo que velho, sem a Igreja ter percebido que o modelo seminário, por mais aberto que seja (e seja lá o que isso for) se tornou obsoleto e contrário a uma saudável formação dos futuros padres. Pior: satisfeitos por terem dado o passo de não ter uma dezena de candidatos a dormir numa camarata julgam que resolveram o problema. Enganam-se: criaram outros. Toda uma discussão por fazer e que foge à alegria destes Pinheiros, Oliveiras e Castanheiros.
Pinheiros, Oliveiras e Castanheiros: histórias de algumas gerações no Seminário da Ordem Dominicana na história da sua restauração em Portugal
Autor: Manuel Branco Mendes
Edição: Espaço Ulmeiro, 2024
ISBN 978-989-33-6641-7.
Quem esteja interessado, se não localizar exemplares físicos do livro na livraria, posso fazer de intermediário com o autor (nfcaiado@gmail.com). Pode também procurar na Internet, já que em breve passará a e-book. Sobre
Sobre este mesmo seminário e a sua experiência, o 7MARGENS publicou já notícia do documentário de Filipe Araújo, O Casarão.










