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Sermos pessoas “Laudato Si’” sem esforço

| 19/05/2022

Foto © Eyoel Kahssay/Unsplash

Foto © Eyoel Kahssay/Unsplash

 

Há quase dois anos que em nossa casa deixámos de comprar iogurtes e começámos a fazê-los em casa. Um dia fizemos as contas e essa pequena mudança representa cerca de 1000 embalagens de plástico que deixámos de consumir. Se cada embalagem tiver o peso da ordem de 1 grama, são 1 quilograma ao final deste tempo. E se 1000 famílias fizessem como nós, seria 1 tonelada a menos de plástico que correria o risco de poluir os nossos oceanos. As grandes mudanças começam pelas pequenas que ao longo do tempo farão a diferença.

A semana Laudato Si’ (https://laudatosiweek.org) vivida de 22 a 29 de maio de 2022 assinala o convite que a Encíclica do Papa Francisco fez a que mudemos os nossos estilos de vida para que se tornem mais sustentáveis. Caso contrário, o planeta tornar-se-á insustentável pela degradação dos solos, destruição das florestas, contaminação dos oceanos e muito mais, de acordo com o relatório Global Land Outlook publicado em Abril de 2022. O tema este ano da semana Laudato Si’ (LS) é “Escutar e Viajarmos Juntos” inspirado na passagem da LS (13) — «O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar.» Mudanças que podem ser exploradas sem esforço.

Recentemente, eu e a minha esposa fomos convidados a preparar um workshop que traduzisse de forma simples como podemos concretizar o cuidar do relacionamento com a casa comum através de pequenas e assertivas alterações no estilo de vida de cada família e indivíduo. Uma das maiores dificuldades que sentimos em mudar é o esforço que isso exige. Por isso, inspirados no recente livro de Greg McKeown “Sem esforço” (Vogais, 2021), pensámos que mudar os nossos estilos de vida poderia começar por transformar as questões difíceis num formato mais fácil e impulsionador de acção. Por exemplo, «Porque é que isto é tão difícil?»

Quando ponderamos mudar algo e sentimos que a mudança pode ser complexa, a visão da necessidade de um grande esforço para obter resultados pequenos é desmotivadora. E se alterássemos a pergunta para — «E se pudesse ser fácil?» A estratégia consiste em pensar no esforço mais pequeno que posso fazer, que possua menor complexidade, mas cujo resultado se torne grande aos nossos olhos. Por exemplo, como na questão dos iogurtes. Apesar da mudança ter acontecido, como era a minha esposa a fazê-los, não é que me preocupasse muito até ao dia em que restava apenas um e havia necessidade de fazer mais, mas era eu que os devia fazer. O pequenos esforço foi o de colocar a receita numa App de notas que pudesse aceder com o telemóvel. Fácil e passei a sentir-me mais realizado por ter aprendido algo de útil e mais sustentável, mas nem sempre é assim.

«Porque é que isto é tão aborrecido?» — O essencial a mudar no estilo de vida não é garantido que seja divertido, nem que o que nos diverte seja algo essencial. Mas, «e se pudesse ser divertido?» Pois, no cruzamento entre o conjunto de coisas que são essenciais e o conjunto das coisas que são divertidas, encontram-se as coisas que se fazem sem esforço, e que mais do que rotinas tornam-se rituais. Uma das mudanças que gostaria de implementar era diminuir o consumo de combustível fóssil, já que não o posso eliminar. Por isso, como o visor mostra o consumo médio aos 100km, de cada vez que encho o depósito, coloco o mostrador a zero e o jogo consiste em obter o consumo médio mínimo possível quando o depósito chegar ao fim. O curioso foi como essa diversão alterou o modo de conduzir: carrego menos no acelerador, conduzo mais lentamente e, por isso, ando menos stressado e de cada vez que o consumo diminui 0.1 litros/100km torna-se irresistível soltar um “YES!” (apesar de ser estranho para quem me vê do lado de fora). Hoje, cada vez que entro no carro, sinto em cada viagem o prazer do ritual de reduzir o consumo de combustível.

Outras questões abordavam a impossibilidade ligada à visão do quanto ainda falta para mudar, em vez de nos forcarmos no pouco que já mudámos; ou na inacessibilidade criada pelas expectativas que parecem demasiado elevadas, quando podíamos antes focar na pequena concretização; ou no desinteresse porque tendemos a ficar estáticos quando achamos que já sabemos ou fazemos muita coisa, quando poderíamos trazer alguma dinâmica na procura de diferentes pontos de estabilidade que nos levam à postura mais sustentável de estarmos sempre a aprender.

É natural querer respostas imediatas nesta era da informação sobre o que devemos fazer para mudar os nossos estilos de vida e sermos famílias e indivíduos Laudato Si’, mas só quando experimentamos mantermo-nos nas questões, em vez de nos estabilizarmos nas respostas, é que estaremos em permanente evolução. Quando em novembro de 2021, no dia do pobre, o Papa Francisco lançou a Plataforma de Acção Laudato Si’ (https://plataformadeacaolaudatosi.org), ofereceu a vários sectores a oportunidade de beneficiarem de um exame de consciência, partilharem as suas reflexões com todo o mundo e construirem planos Laudato Si’ que transformam as palavras em acção. E se podemos usar a nossa inteligência para agir sem esforço, porque não?

Miguel Panão é professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra. Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter Escritos em https://tinyletter.com/miguelopanao ou se quiser contactar-me pode fazê-lo para miguel@miguelpanao.com

 

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