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Sara Laísse

Servir: lavar as mãos, lavar os pés, lavar o coração

| 26/02/2021

Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara sua hora de passar deste mundo ao Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim. […] Depois de lhes ter lavado os pés e retomado as vestes, pôs-se de novo à mesa e lhes disse: “Sabeis o que vos fiz? Vós me chamais de Mestre e Senhor, e dizeis bem, pois eu o sou. Se, portanto eu, que sou o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, vós também deveis lavar-vos os pés uns aos outros. Pois eu vos dei o exemplo, para que façais como eu fiz”.

Evangelho de João, 13 (12-15)

“Ele ensinou-nos, entre outras coisas, a partilhar o pão e o vinho (a comida) e a servir (lavou os pés aos seus discípulos)” .(Lava-pés. Pintura na Basílica de Santa Maria del Mar em Barcelona. Foto © José Luiz Bernardes Ribeiro / Wikimedia Commons)

 

No texto anterior falei sobre servir, dar de graça o que recebemos de graça.

Calhou, dias depois, numa das minhas navegações pelo Facebook, ver uma publicação que me chamou a atenção. Falava sobre um ritual moçambicano de “lavar as mãos”. E inquietou-me a forma como se sugeria a sua discussão.

O referido ritual centra-se no colocar água com sabão (ou o próprio sabão) num recipiente, levar este e um outro recipiente vazio para pôr alguém a lavar as suas mãos. O que contiver água, despeja no vazio, passando antes pelas mãos de quem as deve lavar. O ritual consiste, especificamente, em entregar o sabão ao outro, que por sua vez o esfrega nas suas mãos. Depois disso, o servidor dá-lhe água (fá-la escorrer sobre as mãos do servido), a fim de que se lave e, por fim, o servidor entrega uma toalha ou um pano com que o outro se enxuga.

É um ritual que se faz, quando se recebe alguém em casa e o mesmo se faz em casa, às pessoas com as quais se vive. De um modo geral, os mais novos, servem aos mais velhos, a esposa serve ao marido, a nora aos sogros (falei deste ritual também no texto Nhinguitimo ou vento sul: o que é que nos trazes, desta vez?)

É uma prática na qual quem serve tem um estatuto considerado como estando abaixo do da pessoa a qual se serve.

O gesto parecia comum ou aceitável nas zonas rurais, nas quais as casas de banho não têm uma torneira. Entretanto, já se verificou que este foi trazido para as cidades e costuma, também, ter lugar em casas nas quais existe uma casa de banho com torneira.

A publicação que originou este texto ridicularizou a cerimónia, julgando-a desnecessária, uma vez que lavar as mãos é, para o autor, similar a uma qualquer necessidade biológica que cada um deve fazer por si. Isso, mais tarde, foi discutido entre os que viram aquela publicação. Havia argumentos contra e a favor. Havia quem o visse como carinhoso ou de amor e com razão de existir. Outros julgam impertinente que ele tenha lugar numa casa na qual haja água corrente.

Depois de alguma leitura, aquela conversa não me saía da cabeça. Lembrei-me do ritual do “Lava pés”, que teve lugar na última ceia de Jesus Cristo, na qual Ele ensinou-nos, entre outras coisas, a partilhar o pão e o vinho (a comida) e a servir (lavou os pés aos seus discípulos). Lembrei-me também de uma tradição ocidental, segundo a qual quando alguém vai à casa de outrem pela primeira vez, a dona de casa deve servir ao visitante o “primeiro copo”. Por ser de “bom tom”, é cortês. E é, porque abre o à vontade ao visitante.

Essa prática de servir as visitas levou-me a uma outra da minha cultura, a bitonga-matsua: quando se recebe um convidado em casa e se lhe serve de comer, a dona da casa (ou o hospedeiro) deve ser a/o primeira/o a se servir, para mostrar ao hóspede que o que serve não está envenenado; chama-se a isso “tirar o feitiço” (gudhusa wuloyi). Este gesto é contrário à tradição ocidental, na qual as visitas são as primeiras a se servirem.

É sobre o servir que tenho vindo a falar. E o que é que têm estes últimos exemplos, a ver com a publicação sobre lavar as mãos a outrem? Têm a ver com o servir, dar de nós. E como Jesus ensinou, segundo São João, sejamos quem formos, com a categoria ou classe social que tenhamos, servir é uma acção de cortesia, de carinho, de amor. E até pode ser o último gesto que fazemos a outrem. E Ele, o Mestre, serviu aos seus discípulos.

O que me parece deixar contrariadas algumas pessoas são duas questões: a estética, porque o gesto de lavar as mãos é feito no lugar onde se vai comer – uma sala, na maior parte das vezes – e ainda o facto de que o estatuto do servido é considerado, em alguns casos, acima do de quem serve. Ou, se não for acima, como o caso de um hóspede, coloca o servidor num estatuto de subalternidade momentânea. Ao que me parece, os nossos egos inflamados é que nos fazem encarar a lavagem das mãos ao outro como anti-estético, humilhante e de desabonar.

Quão grande era Jesus, que se curvou e lavou os pés aos seus discípulos? (A iconografia mostra-nos que isso se deu numa sala ou num “lugar para comer”). O texto não nos diz que Jesus os convidou à casa de banho. E nós? Somos maiores do que quem? Somos superiores a quem, a ponto de julgarmos deselegante lavar as mãos numa sala ou indignos de curvar as nossas costas? Julgo que poderíamos distinguir pessoas e momentos e dar a cada um o tratamento à medida das suas convicções: mandar as pessoas para a casa de banho, se assim o assumirmos que seja conveniente para quem recebemos; ajudar a lavar as mãos a quem tenha o parecer de que assim deve ser.

A dona de casa que serve o primeiro copo ao seu visitante e a dona de casa (ou hospedeiro) que se servem primeiro, para “tirar o feitiço à comida”, que etiqueta é que infringem? São inferiores a quem? Lavar as mãos é um exercício que se pode fazer individualmente, indo à casa de banho para o fazer? É sim. No entanto, há rituais simbólicos que nos tornam mais próximos e mais humanos e que nos colocam em harmonia com o próximo. O lavar as mãos ao outro é lavar o coração de ambos, é irmanar-se, é igualar-se, é dar-se e é entregar-se. E não custa nada.

Aproxima-se a Páscoa, momento deste grande ensinamento e de outros ligados ao servir. Porque não lavarmos as mãos ou os pés uns dos outros? Amemo-nos até ao fim, ninguém sabe a sua hora. E Jesus conhecia a sua.

 

Sara Laisse é docente de Cultura Moçambicana na Universidade Politécnica em Maputo e membro do Graal -Moçambique. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

 

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