Sete Partidas

A geração perdida de Aberfan

Infelizmente, para muitos galeses, outubro no seu país significa também relembrar o desastre de Aberfan. Aberfan é uma terra dos vales galeses como qualquer outra: uma série de casas e estabelecimentos que se encontram entre duas montanhas com o ocasional rio a separá-las. Tem um parque, supermercado, pub, correios e cemitério. No dia 21 de outubro de 1966, o cemitério de Aberfan acolheu mais vidas do que merecia.

Outono em Washington DC: cores quentes, cidade segregada

Vou jantar fora com um grupo de amigas, algo que parece impensável nos dias que correm, e fico deslumbrada com o ambiente que se vive nas ruas, deparo-me com inúmeros bancos de jardim que agora se transformaram em casa para alguém, algumas tendas de campismo montadas em Dupont Circle, a rotunda que define a fronteira invisível entre ricos e pobres.

Não ter medo da covid

Nesta crise da covid tenho ouvido cada vez mais falar em medo, em “manipulação pelo medo” em “não ceder à estratégia do medo”. Parece que há por aí quem acredite que os governos têm um plano secreto de instalação do totalitarismo, e a covid é apenas uma excelente desculpa para a pôr em prática.

O País de Gales sem máscara, através da janela

Enquanto, em Portugal, parte de mim desculpava o número arrasador de vítimas da covid-19 em certos países com o óbvio argumento “claro, têm mais pessoas, vão ter mais casos…”, o país que me interessa a mim, o Reino Unido, encontrava-se entre os lugares mais altos na lista de países com mais infetados. Mas não me preocupei: o argumento anterior relaxava-me.

A reunião de trabalho

A reunião de trabalho convocada pela chefe chegou sem surpresa. Mais uma entre tantas. Comparecemos todos. Através do ecrã, a expressão no rosto e o tom da voz denotavam, no entanto, uma intenção outra. Um assunto especial. Havia efectivamente um assunto especial a abordar. Abertamente. Uma autenticidade sem pudor marcou o tom da conversa. Um cuidado humilde e generoso revelado sem condicionamentos.

STOP nas nossas vidas: Parar e continuar

Ao chegar aos EUA tive que tirar a carta condução novamente. De raiz. Estudar o código. Praticar. Fazer testes. Nos EUA existe um sinal de trânsito que todos conhecemos. Porque é igual em todo o mundo. Diz “STOP”. Octogonal, fundo branco, letras brancas. Maiúsculas. Impossível não ver. Todos vemos. Nada de novo. O que me surpreendeu desde que cheguei aos EUA, é que aqui todos param num STOP. Mesmo. Não abrandam. Param. O carro imobiliza-se. As ruas desertas, sem trânsito. Um cruzamento com visibilidade total. Um bairro residencial. E o carro imobiliza-se. Não abranda. Para mesmo. E depois segue.

De Itália, cratera do vulcão covid, desafios e alertas

A covid ainda anda por aí à solta. E lança os tentáculos em direcções complicadas, tentando fazer das suas nas favelas do Rio e S. Paulo, nos musseques de Luanda e Maputo, nos slums de Nairobi e Kampala, nas periferias das megalópoles indianas,… lá, onde parece fácil chegar o fogo e não haver bombeiro que o apague! Rezemos para que tal não aconteça, para bem de todos.

Retrospectiva

Regresso algures a meados de 2019, vivíamos em Copenhaga, e recupero a sensação de missão cumprida, de alguma forma o fechar de um ciclo ao completarmos 10 anos de vida na Dinamarca e nos encontrarmos em modo de balanço das nossas vidas pessoais, profissionais e também da nossa vida interior. Recordo uma conversa com uma querida amiga, onde expressei desta forma o meu sentimento: “a nossa vida aqui é boa, confortável, organizada, segura, previsível, mas não me sinto feliz.”

O “fecho” de uma Casa Geral aberta “urbi et orbi”

Acabou o encontro dos novos Superiores Maiores dos Missionários Espiritanos vindos dos quatro cantos do mundo a Roma para “aprender” algumas ferramentas de liderança e espiritualidade. Partiram na véspera do “fechamento” do espaço aéreo. Caiu-nos em cima o estado de emergência que nos blindou em casa, com o lock down, a 9 de março.

A doença do coronavírus serve de desculpa para tudo?

À boleia da pandemia que nos aflige, vejo coisas a acontecer que não podem deixar de me espantar, pela sua aberração e desfaçatez de quem as pratica. Em meados de fevereiro, em Mullaithivu, no norte do Sri Lanka, foi descoberta uma vala comum enquanto se procedia às escavações para as fundações duma extensão do Hospital de Mankulam. Segundo os médicos legistas, os restos mortais encontrados têm mais de 20 anos.

Um refúgio na partida

De um lado vem aquela voz que nos fala da partida como descoberta. Um convite ao enamoramento pelo que não conhecemos. Pelo diferente. Um apelo aos sentidos. Alerta constante. Um banquete abundante em novidade. O nervoso miudinho por detrás do sorriso feliz. Genuinamente feliz. O prazer simples de não saber, de não conhecer…

Há futuro e uma Igreja dinâmica por terras de Cabo Verde

Durante um mês, estive com vários “monumentos” missionários vivos, em Cabo Verde que, desde 1954, quando chegou o primeiro, por lá continuam de pedra e cal. São todos Missionários Espiritanos, congregação que para ali foi em 1941, ajudando a reconstruir a Igreja nas ilhas de Santiago, Maio e Boavista.

Sankt Andreas Kirke, Copenhaga – Uma igreja nómada

Gothersgade 148, 1123 København K, Igreja de Skt. Andreas. Era este o sítio a que nos devíamos dirigir quando nos interessámos por um concerto de música clássica, de entrada gratuita, por altura do Natal de 2009. Estávamos em fase de descoberta daquela que seria a nossa casa por 10 anos – Copenhaga, Dinamarca.

Uma mulher fora do cenário, numa fila em Paris

Ultimamente, ao andar pelas ruas de Paris tenho-me visto confrontada pelos contrastes que põem em questão um princípio da doutrina social da Igreja (DSI) que sempre me questionou e que estamos longe de ver concretizado. A fotografia que ilustra este texto é exemplo disso.

Guiné-Bissau: das “cicatrizes do tempo” ao renascer do povo

Este mês fui de visita à Guiné. Uma viagem de memória para quem, como eu, não tinha memórias da Guiné. Estive em Luanda ainda em criança, mas as memórias são as próprias da idade. Excepção à única em que o meu pai me bateu. Às cinco da tarde saí de casa e às dez da noite descobriram-me a assistir, divertida, ao baile no clube. Uma criança de cinco anos, branca e loura, desaparecida na Luanda dos anos 1960 não augurava coisa boa, o que gerou o pânico dos meus pais. Daí a tareia…

Dos imigrantes europeus ao P. Joaquim Alves Correia, uma universidade nos EUA

A história desta Universidade americana faz-nos recuar ao fim do século XIX. Nada melhor que percorrer o seu vastíssimo campus para saber quando tudo começou. Uma enorme placa à entrada da Reitoria explica que foi fundada pelos Missionários do Espírito Santo em 1878, incorporada no Pittsburg Catholic College em 1882 e chamada ‘Duquesne University’ em 1911. A poucos metros, mesmo na entrada da Igreja da Universidade, está a estátua do seu fundador: o padre Joseph Strub, missionário alemão.

“When Love comes to town…”

Chegou o outono. E eu, que sou movida ao ritmo das estações, já trago comigo aquela melancolia dos ciclos. Chegou o tempo das rotinas que nos trazem estabilidade, mas nos retiram a espontaneidade do tempo sem tempo. E depois a vulnerabilidade do recomeço, essa de novo nudez onde tudo é possível.

Hoje não há missa

Na celebração dos 70 anos da República Popular da China (RPC), que se assinalam no próximo dia 1 de outubro, são muitas as manifestações militares, políticas, culturais e até religiosas que se têm desenvolvido desde meados de setembro. Uma das mais recentes foi o hastear da bandeira chinesa em igrejas católicas, acompanhado por orações pela pátria.

Amazónia, um pulmão a proteger

 Nestas últimas semanas, a Amazónia pegou fogo nas redes sociais! “A Amazónia está a arder”! – lia-se por todo o lado, em textos acompanhados de fotos ilustrativas, algumas das quais nem tinham nada a ver com a situação, ou porque eram fotos antigas ou de outras...

A Páscoa em Moçambique, um ano antes do ciclone – e como renasce a esperança

Um padre que passou de refugiado a conselheiro geral pode ser a imagem da paixão e morte que atravessou a Beira e que mostra caminhos de Páscoa a abrir-se. Na região de Moçambique destruída há um mês pelo ciclone Idai, a onda de solidariedade está a ultrapassar todas as expectativas e a esperança está a ganhar, outra vez, os corações das populações arrasadas por esta catástrofe.

Uma gotinha do Tamisa contra o “Brexit”

Mas o meu objectivo número um para a visita neste sábado era o de participar na grande e anunciada manifestação contra o Brexit. Quando cheguei junto ao Parlamento já lá estava tudo preparado para as intervenções políticas.

Pacto de Luz

“Por cá o Inverno vai bem alto, que é o mesmo que dizer temperaturas muito baixas e neve fresca todos os dias. Mas é a escuridão que inquieta e desiquilibra, fazendo-me a cada ano por esta altura, desejar regressar ao meu tão amado Sul.”

Bruno Ganz – um sopro de eternidade e um dia

Caso alguém precise de uma prova de que Deus existe e me tem muito amor, aqui está ela: uma vez convidaram-me para contracenar com Bruno Ganz numa encenação relativamente privada da peça “Coração a Gás”, do dadaísta Tristan Tzara. Como Deus existe, e gosta muito de mim, arranjou de eu nesse dia ter um compromisso noutra cidade. Assim se pouparam dois recordes Guinness: o meu embaraço e a vergonha alheia do Bruno Ganz.

Noruega, metáfora do futuro

 Este país do norte da Europa que, pelos mitos do frio e do escuro, pensava só se poder escolher por necessidade ou por loucura, é agora a minha casa desde há cinco anos.Recordo ainda assim que já o via de longe e o admirava pela sua verdadeira social-democracia e...

9 de Novembro. O que há numa data? E num nome?

A queda do muro de Berlim (em 1989), que deu origem ao processo de reunificação da Alemanha dividida após a Segunda Guerra Mundial, seria a melhor das razões para fazer do dia 9 de Novembro o feriado nacional alemão. Mas o 9 de Novembro está também marcado pela...