Sete propostas (e mais umas quantas ideias) para as JMJ em Lisboa, em 2022

| 28 Jan 19

Música, cultura e encontros inter-religiosos para o programa. E, como temas, a paz, o serviço, a ressurreição e a centralidade de Cristo, a comunidade, a espiritualidade, a importância e o papel dos jovens na Igreja, a missão dos cristãos… E quem conhece os Hillsong United? Banda australiana de pop/rock contemporâneo, eles enchem pavilhões com os seus concertos, como muitas outras bandas de música, e são já replicados por muitos grupos em várias línguas, incluindo em português. São precisamente uma sugestão que Mónica Ribau, doutoranda em Alterações Climáticas, faz para um concerto de música católica que, diz, poderia ter lugar nas Jornadas Mundiais de Juventude (JMJ), que decorrerão em Lisboa, no Verão de 2022, conforme anunciado no final das JMJ do Panamá, neste domingo, 27.

Se falássemos de música de inspiração bíblica, poderia até falar-se dos U2, cujos poemas estão cheios de inspiração bíblica. Mas há outras ideias: uma teia humana com todos os participantes das JMJ a cantar o hino das jornadas; uma pintura a larga escala; possibilitar a participação, em alguns momentos, de crentes de outras religiões (no Panamá, o jesuíta italiano Antonio Spadaro registou no Twitter um cartaz de saudação da comunidade islâmica local ao Papa e o gesto de os muçulmanos terem ajudado com água e comida); ligar mais as JMJ às artes, explorando diferentes vertentes culturais e tradições; promover actividades lúdicas, sempre referenciadas a Jesus Cristo, em locais diferentes; criar um hino internacional, com contribuições de todo o mundo, filmando o videoclip em Portugal; e fazer um hino “cativante e que fique no ouvido”, conjugado com uma coreografia.

Estas são as sete ideias propostas ao 7MARGENS por dez jovens que estiveram no Panamá e outros que, ficando em Portugal, acompanharam à distância o acontecimento, no final do qual se confirmou que, daqui a três anos e meio, será a vez de Lisboa. Mas as vozes escutadas não se ficam pelas propostas para o programa e sugerem também aquele que poderia ser o tema central do acontecimento. Quase todos buscam inspiração bíblica: “A ressurreição de Jesus, o Cristo que passou pela Cruz e agora vive para sempre e que, junto do Pai, nos oferece continuadamente o Espírito Santo”, sugere Rui Teixeira, médico, membro do Corpo Nacional de Escutas e docente na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Rui Teixeira, que participou em Março de 2018 no encontro pré-sinodal que reuniu 300 jovens no Vaticano, acrescenta que “várias passagens podem ser tomadas para meditação, centrando sempre na questão de Jesus Ressuscitado, razão de ser da nossa fé, esperança das novas gerações, num mundo tão marcado por ódios, violências, desonestidades”.

 

“Deverá ser um processo”

Francisco Power, 20 anos, de Aveiro, sugere uma frase bíblica: “Fazei tudo o que Ele vos disser”, retirada do episódio das Bodas de Caná, quando Jesus, a pedido da sua mãe, transforma água em vinho. Tal como a madeirense Paula Teixeira, 25 anos, que estuda no Politécnico de Bragança: “Permanecei em mim, e eu permanecerei em Vós” Jo. 15.4 pela necessidade de os jovens perceberem a necessidade de estarem sempre junto a Cristo.

Outros temas possíveis: “Amar a Deus é servir” (Diogo Chuva, Ílhavo), a espiritualidade (José Maria Ceregeiro, engenheiro civil, 24 anos, de Lisboa), a importância dos jovens na Igreja e a mudança na sociedade (Manuel Rocha, 19 anos, estudante em Aveiro), a missão (Joana Serôdio, 30 anos, bioquímica, a trabalhar em Beja), a experiência de comunidade (Marília Maia e Moura, 21 anos, a estudar em Aveiro, depois de ter trabalhado e estudado em Lisboa durante cinco anos) ou a paz, a partir de uma citação bíblica: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração…” (Juliana Santos, 19 anos, a estudar na Universidade de Aveiro).

Cartazes expostos na segunda-feira nas ruas de Lisboa, dando as boas-vindas aos jovens de todo o mundo que estarão na cidade em 2022; foto Carlos Borges/Ecclesia

Para lá de temas ou de propostas concretas para o programa, Rui Teixeira chama a atenção para o processo que as jornadas devem constituir: “As JMJ em Portugal – recordo que o anúncio oficial se refere a Portugal e não a Lisboa – deveriam, a meu ver, ser uma oportunidade para a Igreja em Portugal trabalhar em conjunto. Certamente que os actos principais se irão centrar na região da grande Lisboa, mas deverá ser um processo – mais do que um evento – das 20 dioceses, como referiu o senhor patriarca.”

Esses actos centrais deveriam, na opinião do jovem médico, ser diversificados na sua localização: rios Tejo e Trancão e Mar da Palha, encostados a Lisboa, ou o santuário do Cristo-rei e o parque da Bela Vista. “Julgo que não importa se é dentro ou fora da cidade de Lisboa, importa sim que a oportunidade seja de muitos e não apenas de alguns. Que sejam muitos a aproveitar-se desta oportunidade para se aproximar de Deus. Não só naqueles dias, mas certamente também no caminho que temos a percorrer até lá.”

Sobre um caminho fala também o padre Augusto Gonçalves, que liderou a pastoral juvenil da diocese de Leiria-Fátima e também a nível nacional, durante 25 anos. O padre Augusto esteve nas JMJ de Buenos Aires, as primeiras realizadas fora de Roma, em 1987, e recorda a cruz entregue pelo Papa João Paulo II, como “sinal da missão dada a todos os jovens” para levarem para todo o mundo “o sinal de um Deus que se entrega totalmente e que envia os jovens a seguirem o mesmo caminho”.

A cruz, diz ele, na expectativa das JMJ em Lisboa, é para “levar a todos o sinal mais do grande amor de Deus, que a todos desafia a percorrer o mesmo caminho”. Mas isso deve ser feito dando espaço ao “protagonismo juvenil, neste mundo que é de todos e onde os jovens têm uma missão muito importante, como afirma o Papa”.

 

Simplicidade, coragem compreensão…

Com João Paulo II, Augusto Gonçalves aprendeu também a “ir ao encontro do mundo, sem medo, mas com propostas concretas e evangélicas”. E do que aprendeu desses tempos, destaca também sete “atitudes pastorais bem necessárias hoje”: desde logo, a simplicidade no ser; a “coragem no agir e no seguir Jesus Cristo, sem medo”; a “compreensão pelos mais carentes a todos os níveis” e a esperança “de que o mundo pode ser melhor com a ajuda de cada pessoa”.

Também a interioridade “que me leva a dar a vida e a agir com qualidade, porque os valores partem do coração e não do exterior” e ser capaz de dialogar serenamente e de modo frontal, sem medos. Finalmente, é importante também uma “forte aproximação e aprendizagem com os irmãos cristãos”, de modo a que católicos, protestantes, evangélicos, ortodoxos ou anglicanos, sejam capazes de se “sentar à mesma mesa”. Em Portugal, há já iniciativas como os Fóruns Ecuménicos Jovens que mostram que isso é possível.

 

E depois de Lisboa, a vez de África?

Grupo de jovens angolanos nas JMJ do Panamá: depois de Lisboa, será a vez de África?; foto Ecclesia

Finalmente, o que podem trazer ainda umas JMJ em Lisboa, de diferente das outras? Nas suas reacções ao anúncio oficial, no Panamá, quer o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, quer o patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, destacaram a ponte para África que Portugal pode constituir. Numa entrevista ao Jornal de Notícias, ainda no Panamá, afirmou o cardeal Clemente: “Pensamos Portugal tendo presentes os falantes da língua portuguesa, o que alarga e promove uma ponte já penta-secular com os nossos irmãos do continente africano e Brasil, que têm uma forte tradição em participar nas JMJ. Certamente contaremos com muito significativa presença de jovens dos países lusófonos.”

Se é muito cedo para saber quantos jovens estarão em Lisboa, ou que necessidades logísticas as jornadas envolverão, já é possível prever que elas serão o maior acontecimento alguma vez realizado em Portugal durante vários dias. Também é verdade que os bispos portugueses estão empenhados em que haja muitos africanos lusófonos em Lisboa, em 2022. Por isso, também se pode começar a perguntar se as JMJ na capital portuguesa poderão ajudar a consolidar outra novidade: umas jornadas da juventude em África, o único continente onde até agora não houve nenhuma.

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