Tive o privilégio de escutar As Sete Últimas Palavras de Jesus na Cruz, opus 51 de Haydn (31/03/1732 -31/05/1809), na Fundação Gulbenkian. Setenta minutos de puro deleite. Setenta minutos de silêncio atravessado por um quarteto de cordas, o quarteto Quiroga: dois violinos, uma viola de arco e um violoncelo. Sopro suspenso. Olhos cerrados em concentração.
A obra As Sete Últimas Palavras de Nosso Salvador na Cruz foi composta originalmente em 1786 para a Catedral de Cádis, em Espanha. Haydn adaptou esta peça para várias formações, incluindo orquestra, quarteto de cordas e a popular versão de oratória com coro. Recebera a encomenda de compor “uma série de lentas e meditativas sonatas”, cada uma relacionada com uma das sete últimas palavras pronunciadas por Cristo na cruz, tal como aparecem nos evangelhos de Mateus, Lucas e João. Após uma introdução solene, desenvolvem-se as sete sonatas terminando com um movimento final dramático que representa o Terramoto (Il Terremoto), após a morte de Jesus.

Thomas Hardy (1757–1805?), Retrato de Joseph Haydn. Museu do Colégio Real de Música e de Instrumentos (Londres) / Foto reproduzida da Wikimedia Commons
Pendurado na cruz Jesus falava com as pessoas em seu redor. Apesar da dor, da tortura, da solidão, da sede e da falta de ar, não ficou em silêncio, ou desistiu: desdobrou-se, dirigindo-se aos outros – amigos, família, estranhos. Dirigiu-se a nós. Será que O ouvimos?
Apresento de modo reflexivo as sete frases que dão nome aos movimentos da obra de Haydn.
Primeira Palavra: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”

Andrea Mategna, A Crucificação. Louvre, Paris.
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem
(Sophia de Mello Breyner, in Livro Sexto, 1962)
Jesus dirige-se ao Pai, Abba, pedindo perdão para quem lhe fez/faz tanto mal. O argumento é o da misericórdia: “Eles não sabem o que fazem”. Apesar dos insultos é Jesus que toma a iniciativa de perdoar. Mas eles saberiam o que faziam? Aparentemente sim, e o poema de Sophia confirma. Bem cedo na sua vida pública Jesus começou a ser condenado, pelo medo que as suas interpelações perturbassem o status quo. Ele constituía uma ameaça ao poder e privilégios instalados. Interrogava quem o ouvia com radicalismo. Denunciava. Não deixava repousar as mentes fechadas, instaladas em si próprias, “os construtores das grandes estátuas balofas e pesadas”. Mesmo assim Cristo oferece perdão, estende a mão, tenta compreender.
Sabemos o que fazemos?, pergunta Sofia. Ou fechamos os ouvidos às vozes dos mais vulneráveis, dos oprimidos, dos rejeitados, das vítimas do nosso preconceito, dos descartáveis? Sabemos o que fazemos? Alimentamos os negócios das armas, desprezamos o diálogo, preferimos a violência, a guerra, a perseguição religiosa, a destruição pela destruição, a sede de vingança. Sabemos o que fazemos? E o planeta? Sabemos o que estamos a fazer ao nosso planeta por causa da cobiça e egoísmo de alguns, a recusa em abandonar privilégios, o lucro cego, a ganância…
Que sentido tem o perdão nesta Quaresma 2026? A quem perdoamos? Conseguimos perdoar a todos? Aos maldizentes? Aos que desprezam os mais pequenos, os pobres? Aos que usam o poder em seu próprio benefício? Aos que escolhem a guerra conscientes de que a indústria e comércio das armas prevalece sobre a razão ou mesmo a diplomacia?
No entanto (…) podemos falar do perdão de uma forma mais libertadora, mais criadora, da possibilidade a que abre, mas que é uma possibilidade que nos convoca a uma liberdade”, afirma Sónia Monteiro. O perdão que traz a libertação e a liberdade.
Jesus oferece o perdão, diz Sophia, “aos que não calculam” e andam “de mãos dadas com os perigos”:
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não
(Sophia de Mello Breyner)
Segunda Palavra: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.”

Hieronymus Bosch, O Jardim das Delícias Terrestres. Imagem: Domínio público, Wikimedia Commons.
Só a ti canto que não há razão
para que o frio que me queima os olhos
me trespasse e me suba ao coração;
só a ti canto, que não há desastre
donde não possa ainda erguer-me
para encontrar de novo a tua face.
(Eugénio de Andrade)
A promessa redentora: “Hoje mesmo estarás comigo no céu”. O desejo de redenção: “isto não é o fim…” Basta escutar. Basta um pequeno gesto e a mão estende-se, em misericórdia, na promessa do bom, do belo, do justo. Do amor: “o amor das coisas belas” dizia António Lobo Antunes. Um simples gesto gratuito de misericórdia, a gratuidade na dádiva, por iniciativa de Deus. A possibilidade de encontrar de novo a Sua face.
Sónia Monteiro, na entrevista atrás citada, continua: Apesar do erro que eu fiz, apesar do mal que eu fiz, apesar do mal que é feito, é possível outra coisa. O mal não é a última palavra. A bondade da criação permanece. É superior ao mal. E existe sempre a possibilidade de recomeçar.
Jesus oferece “outra coisa” ao “bom” ladrão, a possibilidade de se erguer. De recomeçar. Aceita que o outro ladrão lhe feche a porta porque a liberdade é sempre um caminho individual. O bem há-de prevalecer sobre o mal, essa é a nossa firme esperança, apesar de presentemente vivermos no “império do mal” em tantas circunstâncias. Teimosos, determinados, de olhos secos, insistimos em procurar o bem.
O “bom ladrão”, num simples gesto de verdade, de humildade, no pedido que faz a Jesus, alcança o prémio maior que é o de poder “erguer-se” e entrar na eternidade com Deus. Enquanto há vida, há oportunidade para o pecador que se arrepende: “Ergue-te de Mim. Arde” interpela Eugénio de Andrade:
Ergue-te de mim,
substância pura do meu canto.
Luz terrestre, fragrância.
Ergue-te, jasmim.
Ergue-te, e aquece
a cal e a pedra,
as mãos e a alma.
Inunda, reina, amanhece.
Ao menos tu sê ave,
primavera excessiva.
Ergue-te de mim:
canta, delira, arde.
(Eugénio de Andrade)
Terceira Palavra: “Mulher, eis o teu filho. Filho, eis a tua mãe.”

Simon Vouet (1590–1649), A Crucificação. Igreja de Jesus de Génova. Foto © Wikimedia Commons
Deixo crescer o cabelo sobre os pés divinos
Deixo crescer as lágrimas. Vede como planto
A minha vida
Põe a cadeira pequena ao teu lado
Não mereço sentar-me no teu colo
No chão onde escreve e apaga (…)
(Daniel Faria)
Quem cuida de quem? Vede “como planto a minha vida”. Quem protege quem? o Filho? a Mãe? Quem é meu filho, hoje? quem é minha mãe? Quem é o Outro?
Dar a mão, reconhecer, responsabilizar-se, olhar, escutar. A missão: cuidar. O grande testamento de Cristo Jesus: Cuida! Senta outro ao teu colo!
Mãe da Terra. Mãe das lágrimas. Casa. Mãe de todos. Senhora da Misericórdia apesar do pranto e do luto. E aquele grupo, depois da prisão de Jesus, prestes a anunciar o fim daquilo que o Mestre tinha começado, volta a ser reunido nesta palavra que Jesus dirige à Mãe e ao discípulo. Cuida! Jesus dá aquela mãe ao discípulo para que ela o tome como seu filho. Nele, todos os discípulos. Todos os humanos. Não apenas os que nos são próximos: os descartados, os que não têm quem cuide deles. Os doentes. Os que sofrem no corpo e na alma. Os que estão sós. Os que não ousam pedir.
Jesus demonstra o seu cuidado e atenção com aqueles que ama. Fá-lo com delicadeza, com amor desvelado: ”afasta-me o cabelo dos olhos com o dedo indicador”, num gesto de ternura:
(…) Deixa-me conhecer a caligrafia da palavra
Onde farei a casa. Afasta-me
O cabelo dos olhos com o dedo indicador
(Daniel Faria)
Falamos na maternidade espiritual de Maria: “Temos Mãe”, afirmou o Papa Francisco em Fátima. Ela guarda-nos em seu coração, na palma da sua mão. Talvez possamos imaginar João – e nele qualquer um de nós – rezando estas palavras a Maria:
A mulher lançou a sua mão
Eu estava na palma da mão
Eu era uma linha que se apagava
Uma linha que ninguém sabia ler.
Eu disse à mulher: Ah, fecha a mão
Para me guardares.
(Daniel Faria)
Talvez possamos imaginar-nos tão pequenos, frágeis que é possível que alguém nos guarde na palma da sua mão. Dobrando ligeiramente os dedos para que não caiamos, não nos apaguemos.
Quarta Palavra: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”
Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste? (…)
Deus meu, eu clamo de dia, e tu não me ouves;
de noite, eu não tenho sossego.
Porém tu és santo, tu que habitas entre os louvores de Israel.
Em ti confiaram nossos pais; confiaram, e tu os livraste.
A ti clamaram e escaparam; em ti confiaram, e não foram confundidos
(Salmo 22)
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
(Carlos Drummond de Andrade)
Agora sou Eu que digo, que clamo: no limite, a súplica; na solidão, o grito; na dor, a angústia; na fraqueza, a vulnerabilidade mais absoluta. O brado, a interpelação, o clamor que vem de dentro. Já teremos balbuciado um grito como este ao jeito do desespero de Jesus? Já interpelámos Deus desta forma tão suplicante, tão perdida, uma interpelação que vem do abismo de nós mesmos? “E o que vemos aqui é que, ao tomar como suas estas palavras, Jesus está a abraçar a experiência humana do sofrimento e da desolação, que é talvez aquela que mais nos causa vertigem, com a qual mais dificilmente sabemos lidar” (padre Hugo Gonçalves). Jesus comigo. Connosco. Penso nos meus amigos e em outros que sofrem no corpo e na alma e rezo a Deus que não os abandone, apesar de ter a certeza de que Ele está atento, que não pode abandonar a nossa súplica.
E o limite da escolha humana? A guerra em vez da paz, a agressão em vez do acolhimento, a defesa em vez da hospitalidade, o medo em vez da confiança, as desigualdades: porque me abandonaste se sabias que eu não era Deus, se sabias que eu era fraco?

Edvard Munch, Skrik (“O Grito”). Esta versão, pintada em 1910 em têmpera sobre cartão, foi roubada em 2004 do Museu Munch (Oslo, Noruega) e recuperada em 2006.
“Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste
e te afastas de meus gritos?
Brado em vão e sem repouso.
Encho os dias e as noites com as vozes desta angústia,
e o teu silêncio me cerca.”
(Herberto Hélder)
E o grito? a resposta que reside no silêncio? A vulnerabilidade e a fraqueza, “o mais absoluto desamparo” (Shusaku Endo), o chão inseguro, o abismo, a ausência de Deus, da mão de Deus? Que leva Munch a pintar este quadro? Que salvação será possível? Quem me salva do meu medo?
quando a morte vier, salva-me do meu medo,
Do meu frio, salva-me,
Ó dura mão de Deus com seu chicote,
Ó palavra de tábua me ferindo no rosto.
(Adélia Prado)
Quinta Palavra: “Tenho sede.”

Peça concebida pelo artista plástico norueguês Asbjørn Andresen para a Capela Árvore da Vida, em Braga. Foto © Joaquim Félix de Carvalho.
De noite iremos em busca da fonte de água viva
Só nos guia a nossa sede, só nossa sede nos guia.
(Taizé, a partir do poema de São João da Cruz)
Aceitar a própria necessidade, pequenez, a total vulnerabilidade, desejar beber da fonte. Mas, também, sede de afeto, de silêncio, de paz, de ser cuidado.
Qual a nossa sede? De Deus? De nós? Dos outros, do Outro?
Jesus também tem sede de nós, da nossa vida, do nosso coração voltado para Ele, da possibilidade de bondade, de beleza, de justiça.
Mas não só: ao pedido de Jesus é apresentada uma esponja embebida em vinagre, vinagre que sabemos que seca e queima os lábios, o vinagre que irrita a pele, o vinagre que queima e arde? Será que o soldado “não sabe o que faz?” A total ausência de misericórdia: sede, fome. Água viva.
José Tolentino Mendonça, no retiro realizado em 2018 no Vaticano dirigido ao Papa e cardeais, adianta: “a sede física documentava de forma convincente que Jesus era de carne e osso como toda pessoa”, mas tinha sede “da salvação dos homens”. (…) “A sede é o selo do cumprimento de sua obra e, ao mesmo tempo, do forte desejo de doar o Espírito, verdadeira água viva capaz de saciar radicalmente a sede do coração humano. ”A sede da qual Jesus fala é uma sede existencial que se extingue, quando a nossa vida se converge em direção ao Senhor”.
E continua: para nós, “ter sede, é ter sede Dele. Somos chamados a sair de nós mesmos para buscar em Cristo aquela água que sacia a nossa sede. “A sede de Jesus é a sede de dar água viva (…). Para nós, a sede de água viva é a sede de penetrar no mistério de Jesus, sede do Espírito. Para Jesus, a sede é o desejo de comunicar todos esses dons.” No entanto não podemos esquecer o cruel e patético vinagre como resposta ao pedido, à súplica. Sede de misericórdia. Sede de luz. Misericórdia para o soldado romano e, nele, para nós. Cristo, meu Cristo Jesus…
Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser –
se a luz é tanta,
como se pode morrer?
(Eugénio de Andrade)
Sexta Palavra: “Tudo está consumado.”

Salvador Dali, Cristo de São João da Cruz. Museu e Galeria de Arte de Kelvingrove, Glasgow (Escócia) / Wikipedia
No ponto onde o silêncio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio,
Esperei como quem espera em vão,
Tão nítido e preciso era o vazio.
(Sophia)
Será que ao ouvirmos as palavras “tudo está consumado” podemos acreditar que a missão de Cristo está cumprida? Estará? Esta expressão “tudo está consumado” é, para mim, um grito de dor intensa, uma dor sem regresso utilizado tanto em contextos religiosos (Paixão de Cristo) como na poesia para retratar a sensação de abandono total. Cumpriu-se a missão. A que preço? Como afirma Eugénio de Andrade: “Mais longe e solidão”? O amor levado até ao fim tal como foi anunciado. Jesus amou-nos de forma perfeita e mostrou na cruz o caminho para aprendermos a “amar também de forma perfeita”, entregando a vida. Ele consumou o amor por nós. Convida-nos a deixar “que o evangelho nos queime, a sermos “outro Cristo”, comungando “do seu sangue redentor”, como afirmava Santa Catarina de Siena. Consumimo-nos com Cristo, pelos outros?
A missão de Cristo continua todos os dias a ser cumprida. Ele precisa da nossa mão para continuar. Não acabou, não. Não está consumado não. Está incompleta, a missão. Todos os dias temos de trabalhar para a completar com atenção, cuidado e sensibilidade. Para que não se interrompa o projeto de Deus. É forçoso “garantir o mundo”.
Havia uma ordem no mundo,
de onde vinha?
E por que contristava a alma
sendo ela própria alegria
e diversa da luz do dia
banhava-se em outra luz?
Era forçoso garantir o mundo,
da corrosão do tempo, o próprio tempo burlar.
(…)
(Adélia Prado)
Sétima Palavra: “Pai, nas Tuas mãos entrego o meu espírito.”
Das profundezas clamei por ti, Senhor.
Senhor escuta a minha voz!
Que os Teus ouvidos prestem atenção
À voz da minha súplica.
Se observasses desregramentos, Senhor –
Senhor, quem aguentaria?
Porque junto de Ti existe a expiação. (…)
A minha alma teve esperança no Senhor
Desde a vigília da manhã até à noite.
(Salmo 129 (130), tradução de Frederico Lourenço)
Foram três horas de agonia. Entregar, inclinar a cabeça. Aceitação final. Abandono. Jesus devolve tudo ao Pai, coloca tudo nas mãos de Deus – tudo o que tem mas sobretudo tudo o que é. Mais, coloca-nos a nós, na história da Humanidade, na continuação do mundo pelas mãos do Pai. “É um ato supremo de confiança este que Jesus, no momento de expirar, realiza para com Deus” (Nuno Ventura Martins). Nas tuas mãos “entrego”, deposito aquilo que já fiz, aquilo que sou, o meu Espírito. Posso baixar as mãos e repousar. Entrar no repouso eterno. Entregar-me a Ti, qual cordeiro imolado, oferecido. Cumpri a missão, o destino. Estou nu diante de Ti. Deixa-me repousar em Teus braços. Estou nu.
Depois da morte de Jesus, o silêncio sepulcral. A ressurreição rasgará com estrondo esse silêncio, o grito da vida abafará o gemido da morte, a luz dissipará para sempre as trevas. Em silêncio, suspensos, esperamos. Até lá, o silêncio, o vazio, a nudez, o Nada.
Nada
nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra
Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença
Não coleciones dejetos o teu destino és tu
Despe-te
não há outro caminho.
(Eugénio de Andrade)
Pathos final
No peito uma dor que entope a fala e que a pede. Uma dor inexplicável e insolúvel que brota águas e uivos lancinantes e não para e nada para. A dor dos desastres recorrentes. A dor que já não sei se é de ti, se de mim, se de tudo ou de tanto nada. A dor que quero curar e nada cura. Como queria quem me ensinasse o mundo.
(Clara, em Escritas; organização Portal da Poesia)
Pathos. O desastre. A Escuridão. A destruição. O desastre ecológico. O desastre político. A fúria da natureza, dos elementos. A guerra. O Apocalipse. O triunfo do Mal? O Fim? O Nada?
Quando Jesus morre, diz-nos o texto sagrado, o Sol e a Luz ficam obscurecidos, as trevas recaem sobre a Terra e Deus guarda um silêncio profundo. Depois da morte de Jesus, o silêncio. “A ressurreição rasgará com estrondo esse silêncio, o grito da vida abafará o gemido da morte, a luz dissipará para sempre as trevas” (Nuno Ventura Martins). Em silêncio, no vazio, esperamos. Virá o futuro?
Perante o fundamentalismo e a intolerância crescentes e o esvaziamento da esperança nos sinais políticos e ambientais, desse questionamento fica a ideia trágica de um mundo em construção que transporta em si a profecia do seu próprio fim. Pathos é assim “uma ruína, um espetáculo-ruína”, uma tragédia. Mas, tal como face a uma tragédia grega – qual lago de águas paradas que nos desafia a nele lançar uma pedra que o anime –, também Pathos se faz de um desejo de ação e de drama, da “junção de um lago perfeito com a nossa vontade de o agitar”, já que não há pathos senão na mobilidade e na imperfeição. Nesse sentido, “Pathos é também um salto de fé”.
(Pathos, criação Cátia Pinheiro e José Nunes, coprodução Estrutura, TNSJ https://www.tnsj.pt/pt/espetaculos/5329/pathos)
Pathos como salto de fé. Acreditamos? Saltamos? A fé na Ressurreição, num Aleluia. Alegria, há futuro, “vem o futuro aí” (Miguel Torga).
Resta-nos esperar. “É tudo”.
Diário:
Seja o que for
Será bom.
É tudo.
(Daniel Faria)
Referências
Shusaku Endo (2025). Uma Vida de Jesus. Lisboa: D.Quixote (capítulo 12).
H. Gonçalves, (2020). As Sete Palavras de Jesus na Cruz. Celebração da Paixão de Jesus. Sexta-Feira Santa. Transmissão televisiva em direto. Paróquia do Campo Grande.
Nuno Ventura Martins (2022). As Sete Últimas Palavras de Jesus na Cruz. Paulinas Editora.
J. Tolentino Mendonça (2018). Elogio da Sede. Lisboa: Quetzal.
Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior e participante do Movimento do Graal; Contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com










