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Pormenor da capa do livro Sexo y Género a debate, de Juan Maria Uriarte. 

Um livro de Juan Maria Uriarte

Sexo e Género: o debate é possível!

| 07/04/2024

A capa do livro Sexo y Género a debate, de Juan Maria Uriarte

A capa do livro Sexo y Género a debate, de Juan Maria Uriarte. 

As tomadas de posição em torno da questão do género, com um vocabulário crescentemente hostil e guerreiro – tendente a criar um contexto de pânico moral, não cessam de se fazer ouvir no espaço público. Basta lembrar, a título de exemplo, a recente declaração do líder de um partido político português, na noite eleitoral de 10 de março passado, reclamando “acabar com a ideologia do género da escola pública portuguesa”. Ou, noutro âmbito, a afirmação do Papa Francisco, em discurso aos participantes do congresso internacional Homem-Mulher, Imagem de Deus. Por uma Antropologia das Vocações, em 14 de março: “Hoje o perigo mais horrível é a ideologia do género, que anula as diferenças. Pedi que se façam estudos sobre esta ideologia horrível do nosso tempo, que anula as diferenças nivelando tudo; anular a diferença significa anular a humanidade” (tradução oficial do sítio internet do Vaticano).

Pode, por isso, espantar alguns que um bispo da Igreja Católica, com 90 anos de idade, se aventure na publicação de um livro precisamente sobre esta temática. Sexo y Género a debate é o título da última obra de Juan Maria Uriarte. E é a última não só porque a mais recente, mas também porque este destemido bispo – primeiro como auxiliar de Bilbao (1976-1991), depois titular de Zamora (1991-2000) e, finalmente titular de San Sebastián (2000-2009) – faleceu a 17 de fevereiro deste ano. 

Juan Maria Uriarte estava plenamente consciente que “o tema género-sexo é multidisciplinar. Refere-se a muitas especialidades: a antropologia cultural, a filosofia, a psicologia, a sociologia, a biologia, a medicina, a história… É impossível que um só especialista abarque com suficiente competência todas estas especialidades. (…) É mais do que desejável que o tema seja abordado por uma equipa interdisciplinar que possa concentrar as aportações de todas elas. Pelo que parece, não é fácil a formação e coordenação de uma equipa desta natureza” (pág. 157). Foi, portanto, a dificuldade na constituição da tão necessária equipa que o motivaram “a abordar esta tarefa de modo solitário”. E explica: “Não sem consultar pessoas e publicações competentes. Estou muito consciente das limitações deste trabalho. Espero que seja útil para pessoas inquietas que tenham responsabilidades orientadores ou educativas: pais, professores, sacerdotes” (pág. 14).

Juan Maria Uriarte Foto © Conferencia Episcopal Española, via Wikimedia Commons

Sexo y Género a debate é o título da última obra de Juan Maria Uriarte. E é a última não só porque a mais recente, mas também porque o bispo morreu em fevereiro de 2024. Foto © Conferencia Episcopal Española, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons.

Pastor comprometido particularmente no âmbito da formação dos ministros ordenados na Igreja (participou em inúmeros encontros sobre esta temática também em Portugal), mas também nas questões sociais e políticas do seu povo (é conhecida a sua participação como mediador entre 1998 e 199, a pedido do Governo espanhol presidido por José María Aznar, nas conversações do Estado com o grupo terrorista ETA), esclarece que este seu contributo sobre um tema tão polémico “não se situa no contexto da ética, mas da antropologia que lhe está subjacente. Com o propósito de dialogar com quem não partilha a fé cristã, quis elaborar um texto que não pressuponha a fé” que professa (pág. 15). 

Particularmente pedagógica e instrutiva são as partes “descritiva” e “explicativa” da presente obra onde se faz a história dos conceitos, se enunciam os principais autores e as dinâmicas culturais, sociais e políticas que têm gerado (com particular discrição da realidade espanhola e das mais recentes leis e políticas públicas nesta matéria). Com a sabedoria e conceitos de um experimentado ancião, Uriarte avança também uma parte “valorativa” e outra “operativa”, aprofundando o quanto se deve – ou não – aplicar o conceito de ideologia. Na verdade, “é justo reconhecer que muitas das ideologias de qualquer índole contêm, juntamente com afirmações e práticas legítimas e saudáveis, elementos de caráter pré-científico ingénuo ou escondido. Também as encontramos na mentalidade tradicional. Mas não é por isso que a qualificamos imediatamente como ideologia. (…) inclino-me para utilizar esta qualificação com muita sobriedade mesmo quando nos referimos às versões mais extremas do género. É uma palavra que fecha vias para um possível diálogo” (pág. 133).

Trata-se, em síntese, de um texto altamente desaconselhado e perigoso para quem, sobre esta matéria, pensa que já está tudo dito ou que as formulações já escritas do Magistério da Igreja Católica ou da reflexão antropológica, teológica, política, psicológica ou sociológica do passado já dispõem de todas as categorias e juízos morais capazes de iluminar a vida real dos homens e mulheres deste tempo. Para Uriarte “o debate sexo/género não se decide, portanto, numa desqualificação mútua, mas numa sábia articulação, não sem tensão dialética, mas chamada a uma síntese em que os elementos biológicos, psíquicos e sociais são respeitosamente assumidos pela liberdade responsável em que todos eles encontram a sua expressão” (pág. 171). 

O Papa pede que se façam estudos! Há quem ponha os pés ao caminho!

 

[Nota da Redação: o Dicastério para a Doutrina da Fé, do Vaticano, anunciou para a próxima semana a publicação de um documento sobre vários temas morais, entre os quais a designada “ideologia de género”.]

 

Sexo y Género a debate, de Juan María Uriarte
ed. Mensajero (Espanha), 2023, 176 pág.

Luís Marinho é padre católico, assistente mundial da Conferência Internacional Católica do Escutismo desde 2022 e ex-assistente nacional do Corpo Nacional de Escutas (CNE). 

 

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