Sexta, 25, é dia de “salvar o clima” e salvar a justiça: esta é uma “luta pela vida”

| 24 Set 20

Manifestação em Lisboa a 29 Novembro 2019: “Continua a não se verificar uma resposta suficientemente ambiciosa face à ameaça iminente.” Foto © Greve Climática Estudantil

 

Salvar o clima e lutar pela justiça climática, mas também pela justiça social, económica e laboral. É a isso que se propõem as onze manifestações que sexta-feira, 25 de Setembro, em Portugal (e três mil em todo o mundo) se realizam em várias cidades ou através de plataformas digitais.

“É importante falar de justiça social e das várias crises”, diz ao 7MARGENS Bianca Castro, 19 anos, uma das organizadoras dos protestos desta sexta-feira, que se integram nas Fridays for Future (sextas-feiras pelo futuro), iniciadas há dois anos pela jovem sueca Greta Thunberg.

Bianca, estudante de Física e de Representação, em Lisboa, está também integrada na coordenação internacional da Greve Climática Estudantil, a designação da iniciativa a nível global. “O que reivindicamos é justiça climática, mas também justiça social, laboral e económica – está tudo interligado”, diz a jovem activista.

Convocadas pela plataforma Salvar o Clima, as manifestações, em Portugal, realizam-se todas a partir do meio e final da tarde, para possibilitar a participação de quem trabalha, explica Bianca. Porque esta “é uma luta de todos nós, não apenas dos estudantes, pelo nosso futuro comum”.

Em Lisboa, a concentração acontece no Marquês de Pombal, às 16h. A partir das 17h, os manifestantes descerão a Avenida da Liberdade até ao Rossio, onde haverá música, poesia, intervenção cultural e teatro. Tudo cumprindo as normas da Direcção-Geral da Saúde: a máscara será obrigatória, tal como o distanciamento físico, haverá gel desinfectante para distribuir e uma equipa de cuidados para verificar o cumprimento das normas.

No Porto, a concentração será às 17h30, na Avenida dos Aliados. E há ainda manifestações previstas para Guimarães, Aveiro, Coimbra, Alcanena, Santarém, Montijo, Setúbal e Beja. Em Faro, Évora e nas Caldas da Rainha serão manifestações digitais – o mapa, horários e locais de concentração podem ser conhecidos em pormenor na página da organização.

 

As metas necessárias
Manifestação. Clima. Greve Climática Estudantil.

Manifestação de Novembro do ano passado em Lisboa: é preciso correr, porque “o tempo, está a esgotar-se”. Foto © Greve Climática Estudantil

 

As reivindicações alargaram-se e são, agora, “mais abrangentes”, diz Bianca Castro. “Estamos todos na mesma luta e é uma luta pela vida. Ao enfrentarmos a crise climática, também está em causa uma crise na saúde, uma crise económica e social.” Por isso, o manifesto da Salvar o Clima – a plataforma que reúne 56 estruturas subscritoras ou apoiantes, entre organizações ambientalistas, climáticas, sindicais, políticas, de defesa dos direitos humanos ou dos direitos dos animais – considera que é mais importante que nunca que continue a “crescer a onda de mobilização por justiça climática”.

Num manifesto de intenções para a iniciativa, a plataforma aponta para metas que entende como necessárias para inverter a situação, no que a Portugal diz respeito: uma transição energética justa; requalificação justa dos trabalhadores dos sectores poluentes; o fim das concessões para explorar combustíveis fósseis em Portugal; investimento na ferrovia; criação de um sector público que lidere a produção de energia renovável; cancelamento dos grandes projetos que impliquem o aumento de emissões de gases com efeito de estuf a; acesso de toda a população a habitação de qualidade.

A convocatória começa por fazer um lembrete, uma crítica e um aviso: “Vivemos uma pandemia, mas a crise climática continua a ser tão gritante como era antes. Depois das mobilizações de 2019 e dos protestos de 2020, continua a não se verificar uma resposta suficientemente ambiciosa face à ameaça iminente da crise climática. O tempo está a esgotar-se.

Considerandos e propostas concretas são retomados no manifesto, que desenvolve e aprofunda alguns dos objectivos e das metas que esta iniciativa pretende atingir: perante uma crise climática, de saúde e da economia, os direitos básicos têm de ser garantidos a toda a população, de forma incondicional, diz o texto do manifesto. “No entanto, estes direitos estão ameaçados.”

 

Quem menos destrói é quem mais sofre
Manifestação. Clima. Greve Climática Estudantil.

São precisas “acções concretas e mudanças profundas, construídas socialmente para responder a um problema sem paralelo”. Foto © Greve Climática Estudantil

 

O documento aponta o objectivo maior: “Cortar globalmente 50% das emissões de gases com efeito de estufa até 2030 será a maior transformação que a Humanidade já empreendeu, e é exatamente aquilo que a Ciência nos diz que tem de acontecer.” E enumera, depois, o que pode acontecer se esse desiderato não for atingido: “Não o fazer é destruir as condições materiais que permitiram a civilização humana e é fechar os olhos ao agravamento da injustiça social climática que atinge sobretudo quem mais obstáculos enfrenta – mulheres, pessoas portadoras de deficiência, pessoas em condições socioeconómicas mais precárias e sem acesso a emprego e/ou salários dignos, habitação decente, alimentação e saúde, pessoas racializadas, pessoas discriminadas e excluídas devido à sexualidade, género, entre outros.”

“Em simultâneo, os países que historicamente mais contribuíram para as emissões de gases com efeito de estufa – países do Norte Global – têm responsabilidade histórica e moral para com os países que são mais diretamente afetados pela crise climática – que vem agravar, muitas vezes, dificuldades já enfrentadas. ​Quem menos contribui para as alterações climáticas é quem mais sofre com as suas consequências”, avisa ainda o texto, que pode ser lido na íntegra na página da plataforma.

Não há previsão do número de pessoas que pode participar nas manifestações, diz Bianca Castro. No ano passado, nas acções de Setembro e Novembro, estiveram cerca de 20 mil pessoas, em Lisboa. Provavelmente, estarão menos, desta vez, também devido à pandemia. Mas essa não será razão para desistir e o movimento prepara-se já para marcar a data para a acção global seguinte. Em Lisboa, há já alguns grupos que preparam uma acção para dia 17 de Outubro, sob o lema “Resgatar o futuro, não o lucro”.

Para já, nesta sexta-feira, os jovens e adultos que marcharão querem que muitos apareçam. Diz o manifesto, no apelo final: “Paramos porque não é possível continuar a fingir que será com pequenas reformas e esforços pouco ambiciosos que avançamos, mas sim com acções concretas e mudanças profundas, construídas socialmente para responder a um problema sem paralelo. Paramos porque não há tempo a perder. Paramos pela vida. Paramos pelas nossas vidas. Dia 25 de Setembro, páras connosco?”

 

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