Sexualidade humana, comportamentos desviantes, celibato – um comentário do psicanalista João Seabra Diniz

25 Fev 19Destaques, Igreja Católica, Sem categoria, Últimas

As reflexões que se seguem foram motivadas pelos movimentos que se têm desencadeado na Igreja Católica, a propósito de abusos sexuais frequentes da parte do clero, e do seu encobrimento por parte das autoridades eclesiásticas responsáveis. Serei muito conciso, reservando para um segundo momento uma análise mais desenvolvida do mesmo problema.

Amantes, pintura no claustro da Abadia de São Domingos de Silos (séc. XV), em Burgos (Espanha)

 

Penso que as afirmações que têm sido feitas devem ser enquadradas numa reflexão mais alargada do que aquela que nos tem sido transmitida pelos meios de comunicação social.

Nestes últimos dias, o Papa tomou a iniciativa de denunciar publicamente a situação existente.

 

1 – Inevitavelmente, a primeira área de reflexão terá que ser a sexualidade humana.

Cito uma passagem muito clara de que é autora uma psicanalista de língua inglesa, que trabalhou em Paris e é muito considerada. Em 1995, publicou um livro, cujo título é “The Many Faces of Eros”, que começa com a seguinte frase, bem clara:  

 Human sexuality is inherently traumatic. The many psychic conflicts encountered in the search for love and satisfaction, arising as a result of the clash between the inner world of primitive instinctual drives and the constraining forces of the external world, begin with our first sensuous relationship. (…) The slowly acquired relation of an “other” – of an object separated from the self – is born out of frustration, rage and a primitive form of depression that every baby experiences in relation to the primordial object of love and desire. Felicity lies in the abolition of the difference between self and other.( Joyce McDougall, The Many Faces of Eros, Free Association Books – London, 1995)

Isto é afirmado dentro de um pensamento científico sobre a sexualidade humana em geral. Nada tem a ver com o celibato nem com posições religiosas.

Refere-se ao facto indiscutível de que, no homem, o desejo e o comportamento sexual dependem de forma decisiva do mundo da emoção e da fantasia que se faz sobre a realidade em que se vive. Essa fantasia tem uma componente inconsciente, que determina a maneira como o indivíduo se apercebe do que sente e da maneira como concretiza, ou tenta concretizar, o desejo relacionado.

A história do amor humano e das relações mais diretamente relacionadas com o comportamento sexual, desde os testemunhos mais antigos que possuímos, é extremamente vasta. Dá-nos um exemplo esclarecedor das dificuldades existentes nesta área da existência humana.

É o conhecimento desta realidade que leva a autora que acabo de citar, a iniciar o seu livro com aquela afirmação lapidar: Human sexuality is inherently traumatic.

Muitos exemplos concretos  se podem dar, que ilustrariam bem a afirmação feita. Mas penso que esta concepção da sexualidade humana não é sequer discutível.

A história das perversões sexuais é abundante. Entre muitos outros casos, refiro só a obra do Marquês de Sade e de Sacher Masoch, de onde proveem os termos técnicos de “sadismo” e “masoquismo”.

Deixo só, como muito significativa, a afirmação frequente, usada como comentário a factos chocantes, de que “a prostituição é a mais antiga profissão do mundo”.

 

2 – É importante o reconhecimento deste facto. E é também fundamental reconhecer que a teorização científica sobre ele é muito recente na história da cultura. Em especial, o reconhecimento e o estudo da componente inconsciente do psiquismo é do final do séc. XIX.  

Até há muito pouco tempo, aos desvios do comportamento sexual, às transgressões, às perversões, davam-se explicações variadas, como sejam “más inclinações, “desonestidade”, “tentações do demónio”, “efeitos de magia”, etc. E as soluções ou terapias propostas tinham a ver com esta concepção das suas causas. Por isso, eram quase sempre de tipo religioso.

Crimes sexuais, violências sexuais, sobre crianças e adultos, sempre existiram. Esse facto não tem a ver com o celibato, mas tem a ver com o ser humano.

 

3 – No seu desenvolvimento como pessoa, o homem teve, pois, que se confrontar com as ansiedades, as angústias, as dificuldades, os dramas, os crimes, ou simplesmente a culpabilidade, ligados à sexualidade humana, aos desejos proibidos e à sua eventual satisfação.

Antonio Canova, “Psique reanimada pelo beijo do Amor”, escultura de 1793, actualmente no Museu do Louvre, em Paris (foto Pixabay)

Isto levou certas correntes de pensamento, e muitas pessoas singulares, a considerar, ou mesmo a proclamar, que a renúncia ao exercício da sexualidade representava uma decisão sensata, uma atitude de virtude heroica e um desejo de encontrar um caminho de virtude.

Surgia, assim, a decisão de renunciar ao que era vivido como más inclinações e de procurar um caminho de maior dignidade, para o que parecia aconselhável a renúncia à sexualidade e, portanto, a opção pelo celibato. Não está em causa a sinceridade de muitas destas decisões.

Tudo isto, como se sabe, ligado, quase sempre, também, a posições e ideais religiosos. E a Igreja considerou “estados de perfeição” estes caminhos de renúncia.

4 – Compreende-se, assim, que a consideração da  complexidade humana que representa o assumir a própria sexualidade e a relação pessoal que isso implica, tenha levado a renunciar à própria sexualidade pessoas que se sentem perturbadas e angustiadas com tudo o que sentem no seu íntimo a este propósito. 

Pode reconhecer-se que a escolha do celibato, em certas circunstâncias, seja uma decisão compreensível e respeitável. Mas, na realidade complexa da vida de cada um, não podemos excluir que muitas pessoas possam escolher o celibato por razões que têm a ver com angústias, culpabilidades e dificuldades que não conseguem resolver, e para as quais procuram encontrar solução deste modo. Renunciando. Quer dizer, negando o problema. O que poderá ter graves consequências no equilíbrio da pessoa.

Quando é assim, não há dúvida de que estes indivíduos ficam numa posição de grande fragilidade para enfrentar uma situação emocionalmente muito exigente, como é o celibato.

É indiscutível que este exige uma motivação esclarecida e sólida, em personalidades com características especiais de maturidade e equilíbrio, que não são frequentes. E, sobretudo, nunca pode ser uma fuga de dificuldades sentidas.

Portanto, para uma compreensão deste problema, é indispensável distinguir entre o celibato como estado e as pessoas que escolhem este caminho. A seleção dos candidatos é uma tarefa difícil, que exige uma preparação especializada de quem a faz.

A quem se confiará esta responsabilidade? A resposta não é fácil. Mas seja quem for que assuma essa tarefa, terá que estar bem consciente que a qualidade da motivação com que se escolhe o celibato, bem como o realismo e o esclarecimento com que se toma a decisão, são elementos decisivos.

Em muitos casos, e atendendo ao que tem acontecido, não podemos excluir que essa seleção, na prática, já seja feita por pessoas que, elas próprias, estão longe de corresponder a estas exigências.

Lucas Cranach, Adão e Eva (1530), Museo Nacional de San Carlos, México

5 – É razoável pensar que aquilo que hoje é denunciado publicamente, também foi sempre acontecendo no passado. A palavra pedofilia não era usada, embora existisse a realidade que agora se designa com essa palavra. Os factos existiam mas eram silenciados.

Por outro lado, mesmo quando tornados públicos, a divulgação da informação era completamente diferente do que é hoje. O encobrimento dos factos era a regra geral, e muitas pessoas aceitavam essa atitude como a mais “prudente”. Para evitar o escândalo.

É  bem significativo que muitos das denunciados que agora aparecem nos novos meios de comunicação social, se referem a factos ocorridos há muitos anos, e de que nunca se tinha falado, porque não havia condições para isso.

E são estes novos meios de difusão da notícia que tornaram impossível o “piedoso encobrimento” das transgressões, que era feito sistematicamente.

A novidade está, fundamentalmente, na divulgação da notícia e não nos factos em si, que sempre se soube que existiam. Antes, havia uma dificuldade em aceitar a situação que se sabia que existia, mas que era convenção aceite que não seria divulgada, para manter a idealização do celibato.  Porém, as condições atuais tornam impossível continuar a ignorar os factos.

É importante referir que temos assistido, recentemente, também a frequentes denúncias de abusos e violências no campo da sexualidade cometidos por várias figuras públicas, às vezes durante muitos anos, e que só agora foram divulgados, porque antes não era possível a divulgação.

Isto porque o problema não é só do celibato. É um problema da sexualidade humana, mas é evidente que o que se passa num contexto de violação de compromissos religiosos torna-se muito mais chocante.

A situação atual tornou impossível tentar ignorar estes factos. Mas há inúmeras referências ao longo da história a situações de transgressão das obrigações do celibato, algumas bem conhecidas dos contemporâneos

Na atualidade há uma mudança fundamental, e da maior importância, na atitude da Igreja. O Papa tomou a decisão, até agora inédita, de promover a denúncia das situações de transgressão. Quer dizer que há uma nova maneira de reagir a factos que sempre existiram, e que não têm a ver diretamente com o celibato, mas com as condicionantes da sexualidade humana.

Faço uma referência à história, entre muitas que se podiam dar. Stendhal, num livro em que conta as suas viagens no Norte da Itália em 1816, e em que descreve o modo de vida local, diz, sem qualquer comentário, apenas narrando, o que passo a transcrever.

 

Antes e depois de S. Carlos (Borromeo), os párocos da região de Milão tiveram amantes. (Acabava de mencionar um facto desse tempo). Nada parece mais natural. Ninguém os censura. E dizem-nos com simplicidade: “eles não são casados”. E num domingo de manhã vi uma senhora muito empenhada em não faltar à missa que iria ser celebrada por um padre seu amante. (Stendhal, Rome, Naples et Florence, Gallimard, Paris, 1987 , p.74)

 

6 – Mas, a meu ver, há um outro problema. É uma situação extremamente grave, que torna tudo mais melindroso, mas que até agora nunca vi referida. Trata-se da relação de grande proximidade que a confissão e a direção espiritual estabelecem entre as duas pessoas, uma em situação de autoridade, como quem ensina, outra na dependência da “orientação” ou  do “juízo” que vai receber. Por esta razão, deveria ser expressamente proibido manter relações de convívio social ou de amizade, com as pessoas que se ouvem em confissão ou em direção espiritual. É evidente que esta grande proximidade é muito melindrosa e facilmente cria uma dependência patológica. É muito significativo que nunca tenha sido denunciada, embora seja muito corrente.

Também é muito significativo que a hierarquia da Igreja pareça nunca se ter preocupado com isso.

Creio que todos podíamos contar histórias sobre este assunto.

“Parece, pois, que o celibato obrigatório, nas condições culturais e sociais em que hoje vivemos, não poderá continuar a ser exigido como até aqui.” (Na foto: padres portugueses na embaixada de Portugal junto da Santa Sé, em Roma, em 1942; foto: Direitos reservados)

7 – Parece, pois, que o celibato obrigatório, nas condições culturais e sociais em que hoje vivemos, não poderá continuar a ser exigido como até aqui. A meu ver, exige-se uma profunda revisão, clarificando, à luz do pensamento contemporâneo, o que a Igreja pensa sobre a sexualidade, que terá que incluir o caso dos “recasados” e a homossexualidade.

 

Lisboa, Fevereiro de 2019

 

João Seabra Diniz é psicanalista e membro da Sociedade Portuguesa de Psicanálise

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